quinta-feira, 19 de março de 2020

notas de leitura de “eu e os políticos – o que não pude (ou não quis) escrever até hoje”*


Este texto reune as várias notas de leitura que aqui fui fazendo durante alguns dias no ano em que foi editado (2016). É algo que desejava fazer e que agora faço graças à forçada reclusão a que alguns de nós estamos sujeitos. O livro, violentamente amaldiçoado pelos comentadores do regime, é um retrato muito interessante para a história da terceira república e de muitos dos sujeitos que a vilificam. Creio que se mantém até hoje na glória de ser o único livro proibido pelo regime (atributo que orgulhosamente ostenta na capa…). Se o Mein Kampf não tiver sido proibido ainda durante a segunda república (embora tenha tido entretanto uma reedição posterior à de Fernando Ribeiro de Mello, parece-me...).

* José António Saraiva, Eu e os políticos – o que não pude (ou não quis) escrever até hoje, Gradiva, 2016

_______________


Parece que José António Saraiva deu agora na reincidência de cometer um livro. Chamou-lhe “Eu e os políticos – o que não pude (ou não quis) escrever até hoje”.

Em outras circunstâncias, as probabilidades de o vir a ler seriam completamente nulas por duas ordens de razões. Em primeiro lugar em resultado da indiferença e repulsão que me inspira o assunto “jornalistas e políticos”. Depois porque o arquiteto, da última vez que dei por ele – coisa já de alguma idade –, pareceu-me francamente debilitado de juízo e arrancou-me gargalhadas sucedidas de um enorme constrangimento - o mal-estar em que se fica sempre que nos surpreendemos a divertir à custa de alguém que se percebe mentalmente diminuída. (E ao escrever isto, volto a sentir o mesmo embaraço, a apanhar-me em deselegância; é uma coisa feia, isto de falar assim de alguém que acreditamos enfermo, sem ser de feição sarcástica).

Fui arrancado a esta absoluta indiferença pelo coro de hienas que se lhe atiram aos glúteos e que me levam a ponderar a hipótese de se tratar realmente daquilo que a capa anuncia e que de outro modo interpretaria como arenga de editor: um “livro proibido”. Nesse coro, as mais perfeitas imitações de vozes humanas vêm precisamente de alguns dos que, durante décadas, sem um pio acerca duma eventual enfermidade, coabitaram e mesureiraram afagos daquele de que agora fazem presa.

Não leram nem vão ler, asseguram quase todos. Como nojo maior invocam a circunstância de o culpado se ter sentido autorizado a uma inconfidência: um político – que entretanto faleceu – ter-lhe-ia dito que o seu irmão, também político, era homossexual. Em vários casos, declaram a impossibilidade dessa confidência porque o confidente sentia um profundo afeto pelo irmão. Mas… para hienas tão politicamente corretas, dizer isto é mais que observar que alguém é gordo ou magro, alto ou baixo, tímido ou desinibido? É prova de desamor e portanto falso?

Na enfermidade do arquiteto, lembro-me, sobrevivia uma certa candura que dava luz a algumas coisas.
Amanhã passo pela FNAC.
Se valer a pena, coisa que não estou disposto a jurar, voltarei a este assunto.

_______________

adenda 
Como se poderá perceber das “notas de leitura” posteriores a este post, já li o suficiente do livro para saber que vale a pena voltar ao assunto.

Em consequência dessa leitura, que ainda faço,  – no meio de muito outros afazeres; “é preciso cuidar do nosso jardim”… - tenciono fazer um comentário final em que farei a revisão que me parecer justa das considerações que fiz acerca da “enfermidade” que – sem elegância e alguma dose de grosseria – atribui ao autor do livro.
24/06/2016
____________

p. 10

Para que é que eu preciso de saber que o Alberto João Jardim tem uma caligrafia “indescritível, correspondente a uma 3ª classe mal tirada”?
Não preciso.
Como também não preciso de conhecer todas as bandeiras do mundo ou ficar destroçado por a da Nova Zelândia não ter chegado a ir a votos.
Mas fiquei.
__________________________________

Ah, e o Marcelo anda anabolizado por Nova York a tentar ver-se livre da concorrência para um novo mandato (nota de 2020: alegadamente, promovia a eleição de Guterres para a presidência da ONU).

(Isto não vem no livro)



p. 160


(nã, nã, isto não vai assim de carreirinha mas ao sabor das conveniências; salto páginas, voltarei atrás).
______________________________

Está para ali em fundo o Pacheco, sentado à mesa com Dom Coelhone e os comparsas do costume a falar disto.


“É um livro miserável, é miserável sobre o carácter do autor, … o livro tem um buraco de fechadura na capa, quem costuma espreitar pelo buraco da fechadura tem um nome que é ‘voyeur’.” (acho que me apanhou, este sacana…)


Do seu ponto de vista “há crime!”; é “essencialmente um retrato do seu autor, é miserável na plena aceção da palavra”Dom Coelhone, de mão sobre o queixo, ouve o juízo com o ar grave que as circunstâncias impõem.

Ora, o que diz o “miserável” do Saraiva acerca do Pacheco? Tirando um encontro num comboio ao fim do qual o descreve como um chato, evoca um episódio em que Fernando Madrinha (sim, o nome está lá), então subdiretor do Expresso, lhe diz: “O Pacheco Pereira vai escrever para o Diário de Notícias”. O Saraiva diz que não pode ser, “deve tratar-se de um mal-entendido. Ele tem um compromisso connosco para escrever aqui.” […] “Eu sei disso’, insiste o Madrinha, ‘mas encontrei o Mário Bettencourt Resendes [diretor do DN] que me contou que esteve com o Pacheco Pereira e este lhe disse que ia escrever no Expresso. Então, o Mário Resendes perguntou-lhe ‘E quanto é que lhe pagam?’ ‘Pagam X’, disse o Pacheco Pereira. ‘Então, eu pago-lhe Y.’ E logo ali ele se comprometeu a escrever para o DN”

Vasculhado o crime fica-se então a saber que o Pacheco se apoquenta com a revelação de que vende as opiniões a quem dá mais, como se a sua barriga fosse diferente da barriga de um arquiteto.

Ensandece porque “as pessoas” não reagem atormentando judicialmente o arquiteto pela ignomínia. 
Ó, Pacheco, chega-te à frente, homem. Do que é que estás à espera para processar o  gajo? Tem lá os nomes todos, será fácil desmontar as mentiras do “miserável”.
Anda, Pacheco.

____________________________

O programa acabou com o Pacheco muito animado a combinar uma patuscada com os do costume.  A ver o mar. Para apanhar ar fresco, disse o Pacheco.

(Isto não vem no livro)



p. 220
Ali onde tomo café ao fim do dia, vi o Saraiva na capa de uma revisteca. Leio a entrevista. Era mais um conjunto de invetivas com assomos de recensão a pretexto de uma entrevista. A apoiar as invetivas, o entrevistador – ou entrevistadora, não sei, já não ligo… - esgrimia o “caso” de Margarida Marante.
(Um chouriço com pinta de analfabeto militante, atirou ao ar o veredito de que o livro era um nojo. Perguntei se o estava a ler ou se o tinha lido.)
Chego a casa e o livro abre-se – não onde o estava a ler – mas precisamente nas páginas dedicadas a Margarida Marante.

_____________________

Saraiva anuncia “confissões para ler com cuidado”. São oito páginas que retratam dois biltres que beneficiam de condescendência geral (mais cumplicidade que outra coisa qualquer…), condescendência com que ninguém o abençoa a ele, ao pobre Saraiva.

Seja como for, que ninguém nelas procure nada mais nada menos do que algumas das coisas que acerca daqueles dois germanais “assuntos” já foram ditas e escritas a várias vozes. Sem pestanejos de indignação.


p. 17

Rolam lágrimas pela face de Álvaro Cunhal quando em privado lhe falam da cerimónia fúnebre do pai e de onde, involuntariamente, esteve ausente.

__________________
Sinto-me a dar para o pulha por não conseguir visualizar a coisa; as lágrimas estão proscritas do missal estalinista.


p. 21
Conhecia-o do liceu mas iam para casa por caminhos diferentes. Digamos assim.
A partir do momento em que Saraiva foi para o Expresso, passou a ligar-lhe em Boas Festas a 24 de dezembro.
Em 1997 convidou-o para um almoço. Nessa altura já Ângelo Correia fazia “um grande negócio” para Sousa Sintra. Tirando a vaga impressão de que o Ângelo laborava um qualquer empenho, Saraiva saiu da mesa “sem perceber o convite”. Fico na impressão que lambujava umas croniquetas no Expresso mas Saraiva não coloca a hipótese. Não é uma situação inédita ao longo do livro; poderosos ou neófitos do poder convidavam-no e não são poucas as ocasiões em que Saraiva não chega a perceber a razão do convite.
No caso, a tainha de beira-cais não repetiu convite. Mas por via das dúvidas, Saraiva continuou a receber votos de Boas Festas.
_________________________
Sempre me fascinou, esta criatura do regime. Sem qualquer vocação para bully, ainda assim tenho a certeza que não lhe teria faltado com uns valentes calduços, tivesse ele sido meu colega de liceu. A ver se depois dava em especialista em assuntos árabes…


p. 44
A última das 22 páginas em que se fala de marquises e de um homem profundamente enfadonho e politicamente finório.
Cavaco Silva pergunta-se quantos anos mais virá a ter a cabeça em bom estado; “Tenho 76 anos… Terei mais oito, dez?”


p. 48
Saraiva pergunta-se se António Costa acreditaria mesmo na inocência de José Sócrates: “Fazia algum sentido ele comparar a situação de Sócrates à das pessoas ‘escutadas’ no tempo da ditadura? Acharia ele que Sócrates era um perseguido político? Se achava, tudo fazia sentido. Mas se não achava, tudo isto era um exercício de cinismo. Uma encenação.”


p. 51
Onde se dá notícia que Guterres disse: “Basta-me fazer de morto para ser primeiro-ministro.”

Como se sabe, esta qualidade de saber fazer-se de morto tem vindo a ser muito apreciada e a fazer escola. Tendo apostado tudo numa carreira política, António Guterres detestava tomar decisões: “Descobri que a maior parte dos problemas se resolvem por si próprios. Sem ser preciso fazer nada.”

Na primeira entrevista que dá ao Expresso como primeiro-ministro, em 1995, a uma pergunta terá dito: “A minha ambição é desempenhar um cargo num organismo internacional.”

E pronto.
É isto. Lá anda ele a fazer de morto e a comer chocolates.

"Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
...
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!"


p. 61
Veja-se, por exemplo, o António Horta-Osório.
Também dele o autor não chega a compreender a razão do convite.

(quase tudo acontece à mesa, o país “acontece” em restaurantes finos à hora de almoço…)

“Ele depois foi para Londres, para o Lloyds, teve um esgotamento, passou um mau bocado. Mas notei nesse contacto que não era um português típico. Era muito reservado, pouco falador… Olhava para as pessoas de baixo, com um sorriso enigmático, como se estivesse a medi-las, sem no entanto se revelar.”
Estão-me a ver isto? É ou não é fabuloso de surreal? É ou não é uma descrição absolutamente fabulosa?
É que se trata de um almoço numa sumptuosa sala de um banco onde não acontece rigorosamente mais nada que isto e "uma troca de impressões sobre a inveja". Em que, para além dos dois comensais, "a única presença humana era um empregado que entrava silenciosamente de vez em quando para servir".

- Mário de Carvalho, tem aqui uma bela história, azar o seu se não ler o livro.
Estão-me a ver o Horta-Osório a olhar de baixo com sorriso de Gioconda, a medir, a medir, para depois dar em pateta de fadiga?
____________
Se pensam que estou em modo irónico na descrição da passagem citada é apenas porque não me conhecem bem; acho-a sinceramente deliciosa e profunda.


p. 68
Onde Manuela Eanes telefona a Saraiva na aflição de o casal ter sido convidado para o casamento de Pinto da Costa com uma flausina qualquer: “Não podia dizer que não, pois tinha dividas de gratidão em relação ao FC Porto” mas tinha receio de que um jornal sensacionalista “apanhasse a notícia e fizesse chacota com o assunto”.
São 7 páginas acerca de um casal que aparece ali não se sabe muito bem a fazer o quê. Porque transpira decência, demos as voltas que quisermos na maneira de as ler.



p. 71
Nestas notas de leitura, convirá dizer, entretanto, que não esgalhei até agora nenhuma espécie de inconfidência malfeitora. Ando, aliás, afanosamente à procura delas por alegadamente o livro se resumir a isso; há, a propósito de Cunhal, a evocação de uma frase de que o autor se penitencia por a ter escrito em tempos – que não é uma inconfidência, mas uma frase infeliz -, e algumas passagens relativas a Margarida Marante, porventura escusadas, mas nenhuma delas será novidade para ninguém porque não são propriamente “material inédito”. Com efeito, embora não possa jurar onde ou quando o li, já nada daquilo era novidade para mim, pessoa particularmente desatenta a este género de “noticiários”. De resto, como já escrevi, na minha leitura, as páginas não são acerca de Margarida Marante, mas acerca dos irmãos Rangel e, lateralmente, de Henrique Granadeiro.

Vem esta longa nota a propósito daquilo que, em meu entender, é a necessidade de não extrair juízo das partes deslaçadas do todo, coisa que mais ou menos todos vêm fazendo. A página 71 é um magnífico exemplo da patológica candura com que caracterizei o autor ainda antes de possuir o livro; nela se pode verificar que não se trata a si mesmo de maneira diferente daquela que usa para tratar os outros.

_______________________


Onde Saraiva, na eminência de atropelar umas roseiras, vai a conduzir do Estoril a Miraflores com uma valente bebedeira:


“Entretanto, o tempo vai passando, eu vou beberricando mais uns cálices de uísque, o álcool não me fazia efeito, sentia-me bem – até que, quando começam os preparativos para a saída, no preciso momento em que me levanto, sinto o álcool a subir-me à cabeça e fico instantaneamente bêbedo. Nunca me acontecera nada assim. De um momento para o outro passava do estado normal a embriagado. Caminho em direção à saída por um corredor largo com colunas de mármore, tentando manter-me direito, saio para o jardim, vou na direção do carro que está ali estacionado, aponto a chave á fechadura enquanto penso: ‘Se não conseguir acertar à primeira, já não conseguirei meter a chave na fechadura, e aí será a grande bronca.’

Mas a sorte estava do meu lado - e acerto mesmo à primeira! Meto-me no carro, faço marcha-atrás, e aí ouço o Proença de Carvalho gritar, alarmado: ‘As minhas rosas! Cuidado com as minhas rosas!
[…] Chego a casa e atiro-me para cima da cama vestido, donde já não conseguirei levantar-me” .

___________

Numa ocasião qualquer, rabisquei uma historieta que pus aqui e em que inventei um personagem que era, em muito, inspirado em Saraiva à exceção da roupa porque o imaginei sempre de fato escuro e gravata. Por extraordinário que pareça, numa página mais à frente o Saraiva aparece vestido exatamente como o meu José Abrantes para um almoço com um banqueiro no Pabe.

Ora, li isto e embeicei-me a imaginar o que faria nas mesmas circunstâncias o meu José Abrantes, jornalista do “Expresso do Pinhal” e praticante de ioga; em casa de Daniel Proença de Carvalho e completamente bêbado.
Pois o meu José Abrantes, que nunca levou uma gota à boca, teria ido à mala do carro, teria de lá tirado uma marreta DIN de 5 quilos e cabo de fibra, e desataria a rebentar os painéis de mármore do casarão do Proença. E haveria de gritar:
“- Eu dou-te as rosas, meu cabrão! Ou contas tudo o que sabes ou rebento com esta merda toda, meu cabrão!”
E, meu Deus, nem imaginam os estragos que uma coisa destas pode fazer nas mãos de quem a saiba usar.
Mas o meu José Abrantes tem mau vinho e o Saraiva não gosta de palavrões nem de gente que os diga (p. 126, a propósito de João Soares). Portanto nada disto poderia dar certo.


p. 85
A pretexto de que tem uma “bomba” para lhe confiar, em 2010, Freitas do Amaral telefona a Saraiva e encontram-se no Grémio Literário, “um clube de elite”.
“Nesse encontro meio furtivo, sentados num banco forrado de veludo situado num lugar esconso, rodeados de reposteiros e madeiras escuras, Freitas denuncia o então procurador-geral da República, Pinto Monteiro, acusando-o de almoçar semanalmente num restaurante discreto com Proença de Carvalho, o advogado de Sócrates. Ou seja: segundo Freitas, numa altura em que Sócrates é acusado na imprensa de vários crimes, o acusador público e o advogado do suspeito juntam-se todas as semanas”.
Seria uma bela notícia, esta que lhe era dada por um ex-ministro de José Socrates.
“Mas Freitas pede-me para não dizer nada enquanto não me der luz verde. E eu respeito a combinação. Só que a luz verde nunca chegará.”


p. 90
De onde em duas penadas Saraiva traça o retrato de Domingos Duarte Lima, tal como o imaginei sempre a partir de certa altura:

Ao entrar num elevador, Saraiva confronta-se com Duarte Lima: “Fiquei tão surpreendido que, quando já avançava para entrar, parei bruscamente. Aí, ele diz-me com toda a calma: ‘Senhor arquiteto, não se atemorize…’ Entrei, cumprimentei-o e ele apresentou-me uma outra pessoa que vinha no elevador: ‘O meu filho…’ E virando-se para o filho: ‘O Senhor arquiteto José António Saraiva, diretor do jornal Sol.’ Este é o retrato verdadeiro de Duarte Lima: frio, gelado, nunca tira a máscara, nunca se emociona. O seu olhar não transparece qualquer emoção e no seu rosto não se vê um único músculo mexer mesmo nos momentos mais difíceis. E isto é um tanto assustador."

É. Parece de ficção, esta mistura de melomania e gelo.



p. 94
De onde se conhecem alguns dos oradores na última conferência associada ao último volume de um conjunto de estudos encomendados por Saraiva e com o título genérico de “Desafios de Portugal nos Alvores do Século XXI”
Tratava esse ultimo volume "de um tema que era a menina dos seus olhos [de Ernâni Lopes, autor dos estudos e, entretanto, falecido por doença]: a lusofonia. O intercâmbio entre países que têm como língua comum o português.”

“Esta conferência, realizada em 13 de maio de 2011, foi um enorme sucesso, juntando oradores, como Ricardo Salgado (que abriu a sessão), 
[…], António Mexia (presidente da EDP), Zeinal Bava (presidente da PT), Aguinaldo Jaime (Angola) e Luís Amado (então ministro dos Negócios Estrangeiros, que encerrou a sessão.”
E, com duas exceções (que deliberadamente omito – Ramalho Eanes e Fernando Henriques Cardoso), foi a esta gente que se entregou oração pela lusofonia. Com os resultados que, pouco tempo depois, se viriam a conhecer em toda a sua plenitude …

Não consta que a meia dúzia de pessoas por quem Ernâni Lopes tinha consideração no assunto da lusofonia – Vitor Bento, António Carrapatoso ou José Poças Esteves - haja sido convidada na qualidade de oradores.


p. 98
Onde Saraiva escreve que Fernando Nogueira “trocou a política pela banca, recusou-se a voltar a dar entrevistas, usou um pouco o BCP – o banco onde se empregou [na Fundação BCP] – como um convento.”



p. 102
Onde o Rangel ("jornalista") e Saraiva ajudam Pinto Balsemão a impedir a publicação no “Tal&Qual” de “uma coisa qualquer que envolve saias” “muito incómoda para ele.” Balsemão diz que é falsa, Saraiva acha que é verdadeira.
O Rangel resolve.
Viria mais tarde a fazer não sei o quê na SIC.
Fica-se depois a saber o que sempre se disse: Balsemão nunca interferiu no Expresso e nem chegava a saber das primeiras páginas antes de serem publicadas. Também se fica a saber que era forreta; que lamentava o desaforo de Jardim Gonçalves – que ao mesmo tempo que lhe falhava com a publicidade no jornal lhe ia ali “papar um almoço”; e que a saída de Saraiva do Expresso sucedeu com toda a lealdade por ambas as partes: uma das reuniões em que o assunto é discutido terá lugar “na Lapa, num palacete que Balsemão herdou de uma tia e onde tem uma espécie de escritório particular”. (É nestes pequeninos detalhes que os mundos navegam no livro de Saraiva)



notas às notas de leitura da página 68
Entendi aqui voltar. Nem sei bem porque me dou ao túmulo destas notas; nunca até hoje dei porque os meus filhos sentissem o menor interesse pela vida política do país. Talvez tenham razão para o não ter, talvez o venham a ter, não sei, como não sei por quanto tempo estas coisas por aqui ficam…
Mas volto aqui porque nesta nota passei por alto um incidente que é mencionado por J.A.S. e que é de particular importância pelas consequências que veio a ter no futuro da instituição da presidência da república. Vem na pág. 66 e diz assim:

“A conversa mais importante que viemos a ter … [com Eanes] … ocorreu em 1982 quando se discutia a primeira revisão constitucional. Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, líderes do PSD e do PS tinham-se entendido para reduzir os poderes de Ramalho Eanes, que ambos detestavam. A ideia era que o Governo deixasse de responder politicamente perante o Presidente da República. Ou seja, a margem de intervenção política do Presidente desaparecia na prática.”

Não estou por dentro dos detalhes, mas dou-me em apostar que a iniciativa terá sido de Soares. Porque detestava Eanes, é mais do que certo, e porque em 1982 este republicano já sonhava vir a ser uma espécie de rainha de Inglaterra de mistura com uma espécie de Jean Bédel-Bokassa no que se refere ao capítulo das despesas a faturar ao reino; viajar sem rei nem roque, ter aias e pajens a embarcar em “boeing’s”, motoristas acima da lei, guardas de honra (a destratar quando lhe desse para ser fixe), palácios e sonecas sem chatices.
Evidentemente que a mesma coisa convinha às nomenclaturas do regime para quem o cheiro a decência tem o efeito viroso de um glifosato.
Razão porque, desde então, elegemos sacos de vento a custos que estão francamente acima dos de qualquer casa real de uma monarquia moderna europeia (parece que já alguém se deu ao cuidado de fazer as contas – que suspeito terem sido feitas muito por baixo já que cada um dos republicanos e respetivo consórcio que por lá passa continua a faturar sobre o orçamento até ao resto dos seus dias).
De tal maneira que não faz diferença rigorosamente nenhuma o que qualquer um destes sacos de vento possa pensar acerca do treinador do Braga porque isso em nada irá afetar os resultados da jornada. Vão para aquilo porque sentem necessidade de ser amados que é a coisa mais humana do mundo.  E, já agora, que lhes paguemos as contas até ao fim dos seus dias.
De maneira que até pode ser o Tino de Rãs. Desde que não seja um seboso sem maneiras, tipo Vieira, tanto faz.
Viemos ao mundo para amar e pagar.



p. 120

J.A.S. dá-lhe pinceladas cinematográficas: nasceu no Seixal e é angolano por afeto. Com paragens pelos cinco continentes - mais demoradas pela Venezuela, Congo e Pequim, em 1980 e com 33 anos enfeitiçou-se por uma italiana rica em Casablanca. Em 1992 volta a Angola para aí lançar o Grupo Espirito Santo.

_____________________

Bataglia é presidente e fundador da Escom (empresa do Grupo Espírito Santo), ficou sob investigação por ter assessorado o German Submarin Consortium, empresa com corruptores julgados e condenados na Alemanha e no âmbito da compra dos submarinos pelo estado português; a Escom recebeu comissões de 30 milhões de euros dos construtores navais alemães.

Quase com a mesma frequência que o trampolineiro, nos últimos tempos, sempre que se tropeça num calhau de dinheiro com tonalidades mais sulfúricas dá-se com Bataglia num dom tranquilo silêncio; “As matérias empresariais pertencem à minha esfera privada”, terá dito a propósito de algumas dessas dezenas de milhões mais escuros.

Com ligações estreitas à cleptocracia angolana, Helder Bataglia “…juntamente com Sam Pa e com Manuel Vicente, futuro vice-Presidente da República, introduziu os chineses em Angola.”

(isto é um espartano resumo do que acerca de Bataglia tem vindo a ser publicado na imprensa; à exceção do citado, não consta do livro)

________________

Na sequência de episódios a partir dos quais seria legítimo suspeitar de alguma intimidade entre Batglia e Saraiva, e longe de imaginar que ele estaria por trás da solução dos problemas financeiros do Sol (p. 119):

“Nessa altura, os casos polémicos envolvendo Sócrates já queimavam, e o Sol liderava a informação sobre eles, através dos textos de Felícia Cabrita. Curiosamente, falei disso a Bataglia, mas não me deu grande saída. Não estranhei, pois ele não era um homem de muitas falas. Estava eu na altura longíssimo de sonhar que ele mantinha ‘negócios’ com Sócrates … Dava-se pois esta situação completamente surreal: o jornal que liderava a investigação contra Sócrates tinha um acionista que estava envolvido em negócios pouco claros com Sócrates! Caricaturando, Bataglia financiava a investigação aos seus próprios negócios escuros!”



p. 122
Durante um almoço no Hotel Flórida, Medina Carreira arroja “…ser capaz de fazer em 10 dias um plano para salvar o país. Estamos em pleno período socrático [2009] e, já sentados à mesa, pergunto-lhe: ’Mas esse plano é exequível politicamente?’ ‘Bom, era preciso o Presidente da República interromper a democracia, como disse a Manuela Ferreira Leite’”
_____________


De onde uma inocente graçola é transformada por um bom cómico em exemplo de “indiscrição sexual”:

Trata-se de um cu.

Já agora, o Ricardo Araújo Pereira podia ter acrescentado que o cu era o do então Ministro das Finanças, Henrique Medina Carreira. E se tivesse lido o livro, para maior efeito, até podia acrescentar um robusto sargento da Guarda Fiscal nas proximidades do ministerial cu.

Mas nessas circunstâncias o tal sargento também era enfermeiro, aprestava-se para ministrar uma injeção, e isso iria dar cabo da graçola-exemplo de “devassa da intimidade alheia”.


p. 126
O autor vai agora (1997) para uma almoçarada com o príncipe na moradia que a Câmara de Lisboa tem para seu uso em Monsanto.
João Soares diz que Jorge Sampaio, seu antecessor de folguedos, “odiava resolver problemas, tendo como frase preferida: ‘O que é preciso é manter a bola a bater.’ Ou seja: resolver os problemas era secundário, o importante era ir empatando o jogo (e o tempo)”
Saraiva, em vários momentos – com Guterres que não diz coisas dissemelhantes -, diz que Sampaio é “redondo”.

Ora: “redondo”“bola”, confere. O meu pai chamava-lhe “o Jiló” (ao Sampaio).
___________________

João Soares aparece aqui fundamentalmente para dirigir um palavrão a um personagem não identificado e anunciar que o marquês está lá fora; “O partido socialista não pode parecer-se com uma monarquia…”, terá respondido quando Saraiva sugeriu que um dia seria líder do partido socialista.



p. 129
“Almocei duas vezes com [Jorge Braga de Macedo]. Entre 1991 e 1993, no Ministério das Finanças, ao Terreiro do Paço, …
À saída de ambos os almoços, se me pedissem para resumir a conversa, seria incapaz de o fazer. Basicamente, não percebi nada do que o ministro disse.”


p. 132
“Jardim Gonçalves tem relações inesperadas. Mário Soares, por exemplo, era sua visita, chegando a pedir-lhe conselho sobre a aplicação de dinheiros. Quando Jardim Gonçalves me contou isto, Mário Soares estava na fase final da vida e fazia violentíssimos ataques ao Governo de Passos Coelho. Tinha virado completamente à esquerda pelo que estranhei a cumplicidade com o banqueiro. … E compreendi porquê. … [Também para Jardim Gonçalves, o Governo não mostrava] respeito pelos tais ‘centros de decisões nacionais’ que o banqueiro tanto defendia”

__________
Fico aqui a pensar se o Jardim terá aconselhado o pai da pátria a investir as suas poupançazinhas em acções do BCP, e se tais investimentos não lhe terão precipitado um mau “estado da cabeça”. Como dizia o outro a perguntar-se acerca do assunto.

p. 136
Uma das coisas mais curiosas do livro é o ver como o poder lança as suas sementinhas para fazer “notícias” das suas conveniências. E ver como os jornalistas são inseminados ou se deixam inseminar. As páginas dedicadas a Jorge Sampaio ilustram exemplos curiosos:

“… [A]tendo a chamada. É Jorge Sampaio. Faz-me uma pergunta estranha: ‘A entrevista é só para falar da Câmara?’ Percebo que ali há gato. Digo-lhe, a tatear o terreno, que o prato forte será a CML, mas que a nossa ideia é também falar doutros temas. E então Sampaio sai-se com esta: ‘O jornalista podia fazer-me uma pergunta sobre as presidenciais…’” Sampaio haveria de dizer na entrevista “[q]ue seria muito estimulante para ele ter Cavaco como adversário nas presidenciais.”

Em 1995, para preparar um colóquio organizado pela Alta Autoridade para a Comunicação Social (!) sobre jornalismo e política promove-se… um almoço!
Manuel Villaverde Cabral e tudo, “… que pertence à comissão política da candidatura de Jorge Sampaio” terá dito qualquer coisa que “arrepia” o autor e o leva a escrever no seu diário:

“30 de Novembro de 1995
[…] Villaverde diz uma coisa extraordinária: é preciso fechar, pura e simplesmente, o Canal da RTP, porque ainda lá há ‘resquícios de cavaquismo’ que será difícil ‘extirpar’. Por outro lado, congratula-se com a demissão de Vasco Graça Moura [o diretor do canal]. Todos como ele deviam ser ‘corridos’. Confesso que fiquei um pouco assustado. Será que na comissão politica de Sampaio se pensa assim? Estamos no limiar de uma caça às bruxas generalizada? Subitamente parece termos regressado ao pós-25 de abril e à fúria vingadora de uma certa esquerda. Só que eu julgava esse período definitivamente encerrado.”

Enfim, a coisa correu bem. Eleito em 1996, em 1997 já Sampaio estava no aeroporto com o seu séquito, na eminência de visitar a sua congénere holandesa. Em evento diplomático de importância crítica para as relações externas da nação, como se poderá facilmente imaginar.
Convidado, Saraiva descreve a viagem nos seguintes termos:

“Achei graça à experiência de viajar com um presidente da República. Durante o percurso em território nacional (quer à ida, quer à vinda) o avião é acompanhado por dois caças da Força Aérea, que voam tão perto de nós que é possível ver com nitidez o rosto dos pilotos. E à chegada ao destino, em plena pista, somos recebidos à saída do avião por uma banda militar. Além disso, participa-se em banquetes, conhece-se o protocolo, contacta-se de perto com celebridades. Falei dois ou três minutos com a rainha Beatriz da Holanda.
No regresso escrevi um artigo onde dizia, entre outras coisas, que Sampaio era melhor a falar em inglês do que em português. … [T]alvez pelo facto de o inglês ser muito objetivo, direto, Sampaio era menos redondo e mais incisivo quando falava em inglês do que quando usava a sua própria língua.”

Talvez seja essa a razão porque gostava tanto de andar por fora. Talvez sentisse que era a melhor maneira de não aborrecer tanto tanta gente, mas não posso jurar nada disto.
Seja como for, embora Soares tenha fama e proveito, muito mais discreto do que este, parece que o verdadeiro campeão das milhas foi “o Jiló” - ao que me disse o meu pai, era este o nome pelo qual toda a gente o conhecia lá na barbearia.
E na minha qualidade de eleitor - que vive os seus dilemas, como qualquer pessoa -  apreciaria muito que em futuras inquirições a futuros candidatos presidenciais, os senhores jornalistas dessem prioridade à seguinte questão:
 - Tem o Sr. Doutor / Engenheiro / Almirante (riscar o que não se aplica) qualquer fobia no que se refere a viagens de avião fretadas em débito ao contribuinte? Tem medo de andar de avião?
Em caso afirmativo ficará o senhor jornalista a saber, assim como nós todos, que está perante um bom candidato em potência.
É que não tendo manifestamente nada para fazer – a historieta da “magistratura de influência” serve para dizer exatamente isso com falinhas mansas -, não tendo nada para fazer, dizia eu, o futuro presidente haverá de inventar maneiras de se aborrecer de todas as formas humanamente possíveis; nas nuvens, debaixo de água, … Enfim, o que lhe vier à cabeça acabará sempre em parcela a abater no salário dos súbditos.
Digo assim por desabafo, sem expectativas; os jornalistas, no seu infindável jargão, têm termos para crismar todas as coisas que se assemelhem ao comum bom senso – “demagogia”“populismo”, etc., etc.
Não acham “graça”.

Preferem fazer manchetes a denunciar um “livro com revelações da vida sexual de políticos” (o DN, por exemplo):

Um dos exemplos de tais "revelações" pode ser lido na pág. 139, que passo a citar:

Na sala de embarque para a tal viagem do Jiló  ao encontro da sua congénere do Reino Holandês, o autor encontra-se com Cardoso Pires, que lhe pergunta: “’Você vem sozinho ou trás a sua mulher?’ Respondo-lhe que estou sozinho. Então, entre duas gargalhadas, diz-me: ‘O João de Deus Pinheiro, apesar de ser ministro de Cavaco, era um tipo com muita piada. E numa viagem disse-me o seguinte: ’Quando se viaja com a mulher, gasta-se mais e fode-se menos!”

Caros, jornalistas, comentadores políticos, humoristas, enfim, portuguesas e portugueses:
Isto não é um exemplo de “vida sexual” de ninguém. É uma anedota. Um pouco ordinária, mas uma anedota. A ordinarice é, aliás, toda uma categoria nessa coisa das anedotas e do humor. Senhores humoristas, ao menos vocês deviam ser capazes de reconhecer uma anedota quando leem uma. No meu caso, como não sou profissional do assunto e não queria estar para aqui a dizer disparates, até fui ler Ted Cohen, que escreveu um delicioso livrinho acerca de tão sério assunto e é filósofo. Dos bons. Portanto, quando  escrevo que é uma anedota, é porque é mesmo uma anedota; confrontei a substancia da passagem citada, as circunstâncias em que é narrada, a natureza ontológica dos protagonistas, os condicionais associados, enfim, tudo, tudo.
E cheguei às seguintes conclusões:
1. No seu género, a anedota é realmente engraçada;
2. O Cardoso Pires fez muito bem em contá-la a um conhecido jornalista;
3. O conhecido jornalista fez muito bem em contá-la aos seus leitores;
4. E a mulher de Deus Pinheiro andará bem se lhe gastar o dinheiro como se não houvesse amanhã, se o foder daquela maneira que só as mulheres sabem, e se lhe oferecer um valente par de quaisquer coisas de seu gosto.

Não sei se me está a escapar alguma coisa, mas os marujos da indignação podem fazer-me chegar as suas objeções, se for o caso. Sou suficientemente competente para as estraçalhar a todas, sejam elas quais forem.


p. 173
Do Pacheco, fiz notas. No livro, seguem-se-lhe 10 páginas dedicadas ao trampolineiro. Têm uma ou duas coisas que oferecem sensível diferença do “quadro clínico” que lhe havia diagnosticado há muitos anos. Calha-me refleti-las quando lavo os dentes. Também me acontece andar a pensar que Saraiva sabe e testemunhou muito mais coisas do que aquelas que dá a ler. Voltarei quando sentir que acabei.
________________

“Após o fim do cavaquismo*, Marcelo Rebelo de Sousa tomou conta do PSD, em março de 1996 – sucedendo a Fernando Nogueira que não aqueceu o lugar - De braço direito de Marcelo a braço direito de Barroso. Ora, um dos aspetos mais importantes desta época foi a constituição de uma ‘nova AD’ (Alternativa Democrática) – uma aliança entre PSD e CDS, liderados por Marcelo e Portas – que Leonor Beleza intermediou, com vista a disputar as eleições de 1999.
Esta intermediação de Beleza pareceu-me pouco dignificante. Grande parte da campanha contra ela quando era ministra 
[da Saúde] fora feita, como disse, pel’O Independente [semanário de que Portas era diretor] – um jornal que se empenhara abertamente no derrube do cavaquismo (do qual Leonor Beleza fora uma das figuras mais destacadas. Como podia agora Beleza ser agora a promotora de um entendimento entre o líder do seu partido e o ex-diretor do jornal que a combatera com ferocidade? Como tinha estômago para isso? Mas a gota de água foi quando, depois da queda de Marcelo, anunciou o apoio a Durão Barroso – que tinha conspirado contra Marcelo! Eram cambalhotas a mais!”

Porventura em razão do seu desempenho à frente do Ministério da Saúde, em 2004 e por testamento, António Champalimaud designou Leonor Beleza como presidente da sua fundação, onde ainda hoje permanece não voltando à vida política.

_________________

A propósito do “cavaquismo”, valerá a pena reparar que jornalistas e comentadores políticos – porventura sempre em dificuldades para descortinar alguma caraterística distintiva de um qualquer líder político - arranjam sempre um “ismo” por cada criatura que passa pelo poder. Como se assim subsumissem e diferenciassem uma doutrina política. Desta maneira, com extraordinária ligeireza, falaram de um “cavaquismo”, de um “marcelismo”, de um “barrosismo”, de um “soarismo”, de um “guterrismo”, de um “socratismo” (juro que não estou a inventar; o corretor ortográfico só me dá erro em “barrosismo”!...), …
Com Valente de Oliveira (p. 184) haveremos de ver um excelente exemplo da verdadeira substância e natureza dos “ismos” fulanizados do regime democrático. De outra maneira, ao lerem as “fontes”, os historiadores futuros haverão de ficar confusos com o turbilhão ideológico em que parecemos afogar-nos.

(Oh, Rosas... Não baralhes os teus netos, meu sacana pançudo!)


p. 179
Saraiva almoçou bastantes vezes com Marques Mendes que chegava sempre atrasado. Levantava-se da cama e almoçava sem passar pelo pequeno-almoço.
“mendismo” tinha um truque para não darem pelos seus atrasos em dias de Conselho de Ministros: “… combinou com uma secretária do Conselho de Ministros que, antes da reunião começar, penduraria um casaco nas costas da cadeira onde ele se sentava -induzindo a ideia de que ele já ali tinha estado mas saíra”.
De onde se prova que os senhores conselheiros bem podem mandar o casaco e ficar a dormir. Nas “distritais” os debates não são mais acalorados:
“… [D]iz-se muito desiludido em relação ao PSD e aos partidos em geral. Os militantes não discutem ideias, só querem saber de lugares – é o resumo do que ele pensa. Dá exemplos de sessões partidárias em que procura lançar o debate político mas as únicas reações que obtém são perguntas acerca de lugares.”
De maneiras que se dedicou à escrita e garante que “escreveu mais de 50% dos discursos de Durão Barroso”.


p. 184
Uma caricatura dos políticos do regime que justifica uma longa citação.
Surreal, é como Saraiva descreve o almoço com Luís Valente de Oliveira:
“[L]ogo no princípio da conversa diz-me uma coisa perfeitamente inesperada:’Convidei-o porque estou a elaborar as Grandes Opções do Plano e, nestas situações, gosto de ter uma conversa com uma pessoa fora da política. Da última vez falei com o Miguel Esteves Cardoso, que me fez sugestões interessantes.’ Eu fico para morrer. O homem convidou-me esperando ouvir propostas fantásticas, mas eu não tenho nada para lhe dizer nem tenho já tempo para pensar no assunto. Faço um sorriso amarelo, enquanto esmifro desesperadamente a cabeça a ver se me vem um lampejo qualquer. A verdade é que estou obrigado a dizer coisas minimamente inteligentes…

É nesse momento que me ocorre uma ideia salvadora: ‘Portugal é um país pequeno e por isso não pode apostar na quantidade; tem de apostar na qualidade. No turismo, não podemos apostar num turismo de massas, no ‘turista de caracol’ que não tem cheta. Há que atrair outro tipo de turista. E tal exige oferecer melhor qualidade. E isso é válido para todos os setores. No turismo, nos têxteis, no mobiliário ou no calçado há que apostar na qualidade. E mais qualidade não significa gastar mais dinheiro: o fundamental aos produtos de exportação é um bom design. Um bom design é decisivo – tanto para os móveis, como para os têxteis ou os sapatos… E tanto custa produzir móveis ou sapatos com mau design como com um bom.’

Umas semanas depois, assistia eu por acaso a um telejornal, quando vejo aparecer o ministro Valente de Oliveira a anunciar as Grandes Opções do Plano 2015. E começou mais ou menos assim: ‘Portugal entrou numa nova fase, e a nossa grande aposta para os próximos anos tem de ser na qualidade.’ E o ano seguinte será mesmo batizado como ‘o ano da qualidade’”

Isto poderá até parecer um exercício de jactância da parte de Saraiva. Mas estou absolutamente convencido que as coisas se passaram exatamente assim e não acredito que o autor em algum lugar do livro tenha lançado mão da mentira. Em meu entender até seria um bom “plano” embora nem seja particularmente original; tem vindo a ser a “solução” de pequenos países como a Suíça.
Mas como se vê, o “oliveirismo” entende que uma política, uma “grande opção”, é concatenável em um “ano da qualidade” e que basta perguntar a quem passa para saber onde fica o melhor restaurante da terra.


p. 187
“Em 25 de Abril de 2003, é Ferreira Leite ministra das Finanças, o Presidente da República, Jorge Sampaio, faz um célebre discurso em que – referindo-se à política financeiramente exigente do governo – diz: ‘Há mais vida para além do Orçamento.’

Estávamos na pré-campanha das eleições de 2009, as segundas disputadas por José Sócrates. Era evidente para mim que Sócrates ia vencer, pois Manuela fazia uma campanha amarga, muito negativa. Boa parte da sua mensagem centrava-se na crítica ao plano megalómano de obras públicas de José Sócrates, que incluía um novo aeroporto de Lisboa, o TGV, uma nova ponte sobre o Tejo (também em Lisboa), 10 barragens, a requalificação da Zona Ribeirinha, etc. Mais tarde viria a perceber-se que Manuela Ferreira Leite estava cheia de razão nesse combate. Mas na altura não era evidente que todo aquele fogo-de-artifício propagandístico de Sócrates acabasse como acabou, na quase bancarrota e num resgate financeiro. E muito menos que o primeiro-ministro pudesse receber luvas pelas obras.”

Destes episódios da nossa história recente, ainda há muita coisa que não é “evidente” para muito boa gente, designadamente no que se refere à honorabilidade do trampolineiro; em boa medida, ele não é significativamente diferente de outros que por aí andam ou andaram.



p. 193
“Ele era secretário-geral do PSD, o homem do aparelho que Cavaco Silva não levou para o Governo de 1985, e eu achava-o irritante e conflituoso.”

Meia dúzia de anos depois, (“[e]m 1991 ou 1992…”) estava José Pedro Castanheira, jornalista do Expresso, a dar voltas à cabeça na tentativa de compreender como é que um modesto advogado de província acabado de chegar às “governações” podia acumular finanças lícitas para o luxo que começa a ostentar para os lados do Estoril; “[n]ão se trata de ‘notícia’ mas de uma ‘presunção’.

Depois de sair do Governo [com maiúscula, conforme o original], Dias Loureiro começou a evidenciar alguns sinais exteriores de riqueza e até uma despropositada (e fatal) tendência para a ostentação. [fatal, porquê, caro Saraiva? – Pergunto-me eu para aqui…]. À refeição manda vir vinhos caríssimos, segundo me contam.”

As evocações de Saraiva continuam-se pelas magras quatro páginas que lhe dedica, em exemplos em que Dias Loureiro se oferece “…para [os] mandar buscar a todos onde for preciso, inclusive de helicóptero.” Para almoçar na Herdade do Esporão.
__________

Cavaco Silva, o homem que reclamou para si próprio uma seriedade acima da média dos mais comuns mortais, pareceu ter sempre esta extraordinária capacidade de se rodear deste género de pessoas. Que, sabe-se lá como, desencantava a pontapé sob um qualquer calhau de granito numa qualquer cova do país profundo.
Com Dias Loureiro a transpirar “riqueza”, estalava “o escândalo do BPN” e “surgia entre os suspeitos, ainda que recusasse energicamente qualquer ato ilícito e eu acreditasse na sua inocência. Não por achar que era um anjo – mas por achar que era suficientemente inteligente para não se deixar apanhar numa ilegalidade evidente.” Aquela coisa do Ministério da Administração Interna deve ter ajudado na escola. E os documentos escondidos na casa de banho foram amendoins para quem sabe acompanhar-se de um libanês manhoso em viagens pela América Central.
As controvérsias não arranham quem sabe do edifício jurídico que no parlamento é laborado à vírgula  para inocentar as patifarias de quem se agiganta nas idas à lata das bolachas.


p. 198
De onde se dá notícia do subgénero “empowered beautiful people”.

Num almoço… em 2001, Manuel Maria Carrilho propôs a Saraiva, na sua qualidade de diretor do Expresso, a cedência “…em exclusivo, [...] das fotos do seu casamento com Bárbara Guimarães, sob certas condições.

A proposta de Carrilho era esta: ele dava-me em exclusivo as fotos, eu comprometia-me a publicá-las na revista Expresso a preto e branco. Ele trazia tudo pensado: a revista do Expresso daria às fotos um ‘toque intelectual’, e o preto e branco dar-lhe-ia o ‘toque artístico’.”
____________

Nem vale a pena continuar a chafurdar estas notas; para quem, como eu, faça parte daquela massa de pessoas peganhentas que frequenta cafés e churrascarias, saberá muito bem da continuação desta saga chique através das manchetes das últimas páginas dos jornais pousados nas mesas.

p. 207
De onde se dá notícia de um calhandreiro com episódios de insanidade mental que vai a presidente da República. As páginas de Saraiva são enfadonhas porque não acrescentam nada; não era candidato à câmara nem seria candidato à liderança do PSD. Cristo desceu à terra, fez uma campanha sem dinheiro e no requinte de por ela ser pago em comícios dominicais até às vésperas do dia da eleição presidencial. Arabesco a que uma comissão de não sei quê das eleições disse nada, mais ou menos o que disseram os comparsas a concurso.

Diretor do Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, na revisão de textos de uma secção de fait divers enfia o seguinte comentário: “Balsemão [proprietário do jornal] é lelé da cuca” (o senhor professor viria a fazer uso da expressão em relação a muitas outras pessoas). Entretanto já havia simulado o seu enforcamento no parapeito da janela da sala em que aguardava uma entrevista com o mesmo Balsemão. Outros episódios e histórias correm - e tive oportunidade de ouvir de quem se me afigura com possibilidades de as ter testemunhado - sobre o nosso querido presidente. Como a da receção a um embaixador. Em cuecas. Até podia acrescentar uma delas, relacionada com viagens e muito curiosa, que por um acaso tive a oportunidade de testemunhar. Não farei nada disso. Apenas o menciono para recomendar prudência quando, a propósito de alguém, o ouvirem pronunciar o diagnóstico de que é “lelé da cuca”.
Dá-se apenas esta coisa extraordinária de - um personagem excêntrico e idiossincrático, potencialmente divertido -, em poucos dias, ter conseguido exceder o irritante enfado que me dava volta ao estômago com o Jiló.


p. 144
Onde virei duas páginas a dar revelação de que José Luís Arnaut - para o caso de alguém ainda se recordar de quem seja ou tenha sido -, “nunca foi totalmente sincero nem confiável.”
Onde realmente houve novidade de alguma monta –nesta coisa de tirar retrato de quem nos governa – foi algumas páginas depois, na figura que no livro lhe sucede. Fiquei a cismar de tal maneira que dei salto.
Voltarei. À semelhança do que me sucede com o trampolineiro, ainda me vem à cabeça nalgum espanto.

p. 228
De Mário Soares já quase tudo se escreveu. Marcello Caetano, com muita graça – tudo tem graça quando se graça de Mário Soares -, também o resumiu na sumária descrição de “um medíocre advogado da Rua do Ouro”.
Jorge Lacão, sem direito a páginas dedicadas, aparece-lhe aqui a funcionar para Soares na qualidade de secretário e na figura militar de um ordenança. Abria a porta a Saraiva para uma das entrevistas com Soares, que lhe dá novas de uma europa com muita graça, contada precisamente pelo homem que “nos meteu na europa”:

“Nessa noite, Mário Soares – que era deputado ao Parlamento Europeu, por onde passou entre 1999 e 2001 [e onde amuou ao embaraço porque a certa altura queria ser não sei o quê e o preteriram a favor de uma senhora qualquer…] – levou o serão a ridicularizar deliciosamente certas práticas que lá existiam. Descreveu as votações, que eram muito rápidas, pelo que ninguém sabia o que estava a votar. As leis eram designadas por números e os deputados de cada grupo parlamentar guiavam-se pelas indicações de voto do elemento que fazia de ‘ponto’, dizendo se eles deviam votar a favor, contra ou abster-se.Uma farsa! Não havia vontade individual. [tudo isto me faz lembrar qualquer coisa igualmente "engraçada" mas mais doméstica, que não lhe devia ser nada estranha…]
Outra história: quando as reuniões eram em Estrasburgo, empacotavam-se em caixotes os documentos de cada um dos 754 deputados – formando-se depois um cortejo de camiões TIR entre Bruxelas e Estrasburgo. É óbvio que a maioria esmagadora dos caixotes ia e vinha sem ser aberta. Os caixotes andavam a passear na estrada. E tudo isto custava milhões. Um desperdício! Soares contava estas histórias com muita graça.”

Enfim, como se não nos bastasse a “graça” doméstica, Soares – na sua qualidade de homem “que nos meteu na europa” –, arranjou maneira de nos acrescentar esta. Mas Saraiva dá-nos notícia de outras histórias edificantes, como aquela da prioridade de uma noite bem dormida sobre a ameaça de uma bancarrota:

“[Q]uando Soares era primeiro-ministro (em 76, 77 ou 78?) recebe um telefonema de Silva Lopes, governador do Banco de Portugal, às 2h da manhã. Este diz-lhe que o país vai cair em bancarrota ‘amanhã’, Soares responde-lhe: ‘Ó homem, então amanhã, quando cairmos em bancarrota, avise-me. Mas agora deixe-me dormir!’" 

Isto teria graça se fosse o Zé a responder ao tipo do banco por incumprimento nas prestações do carro. A meu ver, deixa de ter assim tanta graça quando o Zé é primeiro-ministro e a traquitana é o país. Mas achou-se graça. Mário Soares foi sempre muito engraçado.
E o país foi sempre a sua traquitana.


p. 235
Onde, pela segunda vez - num livro que chega quase ao fim -, se fala de gente de bem. De gente para quem a decência vem antes de tudo o resto.
Tratando “de tudo com lisura”, Miguel Portas iniciava o jornal-revista (”Já”), lugar em que juntava dois afetos; jornalismo e política. Com o seu antigo patrão (Balsemão) como pequeno acionista, convidou Saraiva, diretor do jornal para onde trabalhava, para “lhe dizer que convidava para o seu projeto uma jornalista do Expresso: ‘Só levo uma pessoa, que para sua estranheza é a Teresa Oliveira’, começou por me dizer. Estranheza porquê? Porque a Teresa Oliveira era vista como uma das pessoas mais conservadoras da redação, e era suposto o novo jornal abordar causas fraturantes…”

É na sequência da evocação deste encontro com Miguel Portas que o autor escreve uma das passagens mais diabolizadas do livro:

“Comentámos a política. Disse-me com um ar perfeitamente natural e sem me pedir segredo que o irmão nunca seria líder do CDS, explicando: ’O Paulo é homossexual e teme que, com a exposição que o cargo lhe daria, isso pudesse vir a público.’ Esta profecia mostrar-se-ia errada em toda a linha: dois anos depois deste almoço, Paulo Portas seria líder do CDS e os jornalistas nunca explorariam as suas inclinações sexuais.”

De facto, assim foi e ainda é. Tanto quanto vejo e posso testemunhar – em todos os lugares, designadamente os mais “rústicos” -, os meus concidadãos até podem ser afetados pela debilidade de fazer comentários acerca da vida íntima alheia – e a dos políticos não é exceção. Mas nunca em algum momento eleitoral ouvi alguém invocar essa vida intima como argumento político. Outro tanto poderá dizer-se acerca dos jornalistas. De onde talvez se possa concluir acerca de alguma superioridade em relação a povos com tradições democráticas mais antigas…
Seja como for, foi a propósito desta passagem que se produziram muitos dos comentários mais assanhados, desqualificando o autor como mentiroso, a pretexto de que conheciam muito bem Miguel Portas e "ele nunca poderia ter dito tal coisa porque adorava o irmão" (esta frase é literalmente citada de Daniel Oliveira)
Acerca desses imbecis não tenho nada a acrescentar ao que aqui escrevi ainda antes de ler o livro.


p. 238
Onde se escreve que “Morais Sarmento era considerado uma das ‘boas cabeças’ do grupo de apoiantes de Durão Barroso, e foi premiado com um ministério quando D. B. subiu ao poder, sem ter currículo que o justificasse.”
Fica dito em pouca coisa.
Além do “efeito porta giratória” como abono de funções executivas, abichava e abicha como advogado “Júdice”, um outro grande tartufo do regime e de quem Saraiva não dá novas.


p. 24
Onde se dá notícia de um fait divers ("repetir é significar"…):

“Maria José [Nogueira Pinto] disse-me que [Paulo Portas] arrastava uma mágoa: como conservador que era, gostaria ‘de usar sobretudo e de ter uma família, mulher e filhos’, mas tal não era possível. Ou seja: a sua personalidade estava em conflito com a ideologia que perfilhava.”

É deliciosa aquela parte em que Paulo Portas gostaria de “usar sobretudo”. Fico para aqui cheio de ideias a construir um personagem cuja principal característica seria a de ambicionar “usar sobretudo".


p. 247
De onde se fala de Pedro Passos Coelho, anunciado apresentador do livro que se escusou de o vir a fazer em virtude de uma borrasca. Estou tentado a resumir o ex-primeiro-ministro com duas metades de dois subtítulos das páginas que lhe são dedicadas: um ”muito formal” “balão cheio de ar” (esta descrição é minha; não a imputo ao autor embora o cite).

Interessante – e largamente coincidente com a impressão que tinha da senhora – é o retrato que Passos Coelho faz de Dilma Rousseff: “’É uma mulher presunçosa, arrogante, desagradável, roçando a má educação’
Adianta que ela despreza Portugal e fez várias desfeitas a Cavaco Silva. Exemplifica: numa cimeira ibero-americana em Cádis, em novembro de 2012, esteve 10 minutos a falar com Cavaco em espanhol, como se não soubesse quem ele era. Este estava estupefacto, sem saber o que fazer: Dilma era Presidente do Brasil há dois anos e não o conhecia?”

Precisamente, caro Saraiva; além das aduzidas propriedades, a criatura junta-lhes a ignorância  que anda sempre de namoro com a presunção.
De onde se segue que os nossos compatriotas brasileiros (sim, sim, porque a minha pátria é mesmo a minha língua) não parecem ter sido abençoados com melhor sorte no que ao poder político diz respeito.



p. 251

Chegado aqui, já não me sobra muita paciência para a hospedeira, para a Cinha e para o secretário de Estado da Cultura de Cavaco que foi a primeiro-ministro num curto episódio em que o Jiló vê uma aberta e o manda para casa, pondo fim aos tabefes de que alegadamente era vítima.

Falta-me o Machete, o Constâncio (a nossa Dilma), o Barroso e o trampolineiro.
Mas hoje é dia de festa.

Celebremos!


pág. 147 

De onde o autor fala de um guarda-fatos com motorista.
“O seu aperto de mão é um pouco estranho, pois estende a mão (um bocadinho sapuda) semifechada. Talvez porque tem normalmente a mão húmida.” Ou talvez porque a sua motricidade mais fina haja sido afetada dos tempos de militância no MRPP em que “… andava à pancada com grupos rivais. Dizia-se que era temível. Aparenta ser mais baixo do que na realidade é, porque tem um corpo maciço, quase atarracado. Mas deve ter perto de 1,80m.”
Seja qual for a razão, esta porcaria nunca chegou a aprender a conduzir; “[c]omo foi governante muito cedo (aos 29 anos era secretário de Estado da Administração Interna), e começou muito cedo a ter motorista, não aprendeu a conduzir nem fez outras coisas banais para qualquer cidadão comum.

A  saída do governo colocou-lhe vários problemas. Ficou sem motorista. Contratou um, … , mas muitas vezes estava dependente de terceiros. Um dia, em 1996, … pediu-me para o ir buscar à sede do Grupo Espírito Santo, …

Depois de sair do governo e ficar desempregado, Durão Barroso foi portanto trabalhar para o GES. Não devia fazer nenhum trabalho concreto, penso eu. Mas os Espírito Santo seguiam – com ele e com outros políticos – a prática de lhes darem emprego, pois era uma forma de terem ascendente sobre certas pessoas influentes. Fazendo-lhes favores, colocavam-nas na posição de terem de retribuir um dia.”

Recordo-me de o ver como “colonista” do Expresso – Saraiva menciona-o – mas não me recordo de haver sentido vontade ou razão para avançar da segunda linha dos seus textos; “[e]screvia de uma forma redonda, carregada de autolimitações para não comprometer. Era sempre muito politicamente correto, nunca arriscava uma opinião fora da caixa. Era maçudo e previsível.” 

Resumidamente, era alguém sem uma única ideia que não fosse a de trepar e a das manhas que estão geralmente associadas a essa vontade.

“Em Março de 2003 realizou-se nas Lajes a Cimeira dos Açores. Durão Barroso diz-me ao telefone que Colin Powell, secretário da Defesa dos EUA, fez uma exposição em que convenceu os líderes europeus da existência de armas de destruição maciça no Iraque.”

Alega então que foi assim, “convencido”; o Barroso estava renitente e o Bush já começava a ver a vida a andar para trás, a ver que não podia rebentar com Bagdad... Mas lá acabou por se oferecer para as funções de mordomo da tal “cimeira” que viria a colocar o território português na geografia dos crimes de guerra perpetrados pelos “aliados” e que desde então assolam o médio oriente numa coisa cinicamente batizada de “primavera árabe”; a necessidade de derrubar “o tirano Bashar al-Assad “, parece ser a flor ainda em falta no desabrochar deste maravilhoso bouquet.  No meio do mais ruidoso silêncio e da aparente cumplicidade dos cidadãos das civilizadíssimas “democracias” europeias.

Em 2004, com alguns meses na função de primeiro-ministro, disse “que Chirac lhe tinha telefonado nessa manhã a insistir para que ele aceitasse [ser escolhido para presidente da Comissão Europeia].


‘Não acha que as pessoas vão pensar que eu fugi?’”, perguntou a Saraiva.
Não pá, as pessoas não pensaram que fugiste. Pensaram que foste à tua vidinha, apenas isso. A crise política que por cá deixaste e as cenas macacas em que se arrastou não são mais que a democracia a funcionar, o futebol é mesmo assim.

Confesso que não sei qual foi o bairro que deu à luz este pedaço de esterco. Mas se me fosse dado eleger a criatura mais repugnante de entre as que temos tido a desgraça de ver governar-nos, este seria sem dúvida um dos mais sérios candidatos.
Entretanto, desde que terminou funções lá naquilo da europa, vem-nos brindando com algumas pequenas alegrias.
Mete-se num avião e vem a correr para Lisboa a farejar a possibilidade de um derivo triunfal até ao palácio de Belém. “Lisboa” larga-se a rir e ele afocinha de faro uma monumental tampa.
Alguém transpira que ele tinha passado a abichar pela Goldman Sachs e põem-se os gajos lá da europa a rabejar que já não tinha direito a tapete e só lá voltava a entrar pela porta da cozinha que era a porta reservada a serviçais.
Numa divertida galhofa, ameaçam cortar-lhe com a “pensão de sobrevivência” e vemo-lo a choramingar queixinhas de lhe fazerem aquilo a ele “só por ser português” (sic) porque há outros meninos e meninas a abichar por fora e não lhes acontece nada.
Uma outra alegria que nos dás: a Goldman Sachs vai atirar pela janela todo o dinheiro que combinou dar-te porque o teu valor de mercado é inferior ao de uma ação do GES. Todo lampeiro a pores-te à venda e acontece-te uma coisa destas, vê lá tu.
Oh Barroso… Não deve de haver mais de meia dúzia de portugueses a não querer que te auto-insemines com muita força.
Digamos assim.


p. 257

De onde se dá notícia pálida de mais uma porcariazita porque me impus fazê-lo e vivo na impressão de nunca levar nada até ao fim, nem sequer essa coisa de nunca levar nada até ao fim.
Rui Machete foi ministro dos assuntos sociais, da justiça, da defesa, dos negócios estrangeiros e vice-primeiro ministro. Fica-se com a impressão de que quando precisavam de um gajo lembravam-se  do Machete.
Saraiva diz dele que “[é] um senhor, bem preparado, mas sem o rasgo de um político. Mas também é verdade que não apostou todas as cartas na política, mantendo sempre o seu escritório de advogado.”

Bom, esta coisa de Machete ser “um senhor” é algo altamente improvável; ocorrem-me dezenas de adjetivos mais adequados à descrição deste canalha.  Por exemplo, aqui temos uma descrição bem mais rigorosa de tal “senhor”:

“In 1992, Ambassador Briggs reported that, "As long as Machete is there, FLAD can only be marginally useful to us."
The foundation's overhead then was 60% of revenue, leaving only 40% for actual programming. Today, this figure is only somewhat better as FLAD continues to spend 46% of its budget on overhead for its luxurious art-adorned offices, bloated staff, fleet of chauffeured BMWs, and on "personnel and administrative costs" that has included at times wardrobe allowances, low-interest loans to staff, and honoraria for staffers participating in FLAD's own programs."

Pois este “senhor” (que viria a ser o ministro dos negócios estrangeiros escolhido por Passos Coelho...) deveria ser um embaraço diplomático, não por não servir da melhor maneira os interesses do governo americano, mas por não servir ninguém senão a si próprio da maneira mais obscena possível.
Nem valerá a pena acrescentar que abichou pelo BPI, CGD, BCP, BCPI, SLN, BPN, BPP, isto apenas para  mencionar o sector financeiro; se fossemos ao resto chegaríamos à suspeita de que só em nove vidas haveria espaço para tamanho currículo.
Enfim, num país com cidadãos que se dessem ao respeito, este “senhor” estaria na cadeia e seria expropriado de todas as suas pilhagens. Dá-se apenas o caso de o virem achando “preparado”.


p. 258

Recordo-me que em tempos, vez por outra, – não sei se ainda acontece –, os jornais “de referência” davam de construir a reputação de alguém que afiguravam como promessa política e que era unanimemente apresentado como cântaro de virtudes e qualidades, a água mais pura e fresca para protagonismo político num qualquer partido (com representação parlamentar).
Para mim, o primeiro e último desses episódios em que me senti tolo de fé– de vida breve, apenas até aos primeiros assobios da criatura – foi com Durão Barroso. Sucederam-se outros: António Vitorino, por exemplo - foi divertido porque a certa altura percebi que os “criadores” estavam espantados com a medíocre vulgaridade da criatura.
Outra dessas “criações” foi Vítor Constâncio que viria a ser “apontado como o mais forte candidato”:

“Na conversa que mantivemos mostrou-se um homem convencido de si próprio. Estava-se no período de sucessão à liderança do PS, após o anúncio de saída de Mário Soares, e ele era apontado como o mais forte candidato. À minha pergunta sobre o assunto, respondeu que só se candidataria se tivesse a certeza absoluta de ganhar e houvesse uma quase unanimidade em redor do seu nome. Era como se estivesse a fazer um favor ao PS e não aceitasse ser contrariado.”

À frente do Banco de Portugal, não obstante sucessivos erros em previsões macroeconómicas, continuou a gozar de “boa imprensa”. E continuou a gozar de “boa imprensa”, não obstante as sucessivas falhas na supervisão bancária nos casos do BPN, BPP e BCP com prejuízos de cerca de 10.000 milhões de euros a faturar ao contribuinte. Justificou tudo com preleções em que, no jargão dessa “ciência oculta” que é a economia e com uma arrogância a roçar a má criação, explicou às criancinhas a inevitabilidade do desastre e as superiores virtudes da sua pessoa à frente do Banco de Portugal, uma instituição ruinosamente dispendiosa, reiterada e confessadamente incompetente e, nos seus desígnios, inútil a um país sem soberania financeira.
Numa magnífica ilustração do princípio de Peter, em 2010 foi nomeado vice-presidente do Banco Central Europeu.
Durante oito anos, é um azeiteiro a menos por aqui.

p. 161

  
São quase dez, as páginas que Saraiva dedica ao trampolineiro.
Não trazem qualquer novidade em relação ao que já é público. Mas são divertidas de ler. Em todo o tempo em que as lia, imaginei Saraiva nas expressões de Astérix, Obélix e Panoramix, surpreendidos com as trafulhices de Tulius Detritus n’”A Zaragata”.

Juntei o que li a tudo o que já tinha lido sobre o “menino de oiro”. E tudo bate certo:

“[E]m privado é uma pessoa muito diferente […] do que aparenta ser em público. A diferença entre uma pessoa e ‘outra’ chega a ser estranha.  Não tem grandes ideias e fala às vezes de temas a despropósito.”

É a virar páginas. Foi sempre assim, desde a adolescência na província. Porque é que há-de ler livros e ter ideias se pode surripiar diretamente da cabeça de quem o faz?
No dia em que “apresentou” o “seu” primeiro livro, numa reportagem de um noticiário qualquer, Pinto de Sousa manipulava um exemplar. Nesse mesmo dia arrisquei-me a elaborar por escrito a opinião de que a criatura nunca tinha lido um único - umas fotocópias, talvez; um livro, não. Porque a maneira como uma pessoa agarra uma ferramenta que não sabe usar é absolutamente inconfundível.  E o Pinto de Sousa, durante a tal reportagem, manipulava um exemplar do “seu” livro da maneira que alguém segura um martelo pela primeira vez na vida.

“….Sócrates era – como ficou dito – muito pouco brilhante a argumentar. Parecia uma pessoa banal, com uma conversa banal. Ora, nas intervenções televisivas, era acutilante e eficaz, às vezes quase brilhante, mesmo quando não tinha razão do seu lado. Perante as câmaras de televisão ou o público, Sócrates superava-se. Ou então, como alguém disse, tinha uma capacidade de memorização invulgar e preparava previamente essas intervenções, limitando-se no momento a debitar o discurso que tinha preparado. Não sei qual a verdade.”

Obviamente, a última hipótese. Sócrates suga os interlocutores e “fala” sobre o que circunstancialmente lhe convém (“fala às vezes de temas a despropósito.”, em privado…). E sim, deve ter realmente uma “capacidade de memorização invulgar”; a boa memória é a ferramenta essencial de todo o mentiroso. Publicamente, Sócrates fala apenas em conformidade com a agenda ensaiada, e quase todos os “entrevistadores” aceitaram o jogo do vamos brincar às entrevistas. Tanto quanto me recordo, o único que se atreveu a fazer perguntas não ensaiadas foi pública e grosseiramente desconsiderado sob a acusação de falta de isenção, culpado de o interpelar a partir de uma agenda política que lhe era adversa.
Estas formas de grosseria caceteira valeram-lhe dos jornaleiros a encomiástica designação de “animal feroz”; pretendiam designar a falta de maneiras com a história da “ferocidade”.


p. 262
No curto epílogo de “Eu e os políticos”, o autor declara que a sua “…única ambição … foi deixar um testemunho que possa ser útil a quem, no futuro, tente reconstituir a história deste período.”

E, mais à frente, acrescenta: “Só guardei para mim aqueles segredos cujo interesse público, em meu entender, não mereceria os danos que a sua divulgação poderia causar.”

Como escrevi antes, ficou-me a suspeita de que o autor deixa muitas coisas por contar – e essa suspeita foi grande ao longo da leitura das páginas dedicadas ao trampolineiro e das personagens que o rodeavam. De onde não esteja absolutamente certo da justeza do critério do autor na omissão de “segredos”. Não por desonestidade porque me parece estruturalmente honesto e incapaz da mentira. Mas porque confirmei a impressão que já tinha antes de ler o livro: Saraiva padece de uma quase surreal candura e muito ou tudo do que se lhe atribuiu de maledicência não é mais do que um dos efeitos dessa candura. Mas até por causa dela, a anunciada ambição do autor parece-me perfeitamente conseguida.
Não é um livro “de mexericos” e não merecia toda a série de deselegâncias com que foi acolhido. É um documento escrito por alguém que, por força da sua profissão, privou com muitos dos protagonistas políticos do regime democrático.

Sem comentários:

Enviar um comentário