Este texto reune as
várias notas de leitura que aqui fui fazendo durante alguns dias no ano em que foi
editado (2016). É algo que desejava fazer e que agora faço graças à forçada reclusão a
que alguns de nós estamos sujeitos. O livro, violentamente amaldiçoado pelos
comentadores do regime, é um retrato muito interessante para a história da
terceira república e de muitos dos sujeitos que a vilificam. Creio que se
mantém até hoje na glória de ser o único livro proibido pelo regime (atributo que orgulhosamente ostenta na capa…). Se o Mein Kampf não tiver sido proibido ainda durante a segunda república
(embora tenha tido entretanto uma reedição posterior à de Fernando
Ribeiro de Mello, parece-me...).
* José António
Saraiva, Eu e os políticos – o que não pude (ou não quis) escrever até hoje,
Gradiva, 2016
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Parece
que José António Saraiva deu agora na reincidência de cometer um
livro. Chamou-lhe “Eu e os políticos – o que não pude (ou não quis)
escrever até hoje”.
Em outras circunstâncias, as probabilidades de o vir a ler seriam
completamente nulas por duas ordens de razões. Em primeiro lugar em resultado
da indiferença e repulsão que me inspira o assunto “jornalistas e políticos”.
Depois porque o arquiteto, da última vez que dei por ele – coisa já de alguma
idade –, pareceu-me francamente debilitado de juízo e arrancou-me gargalhadas
sucedidas de um enorme constrangimento - o mal-estar em que se fica sempre que
nos surpreendemos a divertir à custa de alguém que se percebe mentalmente diminuída.
(E ao escrever isto, volto a sentir o mesmo embaraço, a apanhar-me em
deselegância; é uma coisa feia, isto de falar assim de alguém que acreditamos
enfermo, sem ser de feição sarcástica).
Fui arrancado a esta absoluta indiferença pelo coro de hienas que
se lhe atiram aos glúteos e que me levam a ponderar a hipótese de se tratar
realmente daquilo que a capa anuncia e que de outro modo interpretaria como
arenga de editor: um “livro proibido”. Nesse coro, as mais
perfeitas imitações de vozes humanas vêm precisamente de alguns dos que, durante
décadas, sem um pio acerca duma eventual enfermidade, coabitaram e mesureiraram
afagos daquele de que agora fazem presa.
Não leram nem vão ler, asseguram quase todos. Como nojo maior
invocam a circunstância de o culpado se ter sentido autorizado a uma
inconfidência: um político – que entretanto faleceu – ter-lhe-ia dito que o seu
irmão, também político, era homossexual. Em vários casos, declaram a
impossibilidade dessa confidência porque o confidente sentia um profundo afeto
pelo irmão. Mas… para hienas tão politicamente corretas, dizer isto é mais que
observar que alguém é gordo ou magro, alto ou baixo, tímido ou desinibido? É
prova de desamor e portanto falso?
Na enfermidade do arquiteto, lembro-me, sobrevivia uma certa
candura que dava luz a algumas coisas.
Amanhã passo pela FNAC.
Se valer a pena, coisa que não estou disposto a jurar, voltarei a
este assunto.
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adenda
Como se poderá perceber das “notas de leitura” posteriores a este
post, já li o suficiente do livro para saber que vale a pena voltar ao assunto.
Em consequência dessa leitura, que ainda faço, – no
meio de muito outros afazeres; “é preciso cuidar do nosso jardim”… - tenciono
fazer um comentário final em que farei a revisão que me parecer justa das
considerações que fiz acerca da “enfermidade” que – sem elegância e
alguma dose de grosseria – atribui ao autor do livro.
24/06/2016
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p. 10
Para
que é que eu preciso de saber que o Alberto João Jardim tem uma
caligrafia “indescritível, correspondente a uma 3ª classe mal tirada”?
Não preciso.
Como também não preciso de conhecer todas as bandeiras do mundo ou ficar
destroçado por a da Nova Zelândia não ter chegado a ir a votos.
Mas fiquei.
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Ah, e o Marcelo anda anabolizado por Nova York a tentar ver-se livre da
concorrência para um novo mandato (nota de 2020: alegadamente, promovia a eleição de Guterres para a presidência da ONU).
(Isto não vem no livro)
p. 160
(nã, nã, isto não vai
assim de carreirinha mas ao sabor das conveniências; salto páginas, voltarei
atrás).
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Está para ali em fundo o Pacheco, sentado à mesa com Dom Coelhone e
os comparsas do costume a falar disto.
“É um livro miserável, é miserável sobre o carácter do autor, … o
livro tem um buraco de fechadura na capa, quem costuma espreitar pelo buraco da
fechadura tem um nome que é ‘voyeur’.” (acho que me apanhou, este
sacana…)
Do seu ponto de vista “há crime!”; é “essencialmente um
retrato do seu autor, é miserável na plena aceção da palavra”. Dom
Coelhone, de mão sobre o queixo, ouve o juízo com o ar grave que as
circunstâncias impõem.
Ora, o que diz o “miserável” do Saraiva acerca do Pacheco? Tirando um encontro
num comboio ao fim do qual o descreve como um chato, evoca um episódio em que
Fernando Madrinha (sim, o nome está lá), então subdiretor do Expresso, lhe
diz: “O Pacheco Pereira vai escrever para o Diário de Notícias”. O
Saraiva diz que não pode ser, “deve tratar-se de um mal-entendido. Ele
tem um compromisso connosco para escrever aqui.” […] “Eu sei
disso’, insiste o Madrinha, ‘mas encontrei o Mário Bettencourt Resendes
[diretor do DN] que me contou que esteve com o Pacheco Pereira e este lhe disse
que ia escrever no Expresso. Então, o Mário Resendes perguntou-lhe ‘E quanto é
que lhe pagam?’ ‘Pagam X’, disse o Pacheco Pereira. ‘Então, eu pago-lhe Y.’ E
logo ali ele se comprometeu a escrever para o DN”
Vasculhado o crime fica-se então a saber que o Pacheco se apoquenta com a
revelação de que vende as opiniões a quem dá mais, como se a sua barriga fosse
diferente da barriga de um arquiteto.
Ensandece porque “as pessoas” não reagem atormentando judicialmente o arquiteto
pela ignomínia.
Ó,
Pacheco, chega-te à frente, homem. Do que é que estás à espera para processar o
gajo? Tem lá os nomes todos, será fácil desmontar as mentiras do
“miserável”.
Anda, Pacheco.
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O programa acabou com o Pacheco muito animado a combinar uma patuscada com
os do costume. A ver o mar. Para apanhar ar fresco, disse o Pacheco.
(Isto não vem no livro)
p. 220
Ali
onde tomo café ao fim do dia, vi o Saraiva na capa de uma revisteca. Leio a
entrevista. Era mais um conjunto de invetivas com assomos de recensão a
pretexto de uma entrevista. A apoiar as invetivas, o entrevistador – ou
entrevistadora, não sei, já não ligo… - esgrimia o “caso” de Margarida
Marante.
(Um chouriço com pinta de analfabeto militante, atirou ao ar o veredito de que
o livro era um nojo. Perguntei se o estava a ler ou se o tinha lido.)
Chego a casa e o livro abre-se – não onde o estava a ler – mas precisamente nas
páginas dedicadas a Margarida Marante.
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Saraiva anuncia “confissões para ler com cuidado”. São oito páginas
que retratam dois biltres que beneficiam de condescendência geral (mais
cumplicidade que outra coisa qualquer…), condescendência com que ninguém o
abençoa a ele, ao pobre Saraiva.
Seja como for, que ninguém nelas procure nada mais nada menos do que algumas
das coisas que acerca daqueles dois germanais “assuntos” já foram ditas e
escritas a várias vozes. Sem pestanejos de indignação.
p. 17
Rolam
lágrimas pela face de Álvaro Cunhal quando em privado lhe falam da cerimónia
fúnebre do pai e de onde, involuntariamente, esteve ausente.
__________________
Sinto-me a dar para o pulha por não conseguir visualizar a coisa; as lágrimas
estão proscritas do missal estalinista.
p. 21
Conhecia-o
do liceu mas iam para casa por caminhos diferentes. Digamos assim.
A partir do momento em que Saraiva foi para o Expresso, passou a
ligar-lhe em Boas Festas a 24 de dezembro.
Em 1997 convidou-o para um almoço. Nessa altura já Ângelo Correia fazia “um
grande negócio” para Sousa Sintra. Tirando a vaga impressão de que o
Ângelo laborava um qualquer empenho, Saraiva saiu da mesa “sem perceber
o convite”. Fico na impressão que lambujava umas croniquetas no Expresso mas
Saraiva não coloca a hipótese. Não é uma situação inédita ao longo do livro;
poderosos ou neófitos do poder convidavam-no e não são poucas as ocasiões em
que Saraiva não chega a perceber a razão do convite.
No caso, a tainha de beira-cais não repetiu convite. Mas por via das dúvidas,
Saraiva continuou a receber votos de Boas Festas.
_________________________
Sempre me fascinou, esta criatura do regime. Sem qualquer vocação para bully,
ainda assim tenho a certeza que não lhe teria faltado com uns valentes
calduços, tivesse ele sido meu colega de liceu. A ver se depois dava em
especialista em assuntos árabes…
p. 44
A
última das 22 páginas em que se fala de marquises e de um homem profundamente
enfadonho e politicamente finório.
Cavaco Silva pergunta-se quantos anos mais virá a ter a cabeça em bom
estado; “Tenho 76 anos… Terei mais oito, dez?”
p. 48
Saraiva
pergunta-se se António Costa acreditaria mesmo na inocência de José
Sócrates: “Fazia algum sentido ele comparar a situação de Sócrates à
das pessoas ‘escutadas’ no tempo da ditadura? Acharia ele que Sócrates era um
perseguido político? Se achava, tudo fazia sentido. Mas se não achava, tudo
isto era um exercício de cinismo. Uma encenação.”
p. 51
Onde
se dá notícia que Guterres disse: “Basta-me fazer de morto para ser
primeiro-ministro.”
Como se sabe, esta qualidade de saber fazer-se de morto tem vindo a ser
muito apreciada e a fazer escola. Tendo apostado tudo numa carreira política,
António Guterres detestava tomar decisões: “Descobri que a maior parte
dos problemas se resolvem por si próprios. Sem ser preciso fazer nada.”
Na primeira entrevista que dá ao Expresso como primeiro-ministro, em 1995,
a uma pergunta terá dito: “A minha ambição é desempenhar um cargo num
organismo internacional.”
E pronto.
É isto. Lá anda ele a fazer de morto e a comer chocolates.
"Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
...
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!"
p. 61
Veja-se,
por exemplo, o António Horta-Osório.
Também dele o autor não chega a compreender a razão do convite.
(quase tudo acontece à mesa, o país “acontece” em restaurantes finos à hora de
almoço…)
“Ele depois foi para Londres, para o Lloyds, teve um esgotamento, passou um
mau bocado. Mas notei nesse contacto que não era um português típico. Era muito
reservado, pouco falador… Olhava para as pessoas de baixo, com um sorriso
enigmático, como se estivesse a medi-las, sem no entanto se revelar.”
Estão-me a ver isto? É ou não é fabuloso de surreal? É ou não é uma descrição
absolutamente fabulosa?
É que se trata de um almoço numa sumptuosa sala de um banco onde não acontece
rigorosamente mais nada que isto e "uma troca de impressões sobre
a inveja". Em que, para além dos dois comensais, "a única
presença humana era um empregado que entrava silenciosamente de vez em quando
para servir".
- Mário de Carvalho, tem aqui uma bela história, azar o seu se não ler o livro.
Estão-me a ver o Horta-Osório a olhar de baixo com sorriso de Gioconda, a
medir, a medir, para depois dar em pateta de fadiga?
____________
Se pensam que estou em modo irónico na descrição da passagem citada é apenas
porque não me conhecem bem; acho-a sinceramente deliciosa e profunda.
p. 68
Onde
Manuela Eanes telefona a Saraiva na aflição de o casal ter sido convidado para
o casamento de Pinto da Costa com uma flausina qualquer: “Não podia
dizer que não, pois tinha dividas de gratidão em relação ao FC Porto” mas
tinha receio de que um jornal sensacionalista “apanhasse a notícia e
fizesse chacota com o assunto”.
São 7 páginas acerca de um casal que aparece ali não se sabe muito bem a fazer
o quê. Porque transpira decência, demos as voltas que quisermos na maneira de
as ler.
p. 71
Nestas
notas de leitura, convirá dizer, entretanto, que não esgalhei até agora nenhuma
espécie de inconfidência malfeitora. Ando, aliás, afanosamente à procura delas
por alegadamente o livro se resumir a isso; há, a propósito de Cunhal, a
evocação de uma frase de que o autor se penitencia por a ter escrito em tempos
– que não é uma inconfidência, mas uma frase infeliz -, e algumas passagens
relativas a Margarida Marante, porventura escusadas, mas nenhuma delas será
novidade para ninguém porque não são propriamente “material inédito”. Com
efeito, embora não possa jurar onde ou quando o li, já nada daquilo era
novidade para mim, pessoa particularmente desatenta a este género de
“noticiários”. De resto, como já escrevi, na minha leitura, as páginas não são
acerca de Margarida Marante, mas acerca dos irmãos Rangel e, lateralmente, de
Henrique Granadeiro.
Vem esta longa nota a propósito daquilo que, em meu entender, é a necessidade
de não extrair juízo das partes deslaçadas do todo, coisa que mais ou menos
todos vêm fazendo. A página 71 é um magnífico exemplo da patológica candura com
que caracterizei o autor ainda antes de possuir o livro; nela se pode verificar
que não se trata a si mesmo de maneira diferente daquela que usa para tratar os
outros.
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Onde Saraiva, na eminência de atropelar umas roseiras, vai a conduzir do
Estoril a Miraflores com uma valente bebedeira:
“Entretanto, o tempo vai passando, eu vou beberricando mais uns cálices de
uísque, o álcool não me fazia efeito, sentia-me bem – até que, quando começam
os preparativos para a saída, no preciso momento em que me levanto, sinto o
álcool a subir-me à cabeça e fico instantaneamente bêbedo. Nunca me acontecera
nada assim. De um momento para o outro passava do estado normal a embriagado.
Caminho em direção à saída por um corredor largo com colunas de mármore,
tentando manter-me direito, saio para o jardim, vou na direção do carro que
está ali estacionado, aponto a chave á fechadura enquanto penso: ‘Se não
conseguir acertar à primeira, já não conseguirei meter a chave na fechadura, e
aí será a grande bronca.’
Mas a sorte estava do meu lado - e acerto mesmo à primeira! Meto-me no carro,
faço marcha-atrás, e aí ouço o Proença de Carvalho gritar, alarmado: ‘As minhas
rosas! Cuidado com as minhas rosas![…] Chego a casa e atiro-me para
cima da cama vestido, donde já não conseguirei levantar-me” .
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Numa ocasião qualquer, rabisquei uma historieta que pus aqui e
em que inventei um personagem que era, em muito, inspirado em Saraiva à exceção
da roupa porque o imaginei sempre de fato escuro e gravata. Por extraordinário
que pareça, numa página mais à frente o Saraiva aparece vestido exatamente como
o meu José Abrantes para um almoço com um banqueiro no Pabe.
Ora, li isto e embeicei-me a imaginar o que faria nas mesmas circunstâncias o
meu José Abrantes, jornalista do “Expresso do Pinhal” e
praticante de ioga; em casa de Daniel Proença de Carvalho e completamente
bêbado.
Pois o meu José Abrantes, que nunca levou uma gota à boca, teria ido à mala do
carro, teria de lá tirado uma marreta DIN de 5 quilos e cabo de fibra, e
desataria a rebentar os painéis de mármore do casarão do Proença. E haveria de
gritar:
“- Eu dou-te as rosas, meu cabrão! Ou contas tudo o que sabes ou rebento com
esta merda toda, meu cabrão!”
E, meu Deus, nem imaginam os estragos que uma coisa destas pode fazer nas mãos
de quem a saiba usar.
Mas o meu José Abrantes tem mau vinho e o Saraiva não gosta de palavrões nem de
gente que os diga (p. 126, a propósito de João Soares). Portanto nada disto
poderia dar certo.
p. 85
A
pretexto de que tem uma “bomba” para lhe confiar, em 2010,
Freitas do Amaral telefona a Saraiva e encontram-se no Grémio Literário, “um
clube de elite”.
“Nesse encontro meio furtivo, sentados num banco forrado de veludo situado
num lugar esconso, rodeados de reposteiros e madeiras escuras, Freitas denuncia
o então procurador-geral da República, Pinto Monteiro, acusando-o de almoçar
semanalmente num restaurante discreto com Proença de Carvalho, o advogado de
Sócrates. Ou seja: segundo Freitas, numa altura em que Sócrates é acusado na
imprensa de vários crimes, o acusador público e o advogado do suspeito
juntam-se todas as semanas”.
Seria uma bela notícia, esta que lhe era dada por um ex-ministro de José
Socrates.
“Mas Freitas pede-me para não dizer nada enquanto não me der luz verde. E eu
respeito a combinação. Só que a luz verde nunca chegará.”
p. 90
De
onde em duas penadas Saraiva traça o retrato de Domingos Duarte Lima, tal como
o imaginei sempre a partir de certa altura:
Ao entrar num elevador, Saraiva confronta-se com Duarte Lima: “Fiquei
tão surpreendido que, quando já avançava para entrar, parei bruscamente. Aí,
ele diz-me com toda a calma: ‘Senhor arquiteto, não se atemorize…’ Entrei, cumprimentei-o
e ele apresentou-me uma outra pessoa que vinha no elevador: ‘O meu filho…’ E
virando-se para o filho: ‘O Senhor arquiteto José António Saraiva, diretor do
jornal Sol.’ Este é o retrato verdadeiro de Duarte Lima: frio, gelado, nunca
tira a máscara, nunca se emociona. O seu olhar não transparece qualquer emoção
e no seu rosto não se vê um único músculo mexer mesmo nos momentos mais
difíceis. E isto é um tanto assustador."
É. Parece de ficção, esta mistura de melomania e gelo.
p. 94
De
onde se conhecem alguns dos oradores na última conferência associada ao último
volume de um conjunto de estudos encomendados por Saraiva e com o título
genérico de “Desafios de Portugal nos Alvores do Século XXI”
Tratava esse ultimo volume "de um tema que era a menina dos seus
olhos [de Ernâni Lopes, autor dos estudos e, entretanto, falecido por
doença]: a lusofonia. O intercâmbio entre países que têm como língua
comum o português.”
“Esta conferência, realizada em 13 de maio de 2011, foi um enorme sucesso,
juntando oradores, como Ricardo Salgado (que abriu a sessão), […],
António Mexia (presidente da EDP), Zeinal Bava (presidente da PT), Aguinaldo
Jaime (Angola) e Luís Amado (então ministro dos Negócios Estrangeiros, que
encerrou a sessão.”
E, com duas exceções (que deliberadamente omito – Ramalho Eanes e Fernando
Henriques Cardoso), foi a esta gente que se entregou oração pela lusofonia. Com
os resultados que, pouco tempo depois, se viriam a conhecer em toda a sua
plenitude …
Não consta que a meia dúzia de pessoas por quem Ernâni Lopes tinha consideração
no assunto da lusofonia – Vitor Bento, António Carrapatoso ou José Poças
Esteves - haja sido convidada na qualidade de oradores.
p. 98
Onde
Saraiva escreve que Fernando Nogueira “trocou a política pela banca,
recusou-se a voltar a dar entrevistas, usou um pouco o BCP – o banco onde se
empregou [na Fundação BCP] – como um convento.”
p. 102
Onde
o Rangel ("jornalista") e Saraiva ajudam Pinto Balsemão a impedir a
publicação no “Tal&Qual” de “uma coisa qualquer
que envolve saias” e “muito incómoda para ele.” Balsemão
diz que é falsa, Saraiva acha que é verdadeira.
O Rangel resolve.
Viria mais tarde a fazer não sei o quê na SIC.
Fica-se depois a saber o que sempre se disse: Balsemão nunca interferiu no
Expresso e nem chegava a saber das primeiras páginas antes de serem publicadas.
Também se fica a saber que era forreta; que lamentava o desaforo de Jardim
Gonçalves – que ao mesmo tempo que lhe falhava com a publicidade no jornal lhe
ia ali “papar um almoço”; e que a saída de Saraiva do Expresso sucedeu
com toda a lealdade por ambas as partes: uma das reuniões em que o assunto é
discutido terá lugar “na Lapa, num palacete que Balsemão herdou de uma
tia e onde tem uma espécie de escritório particular”. (É nestes pequeninos
detalhes que os mundos navegam no livro de Saraiva)
notas às notas de leitura da página 68
Entendi
aqui voltar. Nem sei bem porque me dou ao túmulo destas notas; nunca até hoje
dei porque os meus filhos sentissem o menor interesse pela vida política do
país. Talvez tenham razão para o não ter, talvez o venham a ter, não sei, como
não sei por quanto tempo estas coisas por aqui ficam…
Mas volto aqui porque nesta nota passei por alto um incidente que é mencionado
por J.A.S. e que é de particular importância pelas consequências que veio a ter
no futuro da instituição da presidência da república. Vem na pág. 66 e diz
assim:
“A conversa mais importante que viemos a ter … [com Eanes] …
ocorreu em 1982 quando se discutia a primeira revisão constitucional. Francisco
Pinto Balsemão e Mário Soares, líderes do PSD e do PS tinham-se entendido para
reduzir os poderes de Ramalho Eanes, que ambos detestavam. A ideia era que o
Governo deixasse de responder politicamente perante o Presidente da República.
Ou seja, a margem de intervenção política do Presidente desaparecia na
prática.”
Não estou por dentro dos detalhes, mas dou-me em apostar que a iniciativa
terá sido de Soares. Porque detestava Eanes, é mais do que certo, e porque em
1982 este republicano já sonhava vir a ser uma espécie de rainha de Inglaterra
de mistura com uma espécie de Jean Bédel-Bokassa no que se refere ao capítulo
das despesas a faturar ao reino; viajar sem rei nem roque, ter aias e pajens a
embarcar em “boeing’s”, motoristas acima da lei, guardas de honra
(a destratar quando lhe desse para ser fixe), palácios e sonecas sem chatices.
Evidentemente que a mesma coisa convinha às nomenclaturas do regime para quem o
cheiro a decência tem o efeito viroso de um glifosato.
Razão porque, desde então, elegemos sacos de vento a custos que estão
francamente acima dos de qualquer casa real de uma monarquia moderna europeia
(parece que já alguém se deu ao cuidado de fazer as contas – que suspeito terem
sido feitas muito por baixo já que cada um dos republicanos e respetivo
consórcio que por lá passa continua a faturar sobre o orçamento até ao resto
dos seus dias).
De tal maneira que não faz diferença rigorosamente nenhuma o que qualquer um
destes sacos de vento possa pensar acerca do treinador do Braga porque isso em
nada irá afetar os resultados da jornada. Vão para aquilo porque sentem
necessidade de ser amados que é a coisa mais humana do mundo. E, já
agora, que lhes paguemos as contas até ao fim dos seus dias.
De maneira que até pode ser o Tino de Rãs. Desde que não seja um seboso sem
maneiras, tipo Vieira, tanto faz.
Viemos ao mundo para amar e pagar.
p.
120
J.A.S. dá-lhe pinceladas
cinematográficas: nasceu no Seixal e é angolano por afeto. Com paragens pelos
cinco continentes - mais demoradas pela Venezuela, Congo e Pequim, em 1980 e
com 33 anos enfeitiçou-se por uma italiana rica em Casablanca. Em 1992 volta a
Angola para aí lançar o Grupo Espirito Santo.
_____________________
Bataglia é presidente e fundador da Escom (empresa do Grupo
Espírito Santo), ficou sob investigação por ter assessorado o German
Submarin Consortium, empresa com corruptores julgados e condenados na
Alemanha e no âmbito da compra dos submarinos pelo estado português; a Escom recebeu
comissões de 30 milhões de euros dos construtores navais alemães.
Quase com a mesma frequência que o trampolineiro, nos últimos tempos, sempre
que se tropeça num calhau de dinheiro com tonalidades mais sulfúricas dá-se com
Bataglia num dom tranquilo silêncio; “As matérias empresariais
pertencem à minha esfera privada”, terá dito a propósito de algumas dessas
dezenas de milhões mais escuros.
Com ligações estreitas à cleptocracia angolana, Helder Bataglia “…juntamente
com Sam Pa e com Manuel Vicente, futuro vice-Presidente da República,
introduziu os chineses em Angola.”
(isto é um espartano resumo do que acerca de Bataglia tem vindo a ser publicado
na imprensa; à exceção do citado, não consta do livro)
________________
Na sequência de episódios a partir dos quais seria legítimo suspeitar de alguma
intimidade entre Batglia e Saraiva, e longe de imaginar que ele estaria por
trás da solução dos problemas financeiros do Sol (p. 119):
“Nessa altura, os casos polémicos envolvendo Sócrates já queimavam, e o
Sol liderava a informação sobre eles, através dos textos de Felícia
Cabrita. Curiosamente, falei disso a Bataglia, mas não me deu grande saída. Não
estranhei, pois ele não era um homem de muitas falas. Estava eu na altura
longíssimo de sonhar que ele mantinha ‘negócios’ com Sócrates … Dava-se pois
esta situação completamente surreal: o jornal que liderava a investigação
contra Sócrates tinha um acionista que estava envolvido em negócios pouco
claros com Sócrates! Caricaturando, Bataglia financiava a investigação aos seus
próprios negócios escuros!”
p. 122
Durante
um almoço no Hotel Flórida, Medina Carreira arroja “…ser capaz de fazer
em 10 dias um plano para salvar o país. Estamos em pleno período
socrático [2009] e, já sentados à mesa, pergunto-lhe: ’Mas
esse plano é exequível politicamente?’ ‘Bom, era preciso o Presidente da
República interromper a democracia, como disse a Manuela Ferreira Leite’”
_____________
De onde uma inocente graçola é transformada por um bom cómico em exemplo de
“indiscrição sexual”:
Trata-se de um cu.
Já agora, o Ricardo Araújo Pereira podia ter acrescentado que o cu era o do
então Ministro das Finanças, Henrique Medina Carreira. E se tivesse lido o
livro, para maior efeito, até podia acrescentar um robusto sargento da Guarda
Fiscal nas proximidades do ministerial cu.
Mas nessas circunstâncias o tal sargento também era enfermeiro, aprestava-se
para ministrar uma injeção, e isso iria dar cabo da graçola-exemplo de “devassa
da intimidade alheia”.
p. 126
O
autor vai agora (1997) para uma almoçarada com o príncipe na moradia que a
Câmara de Lisboa tem para seu uso em Monsanto.
João Soares diz que Jorge Sampaio, seu antecessor de folguedos, “odiava
resolver problemas, tendo como frase preferida: ‘O que é preciso é manter a
bola a bater.’ Ou seja: resolver os problemas era secundário, o importante era
ir empatando o jogo (e o tempo)”
Saraiva, em vários momentos – com Guterres que não diz coisas dissemelhantes -,
diz que Sampaio é “redondo”.
Ora: “redondo”, “bola”, confere. O meu pai chamava-lhe
“o Jiló” (ao Sampaio).
___________________
João Soares aparece aqui fundamentalmente para dirigir um palavrão a um
personagem não identificado e anunciar que o marquês está lá fora; “O
partido socialista não pode parecer-se com uma monarquia…”, terá respondido
quando Saraiva sugeriu que um dia seria líder do partido socialista.
p. 129
“Almocei
duas vezes com [Jorge Braga de Macedo]. Entre 1991 e
1993, no Ministério das Finanças, ao Terreiro do Paço, …
À saída de ambos os almoços, se me pedissem para resumir a conversa, seria
incapaz de o fazer. Basicamente, não percebi nada do que o ministro disse.”
p. 132
“Jardim
Gonçalves tem relações inesperadas. Mário Soares, por exemplo, era sua visita,
chegando a pedir-lhe conselho sobre a aplicação de dinheiros. Quando Jardim
Gonçalves me contou isto, Mário Soares estava na fase final da vida e fazia
violentíssimos ataques ao Governo de Passos Coelho. Tinha virado completamente
à esquerda pelo que estranhei a cumplicidade com o banqueiro. … E compreendi
porquê. … [Também para Jardim Gonçalves, o Governo
não mostrava] respeito pelos tais ‘centros de decisões nacionais’ que o
banqueiro tanto defendia”
__________
Fico aqui a pensar se o Jardim terá aconselhado o pai da pátria a investir as
suas poupançazinhas em acções do BCP, e se tais investimentos não
lhe terão precipitado um mau “estado da cabeça”. Como dizia o outro
a perguntar-se acerca do assunto.
p. 136
Uma
das coisas mais curiosas do livro é o ver como o poder lança as suas
sementinhas para fazer “notícias” das suas conveniências. E ver como os
jornalistas são inseminados ou se deixam inseminar. As páginas dedicadas a
Jorge Sampaio ilustram exemplos curiosos:
“… [A]tendo a chamada. É Jorge Sampaio. Faz-me uma pergunta estranha: ‘A
entrevista é só para falar da Câmara?’ Percebo que ali há gato. Digo-lhe, a
tatear o terreno, que o prato forte será a CML, mas que a nossa ideia
é também falar doutros temas. E então Sampaio sai-se com esta: ‘O jornalista
podia fazer-me uma pergunta sobre as presidenciais…’” Sampaio haveria
de dizer na entrevista “[q]ue seria muito estimulante para ele ter Cavaco
como adversário nas presidenciais.”
Em 1995, para preparar um colóquio organizado pela Alta Autoridade
para a Comunicação Social (!) sobre jornalismo e política promove-se…
um almoço!
Manuel Villaverde Cabral e tudo, “… que pertence à comissão política da
candidatura de Jorge Sampaio” terá dito qualquer coisa que “arrepia” o
autor e o leva a escrever no seu diário:
“30 de Novembro de 1995
[…] Villaverde diz uma coisa extraordinária: é preciso fechar, pura e
simplesmente, o Canal da RTP, porque ainda lá há ‘resquícios de cavaquismo’ que
será difícil ‘extirpar’. Por outro lado, congratula-se com a demissão de Vasco
Graça Moura [o diretor do canal]. Todos como ele deviam ser ‘corridos’.
Confesso que fiquei um pouco assustado. Será que na comissão politica de
Sampaio se pensa assim? Estamos no limiar de uma caça às bruxas generalizada?
Subitamente parece termos regressado ao pós-25 de abril e à fúria vingadora de
uma certa esquerda. Só que eu julgava esse período definitivamente encerrado.”
Enfim, a coisa correu bem. Eleito em 1996, em 1997 já Sampaio estava no
aeroporto com o seu séquito, na eminência de visitar a sua congénere holandesa.
Em evento diplomático de importância crítica para as relações externas da
nação, como se poderá facilmente imaginar.
Convidado, Saraiva descreve a viagem nos seguintes termos:
“Achei graça à experiência de viajar com um presidente da República. Durante
o percurso em território nacional (quer à ida, quer à vinda) o avião é
acompanhado por dois caças da Força Aérea, que voam tão perto de nós que é
possível ver com nitidez o rosto dos pilotos. E à chegada ao destino, em plena
pista, somos recebidos à saída do avião por uma banda militar. Além disso,
participa-se em banquetes, conhece-se o protocolo, contacta-se de perto com
celebridades. Falei dois ou três minutos com a rainha Beatriz da Holanda.
No regresso escrevi um artigo onde dizia, entre outras coisas, que Sampaio
era melhor a falar em inglês do que em português. … [T]alvez pelo facto de o
inglês ser muito objetivo, direto, Sampaio era menos redondo e mais incisivo
quando falava em inglês do que quando usava a sua própria língua.”
Talvez seja essa a razão porque gostava tanto de andar por fora. Talvez
sentisse que era a melhor maneira de não aborrecer tanto tanta gente, mas não
posso jurar nada disto.
Seja como for, embora Soares tenha fama e proveito, muito mais discreto do que
este, parece que o verdadeiro campeão das milhas foi “o Jiló” -
ao que me disse o meu pai, era este o nome pelo qual toda a gente o conhecia lá
na barbearia.
E na minha qualidade de eleitor - que vive os seus dilemas, como qualquer
pessoa - apreciaria muito que em futuras inquirições a futuros candidatos
presidenciais, os senhores jornalistas dessem prioridade à seguinte questão:
- Tem o Sr. Doutor / Engenheiro / Almirante (riscar o que não se aplica)
qualquer fobia no que se refere a viagens de avião fretadas em débito ao
contribuinte? Tem medo de andar de avião?
Em caso afirmativo ficará o senhor jornalista a saber, assim como nós todos,
que está perante um bom candidato em potência.
É que não tendo manifestamente nada para fazer – a historieta da “magistratura
de influência” serve para dizer exatamente isso com falinhas mansas -,
não tendo nada para fazer, dizia eu, o futuro presidente haverá de inventar
maneiras de se aborrecer de todas as formas humanamente possíveis; nas nuvens,
debaixo de água, … Enfim, o que lhe vier à cabeça acabará sempre em parcela a
abater no salário dos súbditos.
Digo assim por desabafo, sem expectativas; os jornalistas, no seu infindável
jargão, têm termos para crismar todas as coisas que se assemelhem ao comum bom
senso – “demagogia”, “populismo”, etc., etc.
Não acham “graça”.
Preferem fazer manchetes a denunciar um “livro com revelações da vida
sexual de políticos” (o DN, por exemplo):
Um dos exemplos de tais "revelações" pode ser lido
na pág. 139, que passo a citar:
Na sala de embarque para a tal viagem do Jiló ao encontro da sua
congénere do Reino Holandês, o autor encontra-se com Cardoso Pires, que lhe
pergunta: “’Você vem sozinho ou trás a sua mulher?’ Respondo-lhe que
estou sozinho. Então, entre duas gargalhadas, diz-me: ‘O João de Deus Pinheiro,
apesar de ser ministro de Cavaco, era um tipo com muita piada. E numa viagem
disse-me o seguinte: ’Quando se viaja com a mulher, gasta-se mais e fode-se
menos!”
Caros, jornalistas, comentadores políticos, humoristas, enfim, portuguesas e
portugueses:
Isto não é um exemplo de “vida sexual” de ninguém. É uma
anedota. Um pouco ordinária, mas uma anedota. A ordinarice é, aliás, toda uma
categoria nessa coisa das anedotas e do humor. Senhores humoristas, ao menos
vocês deviam ser capazes de reconhecer uma anedota quando leem uma. No meu
caso, como não sou profissional do assunto e não queria estar para aqui a dizer
disparates, até fui ler Ted Cohen, que escreveu um delicioso livrinho acerca de
tão sério assunto e é filósofo. Dos bons. Portanto, quando escrevo que é
uma anedota, é porque é mesmo uma anedota; confrontei a substancia da passagem
citada, as circunstâncias em que é narrada, a natureza ontológica dos
protagonistas, os condicionais associados, enfim, tudo, tudo.
E cheguei às seguintes conclusões:
1. No seu género, a anedota é realmente engraçada;
2. O Cardoso Pires fez muito bem em contá-la a um conhecido jornalista;
3. O conhecido jornalista fez muito bem em contá-la aos seus leitores;
4. E a mulher de Deus Pinheiro andará bem se lhe gastar o dinheiro como se não
houvesse amanhã, se o foder daquela maneira que só as mulheres sabem, e se lhe
oferecer um valente par de quaisquer coisas de seu gosto.
Não sei se me está a escapar alguma coisa, mas os marujos da indignação podem
fazer-me chegar as suas objeções, se for o caso. Sou suficientemente competente
para as estraçalhar a todas, sejam elas quais forem.
p. 173
Do
Pacheco, fiz notas. No livro, seguem-se-lhe 10 páginas dedicadas ao
trampolineiro. Têm uma ou duas coisas que oferecem sensível diferença do
“quadro clínico” que lhe havia diagnosticado há muitos anos. Calha-me
refleti-las quando lavo os dentes. Também me acontece andar a pensar que
Saraiva sabe e testemunhou muito mais coisas do que aquelas que dá a ler.
Voltarei quando sentir que acabei.
________________
“Após o fim do cavaquismo*, Marcelo Rebelo de Sousa tomou conta do
PSD, em março de 1996 – sucedendo a Fernando Nogueira que não aqueceu o lugar -
De braço direito de Marcelo a braço direito de Barroso. Ora, um dos aspetos
mais importantes desta época foi a constituição de uma ‘nova AD’ (Alternativa
Democrática) – uma aliança entre PSD e CDS, liderados por Marcelo e Portas –
que Leonor Beleza intermediou, com vista a disputar as eleições de 1999.
Esta intermediação de Beleza pareceu-me pouco dignificante. Grande parte da campanha
contra ela quando era ministra [da Saúde] fora feita, como
disse, pel’O Independente [semanário de que Portas era diretor] –
um jornal que se empenhara abertamente no derrube do cavaquismo (do qual Leonor
Beleza fora uma das figuras mais destacadas. Como podia agora Beleza ser agora
a promotora de um entendimento entre o líder do seu partido e o ex-diretor do
jornal que a combatera com ferocidade? Como tinha estômago para isso? Mas a
gota de água foi quando, depois da queda de Marcelo, anunciou o apoio a Durão
Barroso – que tinha conspirado contra Marcelo! Eram cambalhotas a mais!”
Porventura em razão do seu desempenho à frente do Ministério da Saúde, em 2004
e por testamento, António Champalimaud designou Leonor Beleza como presidente
da sua fundação, onde ainda hoje permanece não voltando à vida política.
_________________
* A propósito do “cavaquismo”, valerá a pena reparar que
jornalistas e comentadores políticos – porventura sempre em dificuldades para
descortinar alguma caraterística distintiva de um qualquer líder político -
arranjam sempre um “ismo” por cada criatura que passa pelo poder. Como se assim
subsumissem e diferenciassem uma doutrina política. Desta maneira, com
extraordinária ligeireza, falaram de um “cavaquismo”, de um “marcelismo”, de um
“barrosismo”, de um “soarismo”, de um “guterrismo”, de um “socratismo” (juro
que não estou a inventar; o corretor ortográfico só me dá erro em
“barrosismo”!...), …
Com Valente de Oliveira (p. 184) haveremos de ver um excelente exemplo da
verdadeira substância e natureza dos “ismos” fulanizados do regime democrático.
De outra maneira, ao lerem as “fontes”, os historiadores futuros haverão de
ficar confusos com o turbilhão ideológico em que parecemos afogar-nos.
(Oh, Rosas... Não baralhes os teus netos, meu sacana pançudo!)
p. 179
Saraiva
almoçou bastantes vezes com Marques Mendes que chegava sempre atrasado.
Levantava-se da cama e almoçava sem passar pelo pequeno-almoço.
O “mendismo” tinha um truque para não darem pelos seus atrasos
em dias de Conselho de Ministros: “… combinou com uma secretária do
Conselho de Ministros que, antes da reunião começar, penduraria um casaco nas
costas da cadeira onde ele se sentava -induzindo a ideia de que ele já ali
tinha estado mas saíra”.
De onde se prova que os senhores conselheiros bem podem mandar o casaco e ficar
a dormir. Nas “distritais” os debates não são mais acalorados:
“… [D]iz-se muito desiludido em relação ao PSD e aos partidos em
geral. Os militantes não discutem ideias, só querem saber de lugares – é o
resumo do que ele pensa. Dá exemplos de sessões partidárias em que procura
lançar o debate político mas as únicas reações que obtém são perguntas acerca
de lugares.”
De maneiras que se dedicou à escrita e garante que “escreveu mais de
50% dos discursos de Durão Barroso”.
p. 184
Uma
caricatura dos políticos do regime que justifica uma longa citação.
Surreal, é como Saraiva descreve o almoço com Luís Valente de Oliveira:
“[L]ogo no princípio da conversa diz-me uma coisa perfeitamente
inesperada:’Convidei-o porque estou a elaborar as Grandes Opções do Plano e,
nestas situações, gosto de ter uma conversa com uma pessoa fora da política. Da
última vez falei com o Miguel Esteves Cardoso, que me fez sugestões
interessantes.’ Eu fico para morrer. O homem convidou-me esperando ouvir
propostas fantásticas, mas eu não tenho nada para lhe dizer nem tenho já tempo
para pensar no assunto. Faço um sorriso amarelo, enquanto esmifro desesperadamente
a cabeça a ver se me vem um lampejo qualquer. A verdade é que estou obrigado a
dizer coisas minimamente inteligentes…
É nesse momento que me ocorre uma ideia salvadora: ‘Portugal é um país
pequeno e por isso não pode apostar na quantidade; tem de apostar na qualidade.
No turismo, não podemos apostar num turismo de massas, no ‘turista de caracol’
que não tem cheta. Há que atrair outro tipo de turista. E tal exige oferecer
melhor qualidade. E isso é válido para todos os setores. No turismo, nos têxteis,
no mobiliário ou no calçado há que apostar na qualidade. E mais qualidade não
significa gastar mais dinheiro: o fundamental aos produtos de exportação é um
bom design. Um bom design é decisivo – tanto para os móveis, como para os
têxteis ou os sapatos… E tanto custa produzir móveis ou sapatos com mau design
como com um bom.’
…
Umas semanas depois, assistia eu por acaso a um telejornal, quando vejo
aparecer o ministro Valente de Oliveira a anunciar as Grandes Opções do Plano
2015. E começou mais ou menos assim: ‘Portugal entrou numa nova fase, e a nossa
grande aposta para os próximos anos tem de ser na qualidade.’ E o ano seguinte
será mesmo batizado como ‘o ano da qualidade’”
Isto poderá até parecer um exercício de jactância da parte de Saraiva. Mas estou
absolutamente convencido que as coisas se passaram exatamente assim e não
acredito que o autor em algum lugar do livro tenha lançado mão da mentira. Em
meu entender até seria um bom “plano” embora nem seja particularmente original;
tem vindo a ser a “solução” de pequenos países como a Suíça.
Mas como se vê, o “oliveirismo” entende que uma política, uma “grande opção”, é
concatenável em um “ano da qualidade” e que basta perguntar a quem passa para
saber onde fica o melhor restaurante da terra.
p. 187
“Em
25 de Abril de 2003, é Ferreira Leite ministra das Finanças, o Presidente da
República, Jorge Sampaio, faz um célebre discurso em que – referindo-se à
política financeiramente exigente do governo – diz: ‘Há mais vida para além do
Orçamento.’
…
Estávamos na pré-campanha das eleições de 2009, as segundas disputadas por
José Sócrates. Era evidente para mim que Sócrates ia vencer, pois Manuela fazia
uma campanha amarga, muito negativa. Boa parte da sua mensagem centrava-se na
crítica ao plano megalómano de obras públicas de José Sócrates, que incluía um
novo aeroporto de Lisboa, o TGV, uma nova ponte sobre o Tejo (também em
Lisboa), 10 barragens, a requalificação da Zona Ribeirinha, etc. Mais tarde
viria a perceber-se que Manuela Ferreira Leite estava cheia de razão nesse
combate. Mas na altura não era evidente que todo aquele fogo-de-artifício
propagandístico de Sócrates acabasse como acabou, na quase bancarrota e num
resgate financeiro. E muito menos que o primeiro-ministro pudesse receber luvas
pelas obras.”
Destes episódios da nossa história recente, ainda há muita coisa que não é
“evidente” para muito boa gente, designadamente no que se refere à
honorabilidade do trampolineiro; em boa medida, ele não é significativamente
diferente de outros que por aí andam ou andaram.
p. 193
“Ele
era secretário-geral do PSD, o homem do aparelho que Cavaco Silva não levou
para o Governo de 1985, e eu achava-o irritante e conflituoso.”
Meia dúzia de anos depois, (“[e]m 1991 ou 1992…”) estava José Pedro
Castanheira, jornalista do Expresso, a dar voltas à cabeça na
tentativa de compreender como é que um modesto advogado de província acabado de
chegar às “governações” podia acumular finanças lícitas para o luxo que começa
a ostentar para os lados do Estoril; “[n]ão se trata de ‘notícia’ mas de uma
‘presunção’.
…
Depois de sair do Governo [com maiúscula, conforme o original],
Dias Loureiro começou a evidenciar alguns sinais exteriores de riqueza e até
uma despropositada (e fatal) tendência para a ostentação. [fatal,
porquê, caro Saraiva? – Pergunto-me eu para aqui…]. À refeição manda
vir vinhos caríssimos, segundo me contam.”
As evocações de Saraiva continuam-se pelas magras quatro páginas que lhe
dedica, em exemplos em que Dias Loureiro se oferece “…para [os] mandar
buscar a todos onde for preciso, inclusive de helicóptero.” Para
almoçar na Herdade do Esporão.
__________
Cavaco Silva, o homem que reclamou para si próprio uma seriedade acima da média
dos mais comuns mortais, pareceu ter sempre esta extraordinária capacidade de
se rodear deste género de pessoas. Que, sabe-se lá como, desencantava a pontapé
sob um qualquer calhau de granito numa qualquer cova do país profundo.
Com Dias Loureiro a transpirar “riqueza”, estalava “o
escândalo do BPN” e “surgia entre os suspeitos, ainda que
recusasse energicamente qualquer ato ilícito e eu acreditasse na sua inocência.
Não por achar que era um anjo – mas por achar que era suficientemente
inteligente para não se deixar apanhar numa ilegalidade evidente.” Aquela
coisa do Ministério da Administração Interna deve ter ajudado na escola. E os
documentos escondidos na casa de banho foram amendoins para quem sabe
acompanhar-se de um libanês manhoso em viagens pela América Central.
As controvérsias não
arranham quem sabe do edifício jurídico que no parlamento é laborado à vírgula
para inocentar as patifarias de quem se agiganta nas idas à lata das
bolachas.
p. 198
De
onde se dá notícia do subgénero “empowered beautiful people”.
Num almoço… em 2001, Manuel Maria Carrilho propôs a Saraiva, na sua qualidade de
diretor do Expresso, a cedência “…em exclusivo, [...] das
fotos do seu casamento com Bárbara Guimarães, sob certas condições.
…
A proposta de Carrilho era esta: ele dava-me em exclusivo as fotos, eu
comprometia-me a publicá-las na revista Expresso a preto e branco. Ele trazia
tudo pensado: a revista do Expresso daria às fotos um ‘toque intelectual’, e o
preto e branco dar-lhe-ia o ‘toque artístico’.”
____________
Nem vale a pena continuar a chafurdar estas notas; para quem, como eu, faça
parte daquela massa de pessoas peganhentas que frequenta cafés e churrascarias,
saberá muito bem da continuação desta saga chique através das manchetes das
últimas páginas dos jornais pousados nas mesas.
p. 207
De
onde se dá notícia de um calhandreiro com episódios de insanidade mental que
vai a presidente da República. As páginas de Saraiva são enfadonhas porque não
acrescentam nada; não era candidato à câmara nem seria candidato à liderança do
PSD. Cristo desceu à terra, fez uma campanha sem dinheiro e no requinte de por
ela ser pago em comícios dominicais até às vésperas do dia da eleição
presidencial. Arabesco a que uma comissão de não sei quê das eleições disse
nada, mais ou menos o que disseram os comparsas a concurso.
Diretor do Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, na revisão de textos de uma
secção de fait divers enfia o seguinte comentário: “Balsemão [proprietário
do jornal] é lelé da cuca” (o senhor professor viria a fazer
uso da expressão em relação a muitas outras pessoas). Entretanto já havia simulado
o seu enforcamento no parapeito da janela da sala em que aguardava uma
entrevista com o mesmo Balsemão. Outros episódios e histórias correm - e tive
oportunidade de ouvir de quem se me afigura com possibilidades de as ter
testemunhado - sobre o nosso querido presidente. Como a da receção a um
embaixador. Em cuecas. Até podia acrescentar uma delas, relacionada com viagens
e muito curiosa, que por um acaso tive a oportunidade de testemunhar. Não farei
nada disso. Apenas o menciono para recomendar prudência quando, a propósito de
alguém, o ouvirem pronunciar o diagnóstico de que é “lelé da cuca”.
Dá-se apenas esta coisa extraordinária de - um personagem excêntrico e
idiossincrático, potencialmente divertido -, em poucos dias, ter conseguido
exceder o irritante enfado que me dava volta ao estômago com o Jiló.
p. 144
Onde
virei duas páginas a dar revelação de que José Luís Arnaut - para o caso de
alguém ainda se recordar de quem seja ou tenha sido -, “nunca foi
totalmente sincero nem confiável.”
Onde realmente houve novidade de alguma monta –nesta coisa de tirar retrato de
quem nos governa – foi algumas páginas depois, na figura que no livro lhe
sucede. Fiquei a cismar de tal maneira que dei salto.
Voltarei. À semelhança do que me sucede com o trampolineiro, ainda me vem à
cabeça nalgum espanto.
p. 228
De
Mário Soares já quase tudo se escreveu. Marcello Caetano, com muita graça –
tudo tem graça quando se graça de Mário Soares -, também o resumiu na sumária
descrição de “um medíocre advogado da Rua do Ouro”.
Jorge Lacão, sem direito a páginas dedicadas, aparece-lhe aqui a funcionar para
Soares na qualidade de secretário e na figura militar de um ordenança. Abria a
porta a Saraiva para uma das entrevistas com Soares, que lhe dá novas de uma
europa com muita graça, contada precisamente pelo homem que “nos meteu
na europa”:
“Nessa noite, Mário Soares – que era deputado ao Parlamento Europeu, por
onde passou entre 1999 e 2001 [e onde amuou ao embaraço porque a certa
altura queria ser não sei o quê e o preteriram a favor de uma senhora
qualquer…] – levou o serão a ridicularizar deliciosamente certas
práticas que lá existiam. Descreveu as votações, que eram muito rápidas, pelo
que ninguém sabia o que estava a votar. As leis eram designadas por números e
os deputados de cada grupo parlamentar guiavam-se pelas indicações de voto do
elemento que fazia de ‘ponto’, dizendo se eles deviam votar a favor, contra ou
abster-se.Uma farsa! Não havia vontade individual. [tudo isto me faz
lembrar qualquer coisa igualmente "engraçada" mas mais doméstica, que
não lhe devia ser nada estranha…]
Outra história: quando as reuniões eram em Estrasburgo, empacotavam-se em
caixotes os documentos de cada um dos 754 deputados – formando-se depois um
cortejo de camiões TIR entre Bruxelas e Estrasburgo. É óbvio que a maioria
esmagadora dos caixotes ia e vinha sem ser aberta. Os caixotes andavam a
passear na estrada. E tudo isto custava milhões. Um desperdício! Soares contava
estas histórias com muita graça.”
Enfim, como se não nos bastasse a “graça” doméstica, Soares – na sua qualidade
de homem “que nos meteu na europa” –, arranjou maneira de nos
acrescentar esta. Mas Saraiva dá-nos notícia de outras histórias edificantes,
como aquela da prioridade de uma noite bem dormida sobre a ameaça de uma
bancarrota:
“[Q]uando Soares era primeiro-ministro (em 76, 77 ou 78?) recebe um
telefonema de Silva Lopes, governador do Banco de Portugal, às 2h da manhã.
Este diz-lhe que o país vai cair em bancarrota ‘amanhã’, Soares responde-lhe:
‘Ó homem, então amanhã, quando cairmos em bancarrota, avise-me. Mas agora
deixe-me dormir!’"
Isto teria graça se fosse o Zé a responder ao tipo do banco por incumprimento
nas prestações do carro. A meu ver, deixa de ter assim tanta graça quando o Zé
é primeiro-ministro e a traquitana é o país. Mas achou-se graça. Mário Soares
foi sempre muito engraçado.
E o país foi sempre a sua traquitana.
p. 235
Onde,
pela segunda vez - num livro que chega quase ao fim -, se fala de gente de bem.
De gente para quem a decência vem antes de tudo o resto.
Tratando “de tudo com lisura”, Miguel Portas iniciava o
jornal-revista (”Já”), lugar em que juntava dois afetos; jornalismo e
política. Com o seu antigo patrão (Balsemão) como pequeno acionista, convidou
Saraiva, diretor do jornal para onde trabalhava, para “lhe dizer que
convidava para o seu projeto uma jornalista do Expresso: ‘Só levo uma pessoa,
que para sua estranheza é a Teresa Oliveira’, começou por me dizer. Estranheza
porquê? Porque a Teresa Oliveira era vista como uma das pessoas mais
conservadoras da redação, e era suposto o novo jornal abordar causas
fraturantes…”
É na sequência da evocação deste encontro com Miguel Portas que o autor escreve
uma das passagens mais diabolizadas do livro:
“Comentámos a política. Disse-me com um ar perfeitamente natural e sem me
pedir segredo que o irmão nunca seria líder do CDS, explicando: ’O Paulo é
homossexual e teme que, com a exposição que o cargo lhe daria, isso pudesse vir
a público.’ Esta profecia mostrar-se-ia errada em toda a linha: dois anos
depois deste almoço, Paulo Portas seria líder do CDS e os jornalistas nunca
explorariam as suas inclinações sexuais.”
De facto, assim foi e ainda é. Tanto quanto vejo e posso testemunhar – em todos
os lugares, designadamente os mais “rústicos” -, os meus concidadãos até podem
ser afetados pela debilidade de fazer comentários acerca da vida íntima alheia
– e a dos políticos não é exceção. Mas nunca em algum momento eleitoral ouvi
alguém invocar essa vida intima como argumento político. Outro tanto poderá
dizer-se acerca dos jornalistas. De onde talvez se possa concluir acerca de
alguma superioridade em relação a povos com tradições democráticas mais
antigas…
Seja como for, foi a propósito desta passagem que se produziram muitos dos
comentários mais assanhados, desqualificando o autor como mentiroso, a pretexto
de que conheciam muito bem Miguel Portas e "ele nunca poderia ter
dito tal coisa porque adorava o irmão" (esta frase é literalmente
citada de Daniel Oliveira).
Acerca desses imbecis não tenho nada a acrescentar ao que aqui escrevi
ainda antes de ler o livro.
p. 238
Onde
se escreve que “Morais Sarmento era considerado uma das ‘boas cabeças’
do grupo de apoiantes de Durão Barroso, e foi premiado com um ministério quando
D. B. subiu ao poder, sem ter currículo que o justificasse.”
Fica dito em pouca coisa.
Além do “efeito porta giratória” como abono de funções
executivas, abichava e abicha como advogado “Júdice”, um outro grande tartufo
do regime e de quem Saraiva não dá novas.
p. 24
Onde
se dá notícia de um fait divers ("repetir é
significar"…):
“Maria José [Nogueira Pinto] disse-me que [Paulo
Portas] arrastava uma mágoa: como conservador que era, gostaria ‘de
usar sobretudo e de ter uma família, mulher e filhos’, mas tal não era
possível. Ou seja: a sua personalidade estava em conflito com a ideologia que
perfilhava.”
É deliciosa aquela parte em que Paulo Portas gostaria de “usar
sobretudo”. Fico para aqui cheio de ideias a construir um personagem cuja
principal característica seria a de ambicionar “usar sobretudo".
p. 247
De
onde se fala de Pedro Passos Coelho, anunciado apresentador do livro que se
escusou de o vir a fazer em virtude de uma borrasca. Estou tentado a resumir o
ex-primeiro-ministro com duas metades de dois subtítulos das páginas que lhe
são dedicadas: um ”muito formal” “balão cheio de ar” (esta
descrição é minha; não a imputo ao autor embora o cite).
Interessante – e largamente coincidente com a impressão que tinha da senhora –
é o retrato que Passos Coelho faz de Dilma Rousseff: “’É uma mulher
presunçosa, arrogante, desagradável, roçando a má educação’
Adianta que ela despreza Portugal e fez várias desfeitas a Cavaco Silva.
Exemplifica: numa cimeira ibero-americana em Cádis, em novembro de 2012, esteve
10 minutos a falar com Cavaco em espanhol, como se não soubesse quem ele era.
Este estava estupefacto, sem saber o que fazer: Dilma era Presidente do Brasil
há dois anos e não o conhecia?”
Precisamente, caro Saraiva; além das aduzidas propriedades, a criatura
junta-lhes a ignorância que anda sempre de namoro com a presunção.
De onde se segue que os nossos compatriotas brasileiros (sim, sim, porque a
minha pátria é mesmo a minha língua) não parecem ter sido abençoados com melhor
sorte no que ao poder político diz respeito.
p. 251
Chegado aqui, já não me
sobra muita paciência para a hospedeira, para a Cinha e para o secretário de
Estado da Cultura de Cavaco que foi a primeiro-ministro num curto episódio em
que o Jiló vê uma aberta e o manda para casa, pondo fim aos tabefes de que alegadamente
era vítima.
Falta-me o Machete, o Constâncio (a nossa Dilma), o Barroso e o trampolineiro.
Mas hoje é dia de festa.
Celebremos!
pág. 147
De
onde o autor fala de um guarda-fatos com motorista.
“O seu aperto de mão é um pouco estranho, pois estende a mão (um bocadinho
sapuda) semifechada. Talvez porque tem normalmente a mão húmida.” Ou
talvez porque a sua motricidade mais fina haja sido afetada dos tempos de
militância no MRPP em que “… andava à pancada com grupos rivais.
Dizia-se que era temível. Aparenta ser mais baixo do que na realidade é, porque
tem um corpo maciço, quase atarracado. Mas deve ter perto de 1,80m.”
Seja qual for a razão, esta porcaria nunca chegou a aprender a conduzir; “[c]omo
foi governante muito cedo (aos 29 anos era secretário de Estado da
Administração Interna), e começou muito cedo a ter motorista, não aprendeu a
conduzir nem fez outras coisas banais para qualquer cidadão comum.
…
A saída do governo colocou-lhe vários problemas. Ficou sem motorista.
Contratou um, … , mas muitas vezes estava dependente de terceiros. Um dia, em
1996, … pediu-me para o ir buscar à sede do Grupo Espírito Santo, …
…
Depois de sair do governo e ficar desempregado, Durão Barroso foi portanto
trabalhar para o GES. Não devia fazer nenhum trabalho concreto, penso eu. Mas
os Espírito Santo seguiam – com ele e com outros políticos – a prática de lhes
darem emprego, pois era uma forma de terem ascendente sobre certas pessoas
influentes. Fazendo-lhes favores, colocavam-nas na posição de terem de
retribuir um dia.”
Recordo-me de o ver como “colonista” do Expresso – Saraiva menciona-o – mas não
me recordo de haver sentido vontade ou razão para avançar da segunda linha dos
seus textos; “[e]screvia de uma forma redonda, carregada de autolimitações
para não comprometer. Era sempre muito politicamente correto, nunca arriscava
uma opinião fora da caixa. Era maçudo e previsível.”
Resumidamente, era alguém sem uma única ideia que não fosse a de trepar e a das
manhas que estão geralmente associadas a essa vontade.
“Em Março de 2003 realizou-se nas Lajes a Cimeira dos Açores. Durão Barroso
diz-me ao telefone que Colin Powell, secretário da Defesa dos EUA, fez uma
exposição em que convenceu os líderes europeus da existência de armas de
destruição maciça no Iraque.”
Alega então que foi assim, “convencido”; o Barroso estava renitente
e o Bush já começava a ver a vida a andar para trás, a ver que não podia
rebentar com Bagdad... Mas lá acabou por se oferecer para as funções de mordomo
da tal “cimeira” que viria a colocar o território português na geografia dos
crimes de guerra perpetrados pelos “aliados” e que desde então assolam o médio
oriente numa coisa cinicamente batizada de “primavera árabe”; a
necessidade de derrubar “o tirano Bashar al-Assad “,
parece ser a flor ainda em falta no desabrochar deste maravilhoso bouquet.
No meio do mais ruidoso silêncio e da aparente cumplicidade dos cidadãos
das civilizadíssimas “democracias” europeias.
Em 2004, com alguns meses na função de primeiro-ministro, disse “que
Chirac lhe tinha telefonado nessa manhã a insistir para que ele aceitasse [ser
escolhido para presidente da Comissão Europeia].
…
‘Não acha que as pessoas vão pensar que eu fugi?’”, perguntou a Saraiva.
Não pá, as pessoas não pensaram que fugiste. Pensaram que foste à tua vidinha,
apenas isso. A crise política que por cá deixaste e as cenas macacas em que se
arrastou não são mais que a democracia a funcionar, o futebol é mesmo assim.
Confesso que não sei qual foi o bairro que deu à luz este pedaço de esterco.
Mas se me fosse dado eleger a criatura mais repugnante de entre as que temos
tido a desgraça de ver governar-nos, este seria sem dúvida um dos mais sérios
candidatos.
Entretanto, desde que terminou funções lá naquilo da europa, vem-nos brindando
com algumas pequenas alegrias.
Mete-se num avião e vem a correr para Lisboa a farejar a possibilidade de um
derivo triunfal até ao palácio de Belém. “Lisboa” larga-se a rir e ele afocinha
de faro uma monumental tampa.
Alguém transpira que ele tinha passado a abichar pela Goldman Sachs e põem-se
os gajos lá da europa a rabejar que já não tinha direito a tapete e só lá
voltava a entrar pela porta da cozinha que era a porta reservada a serviçais.
Numa divertida galhofa, ameaçam cortar-lhe com a “pensão de sobrevivência” e
vemo-lo a choramingar queixinhas de lhe fazerem aquilo a ele “só por
ser português” (sic) porque há outros meninos e meninas a abichar por
fora e não lhes acontece nada.
Uma outra alegria que nos dás: a Goldman Sachs vai atirar pela janela todo o
dinheiro que combinou dar-te porque o teu valor de mercado é inferior ao de uma
ação do GES. Todo lampeiro a pores-te à venda e acontece-te uma coisa destas,
vê lá tu.
Oh Barroso… Não deve de haver mais de meia dúzia de portugueses a não querer
que te auto-insemines com muita força.
Digamos assim.
p. 257
De
onde se dá notícia pálida de mais uma porcariazita porque me impus fazê-lo e
vivo na impressão de nunca levar nada até ao fim, nem sequer essa coisa de
nunca levar nada até ao fim.
Rui Machete foi ministro dos assuntos sociais, da justiça, da defesa, dos
negócios estrangeiros e vice-primeiro ministro. Fica-se com a impressão de que
quando precisavam de um gajo lembravam-se do Machete.
Saraiva diz dele que “[é] um senhor, bem preparado, mas sem o rasgo de
um político. Mas também é verdade que não apostou todas as cartas na política,
mantendo sempre o seu escritório de advogado.”
Bom, esta coisa de Machete ser “um senhor” é algo
altamente improvável; ocorrem-me dezenas de adjetivos mais adequados à
descrição deste canalha. Por exemplo, aqui temos
uma descrição bem mais rigorosa de tal “senhor”:
“In 1992, Ambassador Briggs reported that, "As long as Machete is
there, FLAD can only be marginally useful to us." The foundation's
overhead then was 60% of revenue, leaving only 40% for actual programming.
Today, this figure is only somewhat better as FLAD continues to spend 46% of
its budget on overhead for its luxurious art-adorned offices, bloated staff,
fleet of chauffeured BMWs, and on "personnel and administrative costs"
that has included at times wardrobe allowances, low-interest loans to staff,
and honoraria for staffers participating in FLAD's own programs."
Pois este “senhor” (que
viria a ser o ministro dos negócios estrangeiros escolhido por Passos
Coelho...) deveria ser um embaraço diplomático, não por não servir da melhor
maneira os interesses do governo americano, mas por não servir ninguém senão a
si próprio da maneira mais obscena possível.
Nem valerá a pena acrescentar que abichou pelo BPI, CGD, BCP, BCPI, SLN, BPN, BPP,
isto apenas para mencionar o sector financeiro; se fossemos ao resto
chegaríamos à suspeita de que só em nove vidas haveria espaço para tamanho
currículo.
Enfim, num país com cidadãos que se dessem ao respeito, este “senhor” estaria
na cadeia e seria expropriado de todas as suas pilhagens. Dá-se apenas o caso
de o virem achando “preparado”.
p. 258
Recordo-me
que em tempos, vez por outra, – não sei se ainda acontece –, os jornais “de
referência” davam de construir a reputação de alguém que afiguravam como
promessa política e que era unanimemente apresentado como cântaro de virtudes e
qualidades, a água mais pura e fresca para protagonismo político num qualquer
partido (com representação parlamentar).
Para mim, o primeiro e último desses episódios em que me senti tolo de fé– de
vida breve, apenas até aos primeiros assobios da criatura – foi com Durão
Barroso. Sucederam-se outros: António Vitorino, por exemplo - foi divertido
porque a certa altura percebi que os “criadores” estavam espantados com a
medíocre vulgaridade da criatura.
Outra dessas “criações” foi Vítor Constâncio que viria a ser “apontado
como o mais forte candidato”:
“Na conversa que mantivemos mostrou-se um homem convencido de si próprio.
Estava-se no período de sucessão à liderança do PS, após o anúncio de saída de
Mário Soares, e ele era apontado como o mais forte candidato. À minha pergunta
sobre o assunto, respondeu que só se candidataria se tivesse a certeza absoluta
de ganhar e houvesse uma quase unanimidade em redor do seu nome. Era como se
estivesse a fazer um favor ao PS e não aceitasse ser contrariado.”
À frente do Banco de Portugal, não obstante sucessivos erros em previsões
macroeconómicas, continuou a gozar de “boa imprensa”. E continuou a gozar de
“boa imprensa”, não obstante as sucessivas falhas na supervisão bancária nos
casos do BPN, BPP e BCP com prejuízos de cerca de 10.000 milhões de euros a faturar
ao contribuinte. Justificou tudo com preleções em que, no jargão dessa “ciência
oculta” que é a economia e com uma arrogância a roçar a má criação, explicou às
criancinhas a inevitabilidade do desastre e as superiores virtudes da sua
pessoa à frente do Banco de Portugal, uma instituição ruinosamente dispendiosa,
reiterada e confessadamente incompetente e, nos seus desígnios, inútil a um
país sem soberania financeira.
Numa magnífica ilustração do princípio de Peter, em 2010 foi nomeado
vice-presidente do Banco Central Europeu.
Durante oito anos, é um azeiteiro a menos por aqui.
p. 161
São
quase dez, as páginas que Saraiva dedica ao trampolineiro.
Não trazem qualquer novidade em relação ao que já é público.
Mas são divertidas de ler. Em todo o tempo em que as lia, imaginei Saraiva nas
expressões de Astérix, Obélix e Panoramix, surpreendidos com as trafulhices de
Tulius Detritus n’”A Zaragata”.
Juntei o que li a tudo o que já tinha lido sobre o “menino de oiro”. E tudo bate certo:
“[E]m privado é uma pessoa muito diferente […] do que aparenta ser em público. A diferença entre uma pessoa e ‘outra’
chega a ser estranha. Não tem grandes ideias e fala às vezes de temas a
despropósito.”
É a virar páginas. Foi sempre assim, desde a adolescência na
província. Porque é que há-de ler livros e ter ideias se pode surripiar
diretamente da cabeça de quem o faz?
No dia em que “apresentou” o “seu” primeiro livro, numa
reportagem de um noticiário qualquer, Pinto de Sousa manipulava um exemplar.
Nesse mesmo dia arrisquei-me a elaborar por escrito a opinião de que a criatura
nunca tinha lido um único - umas fotocópias, talvez; um livro, não. Porque a
maneira como uma pessoa agarra uma ferramenta que não sabe usar é absolutamente
inconfundível. E o Pinto de Sousa, durante a tal reportagem, manipulava
um exemplar do “seu” livro da maneira que alguém segura um martelo pela
primeira vez na vida.
“….Sócrates
era – como ficou dito – muito pouco brilhante a argumentar. Parecia uma pessoa
banal, com uma conversa banal. Ora, nas intervenções televisivas, era
acutilante e eficaz, às vezes quase brilhante, mesmo quando não tinha razão do
seu lado. Perante as câmaras de televisão ou o público, Sócrates superava-se.
Ou então, como alguém disse, tinha uma capacidade de memorização invulgar e
preparava previamente essas intervenções, limitando-se no momento a debitar o
discurso que tinha preparado. Não sei qual a verdade.”
Obviamente, a última hipótese. Sócrates suga os
interlocutores e “fala” sobre o que circunstancialmente lhe convém (“fala às vezes de temas a
despropósito.”, em privado…). E sim, deve ter realmente uma “capacidade de memorização
invulgar”; a boa memória é a ferramenta essencial de todo o mentiroso.
Publicamente, Sócrates fala apenas em conformidade com a agenda ensaiada, e
quase todos os “entrevistadores” aceitaram o jogo do vamos brincar às
entrevistas. Tanto quanto me recordo, o único que se atreveu a fazer perguntas
não ensaiadas foi pública e grosseiramente desconsiderado sob a acusação de
falta de isenção, culpado de o interpelar a partir de uma agenda política que
lhe era adversa.
Estas formas de grosseria caceteira valeram-lhe dos
jornaleiros a encomiástica designação de “animal feroz”; pretendiam designar a falta de maneiras com a história da
“ferocidade”.
p. 262
No
curto epílogo de “Eu e os políticos”, o autor declara que a
sua “…única ambição … foi deixar um testemunho que possa ser útil a
quem, no futuro, tente reconstituir a história deste período.”
E, mais à frente, acrescenta: “Só guardei para mim aqueles segredos
cujo interesse público, em meu entender, não mereceria os danos que a sua
divulgação poderia causar.”
Como escrevi antes, ficou-me a suspeita de que o autor deixa muitas coisas por
contar – e essa suspeita foi grande ao longo da leitura das páginas dedicadas
ao trampolineiro e das personagens que o rodeavam. De onde não esteja
absolutamente certo da justeza do critério do autor na omissão de “segredos”.
Não por desonestidade porque me parece estruturalmente honesto e incapaz da
mentira. Mas porque confirmei a impressão que já tinha antes de ler o livro:
Saraiva padece de uma quase surreal candura e muito ou tudo do que se lhe
atribuiu de maledicência não é mais do que um dos efeitos dessa candura. Mas
até por causa dela, a anunciada ambição do autor parece-me perfeitamente
conseguida.
Não é um livro “de mexericos” e não merecia toda a série de deselegâncias com
que foi acolhido. É um documento escrito por alguém que, por força da sua
profissão, privou com muitos dos protagonistas políticos do regime democrático.