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domingo, 19 de maio de 2024

uma pergunta aberta para o doutor ventura

Já não sei bem a que pretexto, o senhor lembrou-se de dizer um destes dias que o povo turco é preguiçoso.* Um insulto - costumava ser um insulto… - que alguma gente mais a norte, eventualmente convencida da sua superioridade moral, frequentemente dirige aos “povos do sul”. Como o nosso. 
Em certa ocasião, um cavalheiro dos países baixos celebrizou-se até entre nós por haver conseguido juntar-nos à preguiça a incapacidade de nos deitarmos para fins recreativos sem recorrer aos serviços de senhoras especializadas.
 
Vamos supor que, a pretexto do facto de cinco ou seis criancinhas portuguesas terem espancado violentamente uma criancinha nepalesa proferindo impropérios racistas e xenófobos, uma gentalha protofascista decide escrever artigos de jornais, fazer programas de comentário e declarações no parlamento no sentido de considerar que "os imigrantes correm perigo em Portugal" e que "o preconceito racial e xenófobo está a passar do discurso político dirigido a todos para as ameaças e agressões dirigidas às pessoas racializadas ou imigrantes"

O senhor acha mesmo admissível que estas grosseiras generalizações acerca do alegado racismo e xenofobia do povo português são aceitáveis? Acha mesmo aceitável que essa desprezível gentalha continue a enxovalhar-nos impunemente a pretexto da liberdade de expressão?

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* - PS: Afinal parece que aquilo que o senhor pretendia dizer - e que foi truncado do respectivo contexto...- terá sido que os turcos não eram mais trabalhadores que os portugueses...

domingo, 28 de agosto de 2022

reforma da justiça

Como já alguém aqui escreveu com muita graça, no Chega assemelham-se cada vez mais aos piratas nas aventuras do Asterix: não precisam de mais ninguém para afundarem o navio. Eles mesmos se encarregam disso.  

Mas gostava muito de perceber o que é que o André Ventura – ao que li na "comunicação social", um brilhante aluno de Direito, com amigos em tribunais superiores... – não gostou da partilha de um artigo  por parte do Gabriel Mithá Ribeiro  ao ponto de exigir que fosse apagado “em 24 horas”. 

Porque é verdade quando se sugere que o Chega mais não tem feito do que um burlesco apelo ao agravamento de penas em vez de defender uma verdadeira reforma na justiça, uma reforma que aliás prometeu ao seu eleitorado.

domingo, 17 de janeiro de 2021

helicóptero da sic : josé manuel pureza pinta os lábios contra o fascismo

Quando ontem vi o josé manuel pureza de lábios pintados num vermelho-carro-de-bombeiros* fiquei a ponderar a hipótese de, a pretexto da luta contra o fascismo -pela expressão facial percebia-se mesmo que o pureza estava a lutar-, haver muitos antifascistas a fazerem o que sempre sonharam fazer: pintar os lábios.

Não tem mal nenhum. E ao contrário do que frequentemente me acontece, não há por aqui qualquer politiquice; repare-se que o tal fascista que põe o pureza em luta com ar severo também parece agradado com a ideia. A única diferença é a de preferir uma cor mais punk.


*- Com muita pena, não consegui arranjar boneco. Mas recomendo a tentativa de encontrar o vídeo da notícia.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

do regime sob a ameaça de um escrutínio






















(foto: António Cotrim / Agência Lusa)

André Ventura apresenta-se como candidato antirregime.
Ana Gomes “acusa” Marcelo de ser o candidato do “regime” (uma “acusação” cómica, vinda de quem vem…).
Marcelo, fazendo de conta que Ventura e Ana Gomes não usam o termo “regime” do mesmo modo com que outrora era usado para designar o Estado Novo. Diz que sim, senhor, ele é o regime, tanto mais que jurou respeitar e defender a constituição, era o que mais faltava e tal.
O coiso que ficou a fazer de presidente da república da madeira insiste que é necessária uma candidatura de “centro-direita” que se oponha a Marcelo.
Já toda a gente sabe que todos os atores do regime, de modo mais ou menos tímido e por instinto de sobrevivência, terão que cerrar fileiras em torno do candidato que afinal os representa como nenhum outro.

Se a televisão vendia tudo – e Marcelo continua a usá-la como mais ninguém para se vender a si próprio-, com o "cogumelo do tempo" começo a suspeitar que tenha deixado de ser a melhor esquina para montar banca.
André Ventura, com alguma mercadoria contrafeita para vender, é boicotado nos centros comerciais das notícias mais finas, mas dispara nas vendas em feiras cada vez mais povoadas de gentios desencantados com produtores de notícias pinocas e realidades envernizadas pelo poder.
Marcelo já o sabe. Acho graça quando o descrevem como “imprevisível” e“espontâneo”. Tudo nele é premeditado, tal como premeditadas são todas as centenas de“selfies”que têm o seu álbum de família nas redes.




Ele sabe muito bem onde essas fotos vão parar e é por isso que vai ao supermercado; "parece um de nós", desta vez até com direito a reproduções nos meios da informação pinoca.


























É já longínqua aquela infância política que o levou a vestir a pele de um taxista. Infelizmente para ele e para o regime que tão bem representa, não se pode consentir as mesmas coisas que André Ventura.

Nas próximas eleições presidenciais, para essa dispendiosa inconsequência que é a presidência, se não houver alteração significativa de oponentes, é a popularidade do regime que vai ser escrutinada.
Os atores, se não o sabem, já o sentem.
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Este texto não é mais do que a continuação deste outro.

terça-feira, 19 de maio de 2020

apócrifos, trivelas, venturas e jogo sujo

Não foi muito depois de ouvir meia dúzia de palavras repetidas (num noticiário televisivo, senhores!!!) de uma mensagem de um jogador de futebol - a pretexto de ciganos e André Ventura -, que fiquei de pé atrás com a quase certeza de que  não tinham sido escritas pelo artista da bola. 
Mas a desmontagem de um embuste exige muita ciência no que respeita ao lugar das vírgulas:

"O insigne jornalista Ferreira Fernandes, prosador exímio, não resistiu a molhar o bico ditirâmbico no processo de canonização sumária em curso: 
«[...]
Os cruzamentos de trivela de Quaresma são dos maiores momentos do futebol mundial. Um misto de ciência, pela curva traçada, um sentido dramático pelo espanto de colegas, adversários e público, e uma beleza pegada. Como o outro, Garrincha, também magnífico e demasiado povo, Quaresma teve como destino ser a alegria do povo. [...]
Olhem um cidadão, pelo texto que escreveu* [...]
Ricardo Quaresma é soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada [...]
Ricardo Quaresma voltou ao twitter e publicou: Olhos abertos amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros... Que frase política, de quem podia aproveitar-se para soprar no fogo, e não o fez. Sem ter andado em seminário, nem universidade inglesa**, que respeito pela comunidade, a estreita e a Pátria. Que sentido de Estado!
Que sabedoria de quem, sabendo que há problemas, quer resolver e não inquinar. Quanto mais fácil seria, para uma vedeta que tem a sua vida e a dos seus materialmente resolvida, poder juntar a isso a vã glória de cavalgar uma qualquer rebeldia. Os meus, disse Quaresma aos seus e a nós, somos nós todos. Que lição do que é ser português! [...]
Sabia-te artista mas misturado com um bruto. Mas o que tu és é isso tudo e também um homem comovedor. Chapeau. Respect. Dá cá um abraço.
E ontem, ainda no Facebook, publicas a recordação do teu tio-avô, também futebolista, Artur Quaresma, do Belenenses. Num Portugal-Espanha, 1938, ele e dois colegas da selecção e do clube (José Simões e Mariano Amaro), não fizeram a saudação fascista.***  Portugal-Espanha, resultado: um hat-trick, ganhámos nós todos a memória de uma coragem. Não era um gesto sem risco: depois daquilo, Cândido dos Reis, treinador dos três no clube e na selecção, foi parar ao campo de concentração do Tarrafal.
Ricardo Quaresma à escrita*: Ontem como hoje, a família Quaresma sempre soube estar do lado certo da história.
[...]»

* Ferreira Fernandes, entusiasmado e crédulo, acha que é Ricardo Quaresma quem escreve. Não creio. Ao sábio Quaresma jamais escapariam as três vírgulas imprescindíveis nas três jaculatórias com que encerra o manifesto "Todos diferentes, todos iguais":
«[...]
Olhos abertos amigos, o populismo diz sempre que é simples marcar golo mas na verdade marcar um golo exige muita táctica e técnica.
Olhos abertos amigos, o racismo apenas serve para criar guerras entre os homens em que apenas quem as provoca é que ganha algo com isso.
Olhos abertos amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros... isto se queremos chegar ao céu.»

Olhos abertos, amigos, se faz o obséquio! Olhos abertos amigos eram os da minha avó Nazaré. 

** Alusão, críptica para a generalidade dos leitores do DN, a André Ventura ter frequentado um seminário e a ter-se doutorado na Universidade de Cork, depois de a Universidade Nova o licenciar em Direito com média final de 19 valores, o que pode não dizer grande coisa; pois se, por exemplo, da selecta Católica e em Direito também saiu licenciado o vira-casacas, videirinho e «tartufo» Pedro Marques Lopes, como alguém um destes dias o tratava no Aspirina B, pardieiro do Valupi — é Valupi, não Plúvio, quem assim classifica o blogue de que é senhorio —, fã de ambos, PML e FF, por sinal grande compincha de Ferreira Fernandes [«meu querido Pedro»]...
Ó Ferreira Fernandes, tenha paciência mas fica-lhe péssimo baralhar a Inglaterra monárquica com a República da Irlanda.

*** Muito mais desastrado, porém, andou o jornalista tarimbadíssimo, "maluqinho da bola" que sabe todas as histórias e todos os nomes dela, ao comover-se e deixar-se enrolar em novo manifesto quaresmal — desta vez, despudorada e miseravelmente oportunista — publicado ao fim da manhã de anteontem na "conta oficial" de Ricardo Quaresma no Twitter — «Ontem como hoje, a família Quaresma sempre soube estar do lado certo da história. E nunca se vergou nem teve medo de dizer não ao racismo.» —, tomando Alfredo Quaresma, esse, sim, tio-avô do inefável Ricardo, que jogou nos anos '70 do século XX, por Artur Quaresma, o "anti-fascista", que esteve no activo quatro décadas antes e com quem Ricardo Quaresma não tem nenhum laço familiar.
Volto a supor que alguém anda a escrever em nome de Ricardo Quaresma. Alguma vez a superioridade e o escrúpulo éticos de RQ consentiriam em embarcar no «lado certo da história» à boleia de um tio-avô falsificado? Seja banido da civilização quem tal ouse admitir! Talvez por isso o verdadeiro Quaresma, príncipe caceteiro do bem e da bondade, tenha lesta e diligentemente apagado o tuíte enganoso que inebriou Ferreira Fernandes, fazendo exarar ontem na sua "página oficial" do Facebook um texto de tal elevação literária e tamanho esmero gráfico que auguram para este aríete dos relvados, que aos 36 vai gastando o resto das botas a marcar golos exigentes muito tácticos e técnicos ao serviço de uma agremiação turca de segunda ordem, não direi horizonte de esplendor no areópago das Letras mas, no mínimo, poleiro dourado na academia da Virtude.

De outro e muito brando modo aqui se dá conta do caso.

De resto, quero que André Ventura se foda e desejo que Ferreira Fernandes não precise nunca de disputar com ciganos — RQ é cigano integrado, ciganos são coisa diferente —  a "sua vez" na fila das urgências do Beatriz Ângelo ou do Garcia de Orta, ou na fila de cidadãos socialmente distanciados à entrada de qualquer mercearia de Alfragide. Experimente. E para repor a ordem no Estado de direito democrático convoque o atleta tremebundo. 
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Daniel Oliveira- Eu acho que ele [Ricardo Quaresma] fez um texto de uma elegância...
Pedro Marques Lopes- ... e bem escrito!
DO- ... e bem escrito. Uma pessoa crente, portanto bastante baseado nisso; o melhor que ser cristão pode ter, o que ali está é o melhor que ser cristão pode ter.
Nada como um apedeuta para convalidar a excelência literária.
E para certificar a ortodoxia da fé, nada como uma criatura que vem desde 02.Jul.1969 caldeando o bestunto ateu nas múltiplas e sucedâneas madrassas do comunismo.
Mas reconheço: o jornalista DO, que leio com assiduidade, escreve benzinho."

De "Plúvio" e aqui.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

quora

O que acha do Adolfo Mesquita Nunes como candidato à presidência?
Adolfo Mesquita Nunes, mais ou menos formalmente, despediu-se da política ativa para se dedicar a tempo inteiro à advocacia em pelo menos uma entrevista. Parece-me altamente improvável que se venha a disponibilizar para amortecer uma eventual pancada no regime a pretexto de uma eleição presidencial.
Vou tentar explicar.
Não haverá praticamente ninguém em Portugal que, em qualquer cenário e com quaisquer adversários, conceba a derrota do atual presidente numa segunda candidatura; é um demagogo que domina a arte das técnicas de aliciamento das massas e com quem Gustave Le Bon teria muito que aprender. Além disso, para a sua “campanha eleitoral” dispõe de um orçamento de 15 – 17 milhões de euros anuais, o orçamento da presidência. E ele não fez mais do que usa-los rigorosamente para esse efeito ao longo do seu mandato.
O senhor Costa, atual primeiro-ministro, na tentativa de poupar o seu partido a um novo vexame eleitoral nas presidenciais, aproveitou a visita a uma fábrica de automóveis para lhe declarar o seu apoio nos termos mais afetuosos. Na sua família política, a camarada Ana Gomes está cheia de vontade de avançar, talvez anunciando a sua candidatura numa fábrica de tratores, ladeada de alguns camaradas mais ou menos zangados com a direção do partido.
Ainda mais à esquerda não é de excluir a possibilidade das candidaturas da senhora Marisa Matias do BE, uma candidata “engraçadinha” nas palavras azedas do secretário-geral do PCP que quase seguramente apresentará o seu candidato mais ou menos obscuro.
Por consequência, Marcelo – tautologicamente de “direita”, para os que gostam deste tipo de explicações políticas -, apresentar-se-á a eleições com uma “esquerda” completamente pulverizada em candidaturas sem qualquer hipótese de aspirarem a mais que resultados ridículos.
Até ao momento, o único oponente à “direita” que declarou a sua intenção de se candidatar, foi André Ventura. Que num dos episódios mais cómicos da política à portuguesa, foi encorajado a não concorrer às eleições presidenciais por… Marcelo, o atual presidente.
Sucede que este cavalheiro, um populista quase tão cínico quanto Marcelo, verdadeiramente odiado pelo regime – designadamente pela “comunicação social” que vai buscar ao estado o cheque com que paga os seus sistemáticos prejuízos -, anda a trepar nas sondagens de um modo que deve ser enervante para quem herda ministérios em razão do direito sucessório dos familiares em primeiro grau. Sim, isto não é hipérbole, os casos sucedem-se sem pudor, no seio desta nova “aristocracia” republicana…
Em tal cenário, além de Marcelo, até as “esquerdas” precisam de um candidato à “direita”. Marcelo porque vai querer afogar a hipótese de a “direita” que o despreza votar em bloco em André Ventura, ofuscando e deslustrando o esplendor da vitória que todos lhe dão por certa. Ao ganhar por uns pontos a um candidato odiado por todas as forças políticas do regime.
E as “esquerdas” pelo dobro das razões. Com o cenário da candidatura de Adolfo Mesquita Nunes dividem os potenciais resultados de André Ventura e tornam mais palatável a ignomínia das derrotas eleitorais a que os seus candidatos ficariam sujeitos no confronto direto com um sujeito por quem nutrem uma visceral aversão.
Resta saber se Adolfo Mesquita Nunes, sendo um homem inteligente se presta a tal frete pelo regime.
Tudo depende do desdém e asco que também ele possa sentir por André Ventura. Será suficiente para o convencer a tamanho sacrifício? Não acredito. Como disse, parece-me um tipo inteligente.