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terça-feira, 19 de maio de 2020

apócrifos, trivelas, venturas e jogo sujo

Não foi muito depois de ouvir meia dúzia de palavras repetidas (num noticiário televisivo, senhores!!!) de uma mensagem de um jogador de futebol - a pretexto de ciganos e André Ventura -, que fiquei de pé atrás com a quase certeza de que  não tinham sido escritas pelo artista da bola. 
Mas a desmontagem de um embuste exige muita ciência no que respeita ao lugar das vírgulas:

"O insigne jornalista Ferreira Fernandes, prosador exímio, não resistiu a molhar o bico ditirâmbico no processo de canonização sumária em curso
«[...]
Os cruzamentos de trivela de Quaresma são dos maiores momentos do futebol mundial. Um misto de ciência, pela curva traçada, um sentido dramático pelo espanto de colegas, adversários e público, e uma beleza pegada. Como o outro, Garrincha, também magnífico e demasiado povo, Quaresma teve como destino ser a alegria do povo. [...]
Olhem um cidadão, pelo texto que escreveu* [...]
Ricardo Quaresma é soberbo, costas direitas, cabeça erguida, gola levantada [...]
Ricardo Quaresma voltou ao twitter e publicou: Olhos abertos amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros... Que frase política, de quem podia aproveitar-se para soprar no fogo, e não o fez. Sem ter andado em seminário, nem universidade inglesa**, que respeito pela comunidade, a estreita e a Pátria. Que sentido de Estado!
Que sabedoria de quem, sabendo que há problemas, quer resolver e não inquinar. Quanto mais fácil seria, para uma vedeta que tem a sua vida e a dos seus materialmente resolvida, poder juntar a isso a vã glória de cavalgar uma qualquer rebeldia. Os meus, disse Quaresma aos seus e a nós, somos nós todos. Que lição do que é ser português! [...]
Sabia-te artista mas misturado com um bruto. Mas o que tu és é isso tudo e também um homem comovedor. Chapeau. Respect. Dá cá um abraço.
E ontem, ainda no Facebook, publicas a recordação do teu tio-avô, também futebolista, Artur Quaresma, do Belenenses. Num Portugal-Espanha, 1938, ele e dois colegas da selecção e do clube (José Simões e Mariano Amaro), não fizeram a saudação fascista.***  Portugal-Espanha, resultado: um hat-trick, ganhámos nós todos a memória de uma coragem. Não era um gesto sem risco: depois daquilo, Cândido dos Reis, treinador dos três no clube e na selecção, foi parar ao campo de concentração do Tarrafal.
Ricardo Quaresma à escrita*: Ontem como hoje, a família Quaresma sempre soube estar do lado certo da história.
[...]»

* Ferreira Fernandes, entusiasmado e crédulo, acha que é Ricardo Quaresma quem escreve. Não creio. Ao sábio Quaresma jamais escapariam as três vírgulas imprescindíveis nas três jaculatórias com que encerra o manifesto "Todos diferentes, todos iguais":
«[...]
Olhos abertos amigos, o populismo diz sempre que é simples marcar golo mas na verdade marcar um golo exige muita táctica e técnica.
Olhos abertos amigos, o racismo apenas serve para criar guerras entre os homens em que apenas quem as provoca é que ganha algo com isso.
Olhos abertos amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros... isto se queremos chegar ao céu.»

Olhos abertos, amigos, se faz o obséquio! Olhos abertos amigos eram os da minha avó Nazaré. 

** Alusão, críptica para a generalidade dos leitores do DN, a André Ventura ter frequentado um seminário e a ter-se doutorado na Universidade de Cork, depois de a Universidade Nova o licenciar em Direito com média final de 19 valores, o que pode não dizer grande coisa; pois se, por exemplo, da selecta Católica e em Direito também saiu licenciado o vira-casacas, videirinho e «tartufo» Pedro Marques Lopes, como alguém um destes dias o tratava no Aspirina B, pardieiro do Valupi — é Valupi, não Plúvio, quem assim classifica o blogue de que é senhorio —, fã de ambos, PML e FF, por sinal grande compincha de Ferreira Fernandes [«meu querido Pedro»]...
Ó Ferreira Fernandes, tenha paciência mas fica-lhe péssimo baralhar a Inglaterra monárquica com a República da Irlanda.

*** Muito mais desastrado, porém, andou o jornalista tarimbadíssimo, "maluqinho da bola" que sabe todas as histórias e todos os nomes dela, ao comover-se e deixar-se enrolar em novo manifesto quaresmal — desta vez, despudorada e miseravelmente oportunista — publicado ao fim da manhã de anteontem na "conta oficial" de Ricardo Quaresma no Twitter — «Ontem como hoje, a família Quaresma sempre soube estar do lado certo da história. E nunca se vergou nem teve medo de dizer não ao racismo.» —, tomando Alfredo Quaresma, esse, sim, tio-avô do inefável Ricardo, que jogou nos anos '70 do século XX, por Artur Quaresma, o "anti-fascista", que esteve no activo quatro décadas antes e com quem Ricardo Quaresma não tem nenhum laço familiar.
Volto a supor que alguém anda a escrever em nome de Ricardo Quaresma. Alguma vez a superioridade e o escrúpulo éticos de RQ consentiriam em embarcar no «lado certo da história» à boleia de um tio-avô falsificado? Seja banido da civilização quem tal ouse admitir! Talvez por isso o verdadeiro Quaresma, príncipe caceteiro do bem e da bondade, tenha lesta e diligentemente apagado o tuíte enganoso que inebriou Ferreira Fernandes, fazendo exarar ontem na sua "página oficial" do Facebook um texto de tal elevação literária e tamanho esmero gráfico que auguram para este aríete dos relvados, que aos 36 vai gastando o resto das botas a marcar golos exigentes muito tácticos e técnicos ao serviço de uma agremiação turca de segunda ordem, não direi horizonte de esplendor no areópago das Letras mas, no mínimo, poleiro dourado na academia da Virtude.

De outro e muito brando modo aqui se dá conta do caso.

De resto, quero que André Ventura se foda e desejo que Ferreira Fernandes não precise nunca de disputar com ciganos — RQ é cigano integrado, ciganos são coisa diferente —  a "sua vez" na fila das urgências do Beatriz Ângelo ou do Garcia de Orta, ou na fila de cidadãos socialmente distanciados à entrada de qualquer mercearia de Alfragide. Experimente. E para repor a ordem no Estado de direito democrático convoque o atleta tremebundo
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Daniel Oliveira- Eu acho que ele [Ricardo Quaresma] fez um texto de uma elegância...
Pedro Marques Lopes- ... e bem escrito!
DO- ... e bem escrito. Uma pessoa crente, portanto bastante baseado nisso; o melhor que ser cristão pode ter, o que ali está é o melhor que ser cristão pode ter.
Nada como um apedeuta para convalidar a excelência literária.
E para certificar a ortodoxia da fé, nada como uma criatura que vem desde 02.Jul.1969 caldeando o bestunto ateu nas múltiplas e sucedâneas madrassas do comunismo.
Mas reconheço: o jornalista DO, que leio com assiduidade, escreve benzinho."

De "Plúvio" e aqui.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

p. 235 (notas de leitura)

Onde, pela segunda vez - num livro que chega quase ao fim -, se fala de gente de bem. De gente para quem a decência vem antes de tudo o resto.
Tratando “de tudo com lisura”, Miguel Portas iniciava o jornal-revista (”Já”), lugar em que juntava dois afetos; jornalismo e política. Com o seu antigo patrão (Balsemão) como pequeno acionista, convidou Saraiva, diretor do jornal para onde trabalhava, para “lhe dizer que convidava para o seu projeto uma jornalista do Expresso: ‘Só levo uma pessoa, que para sua estranheza é a Teresa Oliveira’, começou por me dizer. Estranheza porquê? Porque a Teresa Oliveira era vista como uma das pessoas mais conservadoras da redação, e era suposto o novo jornal abordar causas fraturantes…”

É na sequência da evocação deste encontro com Miguel Portas que o autor escreve uma das passagens mais diabolizadas do livro:

“Comentámos a política. Disse-me com um ar perfeitamente natural e sem me pedir segredo que o irmão nunca seria líder do CDS, explicando: ’O Paulo é homossexual e teme que, com a exposição que o cargo lhe daria, isso pudesse vir a público.’ Esta profecia mostrar-se-ia errada em toda a linha: dois anos depois deste almoço, Paulo Portas seria líder do CDS e os jornalistas nunca explorariam as suas inclinações sexuais.”

De facto, assim foi e ainda é. Tanto quanto vejo e posso testemunhar – em todos os lugares, designadamente os mais “rústicos” -, os meus concidadãos até podem ser afetados pela debilidade de fazer comentários acerca da vida íntima alheia – e a dos políticos não é exceção. Mas nunca em algum momento eleitoral ouvi alguém invocar essa vida intima como argumento político. Outro tanto poderá dizer-se acerca dos jornalistas. De onde talvez se possa concluir acerca de alguma superioridade em relação a povos com tradições democráticas mais antigas…
Seja como for, foi a propósito desta passagem que se produziram muitos dos comentários mais assanhados, desqualificando o autor como mentiroso, a pretexto de que conheciam muito bem Miguel Portas e "ele nunca poderia ter dito tal coisa porque adorava o irmão" (esta frase é literalmente citada de Daniel Oliveira)
Acerca desses imbecis não tenho nada a acrescentar ao que aqui escrevi ainda antes de ler o livro.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

o sr. daniel oliveira “acha”

Na sua página do FB e a propósito do Novo Banco, o Sr. Daniel Oliveira sujeitou à apreciação do seu povo a muito defensável ideia de que “[os contribuintes] não podem ser obrigados a assumir qualquer risco por decisões que não tomaram.”

«Porque ao contrário dos privados, os contribuintes nunca ganhariam nada com um investimento que não fizeram. Não podem ser obrigados a assumir qualquer risco por decisões que não tomaram. Não é uma questão de culpa, porque os investidores não tiveram culpa nenhuma. É uma questão de responsabilidade.»

E a certa altura dos améns, um tal Sr. César Serradas lembra-se de perguntar:

“E agora que tal o Daniel Oliveira extrapolar isso para tudo o resto - como por ex. a TAP?”

Ao que o Sr. Daniel Oliveira entendeu responder do seguinte modo:

“Não tenho qualquer problema que o Estado ponha dinheiro em empresas suas. Não compreende que não nos separa a oposição à promiscuidade entre público e privado. A diferença é que eu acho que o Estado deve ter empresas públicas. E mandar nelas. E, quando necessário, pagá-las.”

Ao que o Sr. César Serradas ensarta a seguinte objeção:

“De qualquer das formas essa sua posição agora já é contrária à posição mais pura e ímpia do artigo. Quando o Estado paga por empresas públicas ele obriga todos os cidadãos a contribuírem (à força) para um serviço que não contrataram e onde não alocaram risco.”

Como seria de esperar, o Sr. Daniel não quis saber do afogo. O Sr. Daniel “acha" que o Sr. César Serradas (na figura de contribuinte) deve ser coproprietário de uma companhia de transportes aéreos (a “independência nacional”, o “interesse estratégico” e assim - não interessa, o Sr. Daniel “acha”). Logo, o Sr. César Serradas (na figura de contribuinte) só tem que avançar com o cacau. Seja como for, bem podia o Sr. César esbracejar. O Sr. Daniel (em representação dos senhores que “acham”) já lá não estava. Era o que mais faltava, aturar as impertinências da criadagem. O dinheiro do Sr. César é da cooperativa e não se fala mais nisso.