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terça-feira, 19 de maio de 2020

helicóptero da sic


Com milhares e milhares de pessoas a perderem o seu trabalho ou com os seus rendimentos consideravelmente diminuídos, acabo de ouvir uma senhora jornalista a falar da necessidade de, com o dinheiro dos contribuintes, injetar “umas largas centenas de milhões de euros” na TAP.*
Eu continuo à espera que essa coisa da “empresa estratégica” seja um dia adequadamente explicada pelos sobas da opinião indígena. É que continuo sem perceber como é que a Espanha, a Bélgica, a Holanda, a Itália, Suíça, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, França, Bulgária, Áustria e rigorosamente quase todos os outros países europeus que, para benefício dos seus contribuintes, abdicaram da propriedade de companhias de bandeira conseguem sobreviver sem essa coisa da “estratégica”….
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* A dívida financeira da TAP é de mil milhões de euros.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

do poder dos sindicatos e do camarada doutor (parte I)





















A propósito da greve e dos achamentos do camarada doutor citado  no artigo ilustrado, estava para começar com este título pimpão, tão ao meu gosto. Mas tenho de começar pelo princípio e vai ter que ser com um subtítulo.

de como uma economia pode ficar presa com os tomates a esfregar no alcatrão

De há muito julgo saber que uma economia assente em monopólios de rodovia está inteiramente refém de quem neles trabalha. Uma economia como a nossa, que há 45 anos atrás, a estrear-se nessa coisa das eleições, podia  viajar de comboio. Em comboios limpos, cuidados, pontuais, a circular em rede que se estendia por todo o país. Para pessoas e mercadorias. Sei isso até porque o aprendíamos na escola. Era a CP.
Depois, veio a democracia e as eleições. E como nem todos os que iam a votos podiam ser eleitos, os eleitos pensaram em maneiras de desenrascar os camaradas. Até porque noutro ano qualquer podia calhar-lhes a eles ficarem mais abaixo na lista de elegíveis. E pensaram: 
“-Temos aqui a CP e tu podes ser o doutor-engenheiro-presidente-ou-assim. Arranja-se carro com motorista fardado, como deve ser, cartão de crédito para a tua patroa ir às compras, tudo como se fosses ministro. O que é que achas?”

Foi-se achando bem.
Mas depois veio a filha, o sobrinho e o diabo a quatro que nem a família real saudita.
Como fazer, como fazer?
Conselho de ministros extraordinário: “-Ora bem, as nacionalizações já não chegam para todos, tenho o Manel lá fora aos berros, como é que vamos fazer isto?” 
Foi mais ou menos assim que um camarada qualquer se lembrou que a CP era um “elefante ingovernável”, que de acordo com as mais modernas teorias de gestão “small is beautifull” [foi mesmo assim que ele disse, em estrangeiro, para impressionar] e a CP devia ser desmembrada em várias empresas: uma empresa para os comboios propriamente ditos – que podia continuar a ser a CP-, uma empresa para os carris e catenárias –REFER, ou qualquer coisa assim -, uma empresa para as chaves de parafusos quando alguma coisa se desaperta – EMEF ou qualquer coisa do género-, uma empresa para as bilheteiras, etc. Agastado com a silenciosa entrevação com que o ouviam, disse a certa altura: “-Reparem camaradas ministros, eu posso continuar aqui pela noite dentro a criar empresas… O que é que os senhores acham?” 

Os senhores acharam bem.
O camarada pôs mãos à obra, que nestas coisas começa por ser falar com uns amigos jornalistas do sector, falar-lhes de como o governo se sentia enamorado pelas novas teorias de gestão moderna, pelo Schumacher e assim. Dessa maneira fizeram-se uns artigos nos jornais especializados que sossegaram os não especializados ou especializados em bola e que por sua vez reconciliaram o Manel com a nação.
Faltou depois apaziguar os operários com as gestões partidárias através dos sindicatos dos camaradas que podiam não gostar do partido dos camaradas da governança. E seguiram-se greves dia sim, dia sim na década de 80. Um comboio podia perfeitamente sair da Azambuja para Santa Apolónia com seis horas de atraso e imobilizar-se em Braço de Prata sem qualquer explicação. Com os passageiros a desenrascar-se como podiam. De noite, a pé sobre os carris e até Santa Apolónia. Depois de um dia de trabalho e três ou quatro horas de espera. Eventualmente porque o camarada maquinista entrava em greve ou por avaria; como disse, não se davam explicações. Era a vida. Os passageiros aborreciam-se com essas coisas. Eu sei porque me aconteceu. Muitas vezes.
Tinha um amigo que trabalhava nas vias. Nunca soube exatamente o que fazia, tenho a vaga ideia que tinha a misteriosa tarefa de empurrar  uma rodinha de metal ao longo dos carris. Não sei exatamente para que servia isso porque as suas conversas acerca do trabalho versavam quase sempre a estrutura da sua empresa – que deixara de ser a CP e era agora outra coisa qualquer…. Ficava muitas vezes com a impressão que ele era o único trabalhador da “empresa”. Havia depois “as gajas do escritório” que lhe processavam o vencimento e abonos, o engenheiro “que nem a tabuada sabe”“os cabrões da administração” e o camarada presidente. A trabalhar nos carris como ele, não sabia de mais ninguém. Evidentemente, haverá por aqui algum exagero, o meu amigo era dado a alguns exageros, designadamente naquilo que presumia serem os seus direitos. Mas a caricatura permite-nos adivinhar a pirâmide de pantanas do organograma da “sua empresa”.

Entretanto, com o tempo e como já lembrei, o Manel perdeu completamente a cabeça e vendeu a peso os carris a um sucateiro amigo. E o meu amigo, da minha idade, já está reformado há muitos anos. O que remanesce da CP é o que está à vista: um passageiro melancólico aqui, uma saca de cimento ali. E é a vida.

(continua)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

o sr. daniel oliveira “acha”

Na sua página do FB e a propósito do Novo Banco, o Sr. Daniel Oliveira sujeitou à apreciação do seu povo a muito defensável ideia de que “[os contribuintes] não podem ser obrigados a assumir qualquer risco por decisões que não tomaram.”

«Porque ao contrário dos privados, os contribuintes nunca ganhariam nada com um investimento que não fizeram. Não podem ser obrigados a assumir qualquer risco por decisões que não tomaram. Não é uma questão de culpa, porque os investidores não tiveram culpa nenhuma. É uma questão de responsabilidade.»

E a certa altura dos améns, um tal Sr. César Serradas lembra-se de perguntar:

“E agora que tal o Daniel Oliveira extrapolar isso para tudo o resto - como por ex. a TAP?”

Ao que o Sr. Daniel Oliveira entendeu responder do seguinte modo:

“Não tenho qualquer problema que o Estado ponha dinheiro em empresas suas. Não compreende que não nos separa a oposição à promiscuidade entre público e privado. A diferença é que eu acho que o Estado deve ter empresas públicas. E mandar nelas. E, quando necessário, pagá-las.”

Ao que o Sr. César Serradas ensarta a seguinte objeção:

“De qualquer das formas essa sua posição agora já é contrária à posição mais pura e ímpia do artigo. Quando o Estado paga por empresas públicas ele obriga todos os cidadãos a contribuírem (à força) para um serviço que não contrataram e onde não alocaram risco.”

Como seria de esperar, o Sr. Daniel não quis saber do afogo. O Sr. Daniel “acha" que o Sr. César Serradas (na figura de contribuinte) deve ser coproprietário de uma companhia de transportes aéreos (a “independência nacional”, o “interesse estratégico” e assim - não interessa, o Sr. Daniel “acha”). Logo, o Sr. César Serradas (na figura de contribuinte) só tem que avançar com o cacau. Seja como for, bem podia o Sr. César esbracejar. O Sr. Daniel (em representação dos senhores que “acham”) já lá não estava. Era o que mais faltava, aturar as impertinências da criadagem. O dinheiro do Sr. César é da cooperativa e não se fala mais nisso.