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sábado, 19 de abril de 2025

títulos de um gajo ficar a modos que

Neste caso particular, “ficar a modos que” decorre desta estranha maneira de anunciar que é sexta feira santa. Com efeito, nos últimos 50 ANOS não me recordo de uma única vez em que nesta data do calendário religioso o sindicato dos trabalhadores da função pública (FNSTFPS…) não tenha convocado uma greve que deixa os turistas “desapontados”. Ou seja, dar notícia desta greve é dizer que chegou o coelhinho dos turistas desapontados.
Se isto não é um obvio exemplo de abuso do direito à greve, não sei o que será isso. Enfim, o recente episódio em que o sindicato dos maquinistas (…) decretou mais uma das suas inúmeras greves porque se sentiram ofendidos com o anúncio de que passariam a fazer testes anti álcool também é um obvio candidato à categoria dos abusos. Coisas que parecem não merecer reflexão ou diligencias de quem quer que seja. Uma normalidade que já era tempo de deixar de ser notícia.



quarta-feira, 26 de abril de 2023

ouvi agora de raspão...

... o senhor de um dos sindicatos dos trabalhadores da TAP a afirmar que a esta empresa pública foi sempre um "joguete político". Tem-se visto e dificilmente haverá alguém que o não desconfiasse, pelo menos.

Mas porque é que o senhor do sindicato, todos os sindicatos dos trabalhadores nunca denunciaram a verdadeira natureza desses "joguetes"? Porque a todos convinha. Excepto aos contribuintes que levavam e levam com a marretada dos desmandos. Os políticos por lá enfiavam a família em prebendas e negócios. Aos sindicatos porque vendiam o silêncio em relação ao que eufemisticamente designam por "joguetes". "Joguetes" de que sempre foram cúmplices. Ao ponto de nem agora serem capazes de dar nome aos bois.

sábado, 1 de agosto de 2020

um comboio da cp teve um acidente com uma máquina da ip


Morreram pessoas.
Lembrei-me do que escrevi acerca da cp a pretexto de uma entrevista de um camarada doutor e a greve dos camionistas:
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De há muito julgo saber que uma economia assente em monopólios de rodovia está inteiramente refém de quem neles trabalha. Uma economia como a nossa, que há 45 anos atrás, a estrear-se nessa coisa das eleições, podia  viajar de comboio. Em comboios limpos, cuidados, pontuais, a circular em rede que se estendia por todo o país. Para pessoas e mercadorias. Sei isso até porque o aprendíamos na escola. Era a CP.
Depois, veio a democracia e as eleições. E como nem todos os que iam a votos podiam ser eleitos, os eleitos pensaram em maneiras de desenrascar os camaradas. Até porque noutro ano qualquer podia calhar-lhes a eles ficarem mais abaixo na lista de elegíveis. E pensaram: 
“-Temos aqui a CP e tu podes ser o doutor-engenheiro-presidente-ou-assim. Arranja-se carro com motorista fardado, como deve ser, cartão de crédito para a tua patroa ir às compras, tudo como se fosses ministro. O que é que achas?”

Foi-se achando bem.
Mas depois veio a filha, o sobrinho e o diabo a quatro que nem a família real saudita.
Como fazer, como fazer?
Conselho de ministros extraordinário: “-Ora bem, as nacionalizações já não chegam para todos, tenho o Manel lá fora aos berros, como é que vamos fazer isto?” 
Foi mais ou menos assim que um camarada qualquer se lembrou que a CP era um “elefante ingovernável”, que de acordo com as mais modernas teorias de gestão “small is beautifull” [foi mesmo assim que ele disse, em estrangeiro, para impressionar] e a CP devia ser desmembrada em várias empresas: uma empresa para os comboios propriamente ditos – que podia continuar a ser a CP-, uma empresa para os carris e catenárias –REFER, ou qualquer coisa assim -, uma empresa para as chaves de parafusos quando alguma coisa se desaperta – EMEF ou qualquer coisa do género-, uma empresa para as bilheteiras, etc. Agastado com a silenciosa entrevação com que o ouviam, disse a certa altura: “-Reparem camaradas ministros, eu posso continuar aqui pela noite dentro a criar empresas… O que é que os senhores acham?” 
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Há por aqui algumas gralhas, como já devem ter reparado: a "empresa" que trata da manutenção das vias chama-se ou passou a chamar-se ip...
Mas o texto tinha três partes e agora que esta gente se prepara para torrar gigantescas quantias de dinheiro em hidrogénios afins aqui deixo a continuação do texto:
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Tínhamos ficado naquela parte em que os comboios da CP iam fazendo
pouca terra num oceano de empresas públicas geridas pelo Manel e camaradas. E como comecei com subtítulos, vou continuar com eles.

um passageiro melancólico aqui, uma saca de cimento ali

Ao mesmo tipo de assalto a que a CP foi sujeita, foram sujeitas mais ou menos todas as outras grandes empresas de transporte de mercadorias e passageiros. Quando eram insuficientes para albergarem todos os camaradas do Manel que se reproduziam como coelhos, nacionalizavam-se as que fossem necessárias a tal efeito. Na expectativa de vida mais tranquila e gorda, no acoito do patrão incorpóreo que é o estado, os camaradas operários eram facilmente encorajados a exigir as nacionalizações em nome do socialismo. Não é só de agora que há senhores a acharem coisas que fazem o clima de opinião adequado à abarrotada vida do Manel.
Com o tempo, as massas foram-se livrando dos constrangimentos associados ao uso de comboios que se esvaíam de movimento em braços de prata.* Como iam podendo, fora das grandes urbes, as massas atomizaram-se no transporte privado e ao volante dos seus toyotas. Nas zonas urbanas, como se vem vendo, a gestão das falências das empresas públicas vem correndo ao sabor dos calendários eleitorais. E outro tanto sucede ao ilusório poder da rua, que se tornou quase monopólio dos camaradas trabalhadores do sector público. Desumanamente desvalorizados pela lei da oferta e da procura, os “trabalhadores em luta” faziam manifestações que eram um equivalente bastante exato das procissões religiosas; com o calendário eleitoral a substituir o religioso, com os seus clérigos à cabeça na pessoa de dirigentes sindicais, com as alfaias na forma de apitos, bandeiras, boinas à Guevara e muita solenidade nos punhos cerrados. Com o fim do trabalho como o bem escasso que havia sido até ao fim dos anos sessenta e primeira metade dos anos setenta, com o fim da emigração em massa para França, Alemanha e Luxemburgo, com a progressiva mecanização de empresas e serviços, os “trabalhadores em luta” e as organizações sindicais que agiam em seu nome tornaram-se fenómenos quase folclóricos, olhados com reserva, senão mesmo com aberta hostilidade por parte dos eventuais atormentados pela “luta”.

Extraordinariamente, é neste cenário pós-sindical que o camarada doutor Manuel Carvalho da Silva diz agora, a propósito da mais recente greve dos camionistas, que as greves “ocorrem ciclicamente […]mas agora a novidade é a mediatização do protesto e o contexto político”.  O camarada doutor acha portanto que as outras greves que “ocorrem ciclicamente” não são mediatizadas e acontecem fora de um contexto político. Nada como ir a doutor-sociólogo para nos tornarmos sofisticados nos argumentos. Ainda assim concede que “[é] natural que trabalhadores tentem resolver os seus problemas desta forma, através da greve.” Mas -e aqui vem ele, o “mas”- “…quando o problema se desloca para a política partidária, esquece-se o problema inicial entre os trabalhadores e os patrões.” Com isto, o ex-secretário-geral da CGTP estava “…referindo o aproveitamento dos partidos de direita deste conflito laboral”, esclarecem-nos os incisivos jornalistas da empresa pública Lusa, autores do artigo do Público que não é público e era do senhor Belmiro que se despediu de nós todos sem que alguma vez fosse vítima da ignomínia de ser tratado de “merceeiro”, como abundantemente acontece com o seu colega Soares dos Santos, da Fundação.
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*- Não sou assim tão dado à poesia quanto esta frase possa fazer supor: a certa altura dos anos oitenta vivia na Parede e trabalhava em Azambuja. Deslocava-me em duas linhas da CP e num autocarro da Carris. Num desses dias que não esqueço, depois de esperar na estação de Azambuja ao longo de seis horas o regresso a casa, o comboio em que seguia –em consequência de mais um turno de greve dos “maquinistas” da CP-, às quatro da manhã, depois de um dia de trabalho,  imobilizou-se em Braço de Prata. Sem qualquer aviso ou informação. Depois de coisa de meia hora ou mais, os passageiros começaram a desconfiar que por ali podiam pernoitar… De modos que se lançaram à linha a caminhar até Santa Apolónia. Percebem agora vossas senhorias que não há por aqui qualquer liberdade poética na frase?
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obs: Os textos aqui reproduzidos, no original, através de vários links, remetem para várias páginas que os complementam. 




sexta-feira, 9 de agosto de 2019

governo, oposição e camaradas unidos

A propósito da greve que agora se repete, a 19 de abril de 2019  escrevi:

“Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos. Temos perfeita noção disso”, afirmaram os dirigentes do novo Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas. E como desde o primeiro dia suspeitei, se parassem durante cinco, seis dias, derrubavam o governo. Porque seria inevitável que até os perspicazes jornalistas da Lusa começassem a perguntar-se se não havia serviços de informação, se não havia gabinetes capazes de antecipar planos para situações de crise, se a governança acontecia assim mesmo, indolente, ao sabor da espuma dos dias, sem estratégias que se vissem, sem planos, reativa, desinformada, improvisando, diletante, enfim, assustadora e perigosamente incompetente.
...

Provando que nunca tinha chegado a ser ator político - ao contrário do camarada doutor que nunca foi outra coisa -, o sindicato aceitou pôr termo à greve, subscrevendo a proposta de negociar um acordo ao longo de oito meses.
Na sua boa-fé não percebeu que nunca mais poderá voltar a dizer: “Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos.” 
Quando o tiver percebido já o governo teve tempo para fazer o que devia ter feito.

A "oposição" é que já não vai a tempo de fazer o que não fez.
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Pois bem. Entretanto o  governo teve efetivamente todo o tempo do mundo para fazer o que devia ter feito. Sempre a surpreender-me na sua prodigiosa desnecessidade, o governo não apenas fez coisa nenhuma como, na conferência de imprensa cometida por três dos membros da quadrilha, começa por dizer e sublinhar que até nem tem nada a ver com o assunto “porque se trata de uma negociação entre privados”.
Mas enfim, magnânimos, condescenderam em informar os senhores jornalistas de que tinham feito uns planos que asseguravam o abastecimento de ambulâncias, carros de bombeiros e funerários.
Ao que ouvi em noticiário, o povo acha que o governo “está a trabalhar bem”. A oposição também.
Os camaradas do camarada doutor, na sua habitual e supimpa lata, informaram a nação de que a greve dos motoristas “…é impulsionada por exercícios de protagonismo e por obscuros objectivos políticos e procura atingir mais a população que o patronato .”





sexta-feira, 19 de abril de 2019

do poder dos sindicatos e do camarada doutor (parte III)

Parece-me que para retomar o fio à meada, iria bem com um terceiro subtítulo.

onde o camarada doutor acusa um sindicato de ser correia de transmissão da  direita

Voltando a citar o artigo, o camarada doutor declarou que a greve alcançou “um forte impacto na sociedade, porque o papel das organizações sindicais tradicionais tem sido descredibilizado. ‘Quando se tenta enfraquecer as organizações representativas dos trabalhadores, a bomba acaba por rebentar de alguma forma’, afirmou o antigo sindicalista.”

Curiosamente, esta citação das palavras do camarada doutor  remete em link para um artigo de Clara Viana onde se pode ler logo após o título que “[a] agenda ideológica está a ser posta de lado em benefício de reivindicações concretas.” Precisamente o contrário do que o camarada doutor afirma. E continua mais à frente: “São greves que têm na base motivos ‘menos ideológicos do que laborais, já que não visam atacar o governo ou as instituições mas antes a melhoria das condições de trabalho dos profissionais em causa’, contrariando assim a ‘agenda ideológica clara’ que tem estado sempre subjacente às estruturas sindicais que estão no terreno há décadas, prossegue [Filipe Carreira da Silva] investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.”
Com efeito, em tudo o que me foi dado a ver desta greve, nada havia que permitisse suspeitar de qualquer agenda ideológica, fosse ela mais clara ou subterrânea. Não havia apitos, não havia bandeiras, não havia as solidariedades partidárias habituais, nada. Ouve até um manifestante que chamou a atenção para isso. Perguntava a um jornalista: “-Onde é que estão esses partidos que estão sempre ao lado dos trabalhadores? O PCP, o Bloco?” Nada, realmente. A única coisa de potencialmente icónica, quase de certeza em resultado de imposição das forças policiais, eram os coletes amarelos…

“Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos. Temos perfeita noção disso”, afirmaram os dirigentes do novo Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas. E como desde o primeiro dia suspeitei, se parassem durante cinco, seis dias, derrubavam o governo. Porque seria inevitável que até os perspicazes jornalistas da Lusa começassem a perguntar-se se não havia serviços de informação, se não havia gabinetes capazes de antecipar planos para situações de crise, se a governança acontecia assim mesmo, indolente, ao sabor da espuma dos dias, sem estratégias que se vissem, sem planos, reativa, desinformada, improvisando, diletante, enfim, assustadora e perigosamente incompetente.
Sem aparente consciência do a propósito desta indolência governativa, o camarada doutor admite que “[o]s trabalhadores têm razão para protestar porque sempre receberam grande parte da remuneração de forma ilegal, sem que houvesse qualquer intervenção do Estado.” Esqueceu-se o camarada doutor que nesta omissão de exercício de deveres, o governo do seu afeto ficou muito bem acompanhado pela sua CGTP e pelas associações patronais. Que entre si cozinharam o contrato de trabalho coletivo em causa e que para esse efeito convidaram a Associação Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas a abandonar a sala em que o faziam. Porque não era um sindicato.
Voltando a citar o artigo “assinado” pela Lusa, “[p]ara o investigador e professor universitário [Elísio Estanque], a greve dos motoristas de matérias perigosas também teve um impacto social tão elevado porque ‘alguma comunicação social’ divulgou as notícias ‘num círculo vicioso, com reportagens permanentes, o que tem um efeito de bola de neve’. Elísio Estanque considera que esta greve surpreendeu o Governo e as pessoas pelo ‘grande impacto’ que teve.” A já aduzida “surpresa do governo” é mais vulgarmente descrita com um “ser apanhado com as calças na mão”, com incompetência. Como vários analistas notaram, houve um pré-aviso de greve. E o governo não só não fez nada, como manifestamente, não sabia o que fazer porque não tinha antecipado fazer o quer que fosse. Ficou perfeitamente claro que o governo estava completamente desinformado em relação à magnitude das consequências de uma greve em sector tão sensível.
Mas enfim, o governo volta a estar muito bem acompanhado nesta lerda perceção dos factos: os “investigadores” acham que a greve teve impacto porque “alguma comunicação social” divulgou as notícias “com reportagens permanentes”.

A greve acabou. Governo, associações patronais (que afirmavam não negociar enquanto houvesse greve, o que me levou a especular sobre a hipótese da queda do governo) e o “sindicato” acordaram discutir e negociar as reivindicações deste último. Que basicamente consistem em sujeitar a tributação aquilo que nas palavras do camarada doutor é a “grande parte da remuneração” que recebiam pela porta do cavalo, “… de forma ilegal, sem que houvesse qualquer intervenção do Estado.”

No estrebuchar da era dos sindicatos, por algumas horas, o SNMMP teve o país em sua graça. Prejudicando direta ou indiretamente todos, em nenhuma das “reportagens permanentes” ouvi alguém a expressar incompreensão ou hostilidade para com as reivindicações dos camionistas. Até já me imaginava a fazer a trasfega do combustível do corta-relva para o depósito da mota. 

Provando que nunca tinha chegado a ser ator político - ao contrário do camarada doutor que nunca foi outra coisa -, o sindicato aceitou pôr termo à greve, subscrevendo a proposta de negociar um acordo ao longo de oito meses.
Na sua boa-fé não percebeu que nunca mais poderá voltar a dizer: “Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos.” 
Quando o tiver percebido já o governo teve tempo para fazer o que devia ter feito.

A "oposição" é que já não vai a tempo de fazer o que não fez.

do poder dos sindicatos e do camarada doutor (parte II)




















(foto: Nuno Ferreira Santos)

Tínhamos ficado naquela parte em que os comboios da CP iam fazendo
pouca terra num oceano de empresas públicas geridas pelo Manel e camaradas. E como comecei com subtítulos, vou continuar com eles.

 um passageiro melancólico aqui, uma saca de cimento ali

Ao mesmo tipo de assalto a que a CP foi sujeita, foram sujeitas mais ou menos todas as outras grandes empresas de transporte de mercadorias e passageiros. Quando eram insuficientes para albergarem todos os camaradas do Manel que se reproduziam como coelhos, nacionalizavam-se as que fossem necessárias a tal efeito. Na expectativa de vida mais tranquila e gorda, no acoito do patrão incorpóreo que é o estado, os camaradas operários eram facilmente encorajados a exigir as nacionalizações em nome do socialismo. Não é só de agora que há senhores a acharem coisas que fazem o clima de opinião adequado à abarrotada vida do Manel.
Com o tempo, as massas foram-se livrando dos constrangimentos associados ao uso de comboios que se esvaíam de movimento em braços de prata. Como iam podendo, fora das grandes urbes, as massas atomizaram-se no transporte privado e ao volante dos seus toyotas. Nas zonas urbanas, como se vem vendo, a gestão das falências das empresas públicas vem correndo ao sabor dos calendários eleitorais. E outro tanto sucede ao ilusório poder da rua, que se tornou quase monopólio dos camaradas trabalhadores do sector público. Desumanamente desvalorizados pela lei da oferta e da procura, os “trabalhadores em luta” faziam manifestações que eram um equivalente bastante exato das procissões religiosas; com o calendário eleitoral a substituir o religioso, com os seus clérigos à cabeça na pessoa de dirigentes sindicais, com as alfaias na forma de apitos, bandeiras, boinas à Guevara e muita solenidade nos punhos cerrados. Com o fim do trabalho como o bem escasso que havia sido até ao fim dos anos sessenta e primeira metade dos anos setenta, com o fim da emigração em massa para França, Alemanha e Luxemburgo, com a progressiva mecanização de empresas e serviços, os “trabalhadores em luta” e as organizações sindicais que agiam em seu nome tornaram-se fenómenos quase folclóricos, olhados com reserva, senão mesmo com aberta hostilidade por parte dos eventuais atormentados pela “luta”.

Extraordinariamente, é neste cenário pós-sindical que o camarada doutor Manuel Carvalho da Silva diz agora, a propósito da mais recente greve dos camionistas, que as greves “ocorrem ciclicamente […]mas agora a novidade é a mediatização do protesto e o contexto político”.  O camarada doutor acha portanto que as outras greves que “ocorrem ciclicamente” não são mediatizadas e acontecem fora de um contexto político. Nada como ir a doutor-sociólogo para nos tornarmos sofisticados nos argumentos. Ainda assim concede que “[é] natural que trabalhadores tentem resolver os seus problemas desta forma, através da greve.” Mas -e aqui vem ele, o “mas”- “…quando o problema se desloca para a política partidária, esquece-se o problema inicial entre os trabalhadores e os patrões.” Com isto, o ex-secretário-geral da CGTP estava“…referindo o aproveitamento dos partidos de direita deste conflito laboral”, esclarecem-nos os incisivos jornalistas da empresa pública Lusa, autores do artigo do Público que não é público e era do senhor Belmiro que se despediu de nós todos sem que alguma vez fosse vítima da ignomínia de ser tratado de “merceeiro”, como abundantemente acontece com o seu colega Soares dos Santos, da Fundação.

(continua)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

do poder dos sindicatos e do camarada doutor (parte I)





















A propósito da greve e dos achamentos do camarada doutor citado  no artigo ilustrado, estava para começar com este título pimpão, tão ao meu gosto. Mas tenho de começar pelo princípio e vai ter que ser com um subtítulo.

de como uma economia pode ficar presa com os tomates a esfregar no alcatrão

De há muito julgo saber que uma economia assente em monopólios de rodovia está inteiramente refém de quem neles trabalha. Uma economia como a nossa, que há 45 anos atrás, a estrear-se nessa coisa das eleições, podia  viajar de comboio. Em comboios limpos, cuidados, pontuais, a circular em rede que se estendia por todo o país. Para pessoas e mercadorias. Sei isso até porque o aprendíamos na escola. Era a CP.
Depois, veio a democracia e as eleições. E como nem todos os que iam a votos podiam ser eleitos, os eleitos pensaram em maneiras de desenrascar os camaradas. Até porque noutro ano qualquer podia calhar-lhes a eles ficarem mais abaixo na lista de elegíveis. E pensaram: 
“-Temos aqui a CP e tu podes ser o doutor-engenheiro-presidente-ou-assim. Arranja-se carro com motorista fardado, como deve ser, cartão de crédito para a tua patroa ir às compras, tudo como se fosses ministro. O que é que achas?”

Foi-se achando bem.
Mas depois veio a filha, o sobrinho e o diabo a quatro que nem a família real saudita.
Como fazer, como fazer?
Conselho de ministros extraordinário: “-Ora bem, as nacionalizações já não chegam para todos, tenho o Manel lá fora aos berros, como é que vamos fazer isto?” 
Foi mais ou menos assim que um camarada qualquer se lembrou que a CP era um “elefante ingovernável”, que de acordo com as mais modernas teorias de gestão “small is beautifull” [foi mesmo assim que ele disse, em estrangeiro, para impressionar] e a CP devia ser desmembrada em várias empresas: uma empresa para os comboios propriamente ditos – que podia continuar a ser a CP-, uma empresa para os carris e catenárias –REFER, ou qualquer coisa assim -, uma empresa para as chaves de parafusos quando alguma coisa se desaperta – EMEF ou qualquer coisa do género-, uma empresa para as bilheteiras, etc. Agastado com a silenciosa entrevação com que o ouviam, disse a certa altura: “-Reparem camaradas ministros, eu posso continuar aqui pela noite dentro a criar empresas… O que é que os senhores acham?” 

Os senhores acharam bem.
O camarada pôs mãos à obra, que nestas coisas começa por ser falar com uns amigos jornalistas do sector, falar-lhes de como o governo se sentia enamorado pelas novas teorias de gestão moderna, pelo Schumacher e assim. Dessa maneira fizeram-se uns artigos nos jornais especializados que sossegaram os não especializados ou especializados em bola e que por sua vez reconciliaram o Manel com a nação.
Faltou depois apaziguar os operários com as gestões partidárias através dos sindicatos dos camaradas que podiam não gostar do partido dos camaradas da governança. E seguiram-se greves dia sim, dia sim na década de 80. Um comboio podia perfeitamente sair da Azambuja para Santa Apolónia com seis horas de atraso e imobilizar-se em Braço de Prata sem qualquer explicação. Com os passageiros a desenrascar-se como podiam. De noite, a pé sobre os carris e até Santa Apolónia. Depois de um dia de trabalho e três ou quatro horas de espera. Eventualmente porque o camarada maquinista entrava em greve ou por avaria; como disse, não se davam explicações. Era a vida. Os passageiros aborreciam-se com essas coisas. Eu sei porque me aconteceu. Muitas vezes.
Tinha um amigo que trabalhava nas vias. Nunca soube exatamente o que fazia, tenho a vaga ideia que tinha a misteriosa tarefa de empurrar  uma rodinha de metal ao longo dos carris. Não sei exatamente para que servia isso porque as suas conversas acerca do trabalho versavam quase sempre a estrutura da sua empresa – que deixara de ser a CP e era agora outra coisa qualquer…. Ficava muitas vezes com a impressão que ele era o único trabalhador da “empresa”. Havia depois “as gajas do escritório” que lhe processavam o vencimento e abonos, o engenheiro “que nem a tabuada sabe”,  “os cabrões da administração” e o camarada presidente. A trabalhar nos carris como ele, não sabia de mais ninguém. Evidentemente, haverá por aqui algum exagero, o meu amigo era dado a alguns exageros, designadamente naquilo que presumia serem os seus direitos. Mas a caricatura permite-nos adivinhar a pirâmide de pantanas do organograma da “sua empresa”.

Entretanto, com o tempo e como já lembrei, o Manel perdeu completamente a cabeça e vendeu a peso os carris a um sucateiro amigo. E o meu amigo, da minha idade, já está reformado há muitos anos. O que remanesce da CP é o que está à vista: um passageiro melancólico aqui, uma saca de cimento ali. E é a vida.

(continua)

quarta-feira, 17 de abril de 2019

de como a geringonça é muito bem capaz de se estraçalhar naquilo de que se julgava dona e senhora

Não será já amanhã. Mas cheira-me que um grupo de motoristas de pesados se descobriu dono de um poder negocial que nem para estivadores ainda é o que já foi: o poder de paralisar completamente o país.
Percebeu, por exemplo, que alguns membros da família, designados para administrarem os transportes por caminho-de-ferro, recrearam-se a vender os carris a um sucateiro contra o pagamento simbólico de umas caixas de robalos (“Pimenta no cú dos outros é refresco”, era a ilustre divisa do rapazola…). Percebeu que excluídas as zonas de residência da família, por todo o resto do país os autocarros caem aos pedaços, têm a eficiência dos transportes públicos da República da Moldávia, são escassos e quando os há são caros, muito mais caros e inviáveis que o transporte particular. Percebeu que fora das zonas de residência da família, sem gás que venha em garrafa, a vida é pouco prática na hora de cozinhar ou tomar banho. Percebeu que os carros a pilhas são caros e só a família e pessoas muito “à frente” os podem comprar. Percebeu, enfim, um ror de coisas que não são muito complicadas de perceber.
Mas a mais fina certeza de que se compreendeu em poder- com patrões e família trazidos à aborrecida adversidade de terem de ouvir trabalhadores a quem, faz poucos dias, condescenderam pagar 630 € mensais e meia dúzia de missangas em contrato coletivo -, é o facto de estarem em greve porque exigem ser pagos nem mais nem menos que pelo dobro desse valor.
Ora, tudo isto leva-me a suspeitar que a esquerda, em tempos dona e senhora da rua, aburguesou-se entretanto. E nesse processo deu de se achar dona da rua e… do poder. Esta cómica suspeita assenta nalguns acontecimentos patuscos:
Em setembro do ano passado, o contrato de trabalho coletivo agora em causa foi assinado entre patrões e uma federação de sindicatos dos transportes e comunicações afeta à CGTP. Isto apesar de por alturas da assinatura desse contrato coletivo já existir um sindicato específico dos motoristas de matérias perigosas.
Os primos que fazem de ministros do trabalho, ambiente e mais-não-sei-quê (uma cena que a família inventou para mamar a valer no imposto sobre o gasóleo) decidem estabelecer um conjunto de serviços mínimos: hospitais, bombeiros (uma boa meia dúzia de coisas pacíficas…),  e postos de abastecimento nas zonas urbanas em que a família se serve.
Na terça, a família reunida em conselho extraordinário decretou a “requisição civil” a pretexto de que os serviços mínimos não foram cumpridos (o sindicato afirma que os motoristas prestaram serviços de transporte a hospitais, lares e instituições semelhantes. Aparentemente ficaram de providenciar transporte de combustíveis para as áreas de residência da família, coisa que os motoristas imaginam ser um pouco exagerado considerar “serviço mínimo”…).
Portanto, fica mais ou menos provado que esta gente do tal sindicato independente tem mau feitio e não é açaimável pelo comité do camarada Jerónimo, à boa maneira socialista.
Reparar a traquitana nestes desapertos, sobretudo agora que precisava embalar para as europeias, parece-me que só por expediente legislativo, alargando o número dos encartados habilitados para o transporte de matérias perigosas. Por exemplo, eu que estou legalmente habilitado a montar uma hayabusa, passava a poder conduzir também um camião cisterna com ácido sulfúrico. É certo que uma hayabusa só tem duas rodas, mas também não deixa de ser muito perigosa.
O único problema é que com estas coisas da CEE, os gajos lá na Europa se calhar não deixam.