Parece-me que para retomar o fio à meada, iria bem com um terceiro subtítulo.
onde o camarada doutor acusa um sindicato de ser correia de transmissão da direita
Voltando a citar o artigo, o camarada doutor declarou que a greve alcançou “um forte impacto na sociedade, porque o papel das organizações sindicais tradicionais tem sido descredibilizado. ‘Quando se tenta enfraquecer as organizações representativas dos trabalhadores, a bomba acaba por rebentar de alguma forma’, afirmou o antigo sindicalista.”
Curiosamente, esta citação das palavras do camarada doutor remete em link para um artigo de Clara Viana onde se pode ler logo após o título que “[a] agenda ideológica está a ser posta de lado em benefício de reivindicações concretas.” Precisamente o contrário do que o camarada doutor afirma. E continua mais à frente: “São greves que têm na base motivos ‘menos ideológicos do que laborais, já que não visam atacar o governo ou as instituições mas antes a melhoria das condições de trabalho dos profissionais em causa’, contrariando assim a ‘agenda ideológica clara’ que tem estado sempre subjacente às estruturas sindicais que estão no terreno há décadas, prossegue [Filipe Carreira da Silva] investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.”
Com efeito, em tudo o que me foi dado a ver desta greve, nada havia que permitisse suspeitar de qualquer agenda ideológica, fosse ela mais clara ou subterrânea. Não havia apitos, não havia bandeiras, não havia as solidariedades partidárias habituais, nada. Ouve até um manifestante que chamou a atenção para isso. Perguntava a um jornalista: “-Onde é que estão esses partidos que estão sempre ao lado dos trabalhadores? O PCP, o Bloco?” Nada, realmente. A única coisa de potencialmente icónica, quase de certeza em resultado de imposição das forças policiais, eram os coletes amarelos…
“Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos. Temos perfeita noção disso”, afirmaram os dirigentes do novo Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas. E como desde o primeiro dia suspeitei, se parassem durante cinco, seis dias, derrubavam o governo. Porque seria inevitável que até os perspicazes jornalistas da Lusa começassem a perguntar-se se não havia serviços de informação, se não havia gabinetes capazes de antecipar planos para situações de crise, se a governança acontecia assim mesmo, indolente, ao sabor da espuma dos dias, sem estratégias que se vissem, sem planos, reativa, desinformada, improvisando, diletante, enfim, assustadora e perigosamente incompetente.
Sem aparente consciência do a propósito desta indolência governativa, o camarada doutor admite que “[o]s trabalhadores têm razão para protestar porque sempre receberam grande parte da remuneração de forma ilegal, sem que houvesse qualquer intervenção do Estado.” Esqueceu-se o camarada doutor que nesta omissão de exercício de deveres, o governo do seu afeto ficou muito bem acompanhado pela sua CGTP e pelas associações patronais. Que entre si cozinharam o contrato de trabalho coletivo em causa e que para esse efeito convidaram a Associação Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas a abandonar a sala em que o faziam. Porque não era um sindicato.
Voltando a citar o artigo “assinado” pela Lusa, “[p]ara o investigador e professor universitário [Elísio Estanque], a greve dos motoristas de matérias perigosas também teve um impacto social tão elevado porque ‘alguma comunicação social’ divulgou as notícias ‘num círculo vicioso, com reportagens permanentes, o que tem um efeito de bola de neve’. Elísio Estanque considera que esta greve surpreendeu o Governo e as pessoas pelo ‘grande impacto’ que teve.” A já aduzida “surpresa do governo” é mais vulgarmente descrita com um “ser apanhado com as calças na mão”, com incompetência. Como vários analistas notaram, houve um pré-aviso de greve. E o governo não só não fez nada, como manifestamente, não sabia o que fazer porque não tinha antecipado fazer o quer que fosse. Ficou perfeitamente claro que o governo estava completamente desinformado em relação à magnitude das consequências de uma greve em sector tão sensível.
Mas enfim, o governo volta a estar muito bem acompanhado nesta lerda perceção dos factos: os “investigadores” acham que a greve teve impacto porque “alguma comunicação social” divulgou as notícias “com reportagens permanentes”.
A greve acabou. Governo, associações patronais (que afirmavam não negociar enquanto houvesse greve, o que me levou a especular sobre a hipótese da queda do governo) e o “sindicato” acordaram discutir e negociar as reivindicações deste último. Que basicamente consistem em sujeitar a tributação aquilo que nas palavras do camarada doutor é a “grande parte da remuneração” que recebiam pela porta do cavalo, “… de forma ilegal, sem que houvesse qualquer intervenção do Estado.”
No estrebuchar da era dos sindicatos, por algumas horas, o SNMMP teve o país em sua graça. Prejudicando direta ou indiretamente todos, em nenhuma das “reportagens permanentes” ouvi alguém a expressar incompreensão ou hostilidade para com as reivindicações dos camionistas. Até já me imaginava a fazer a trasfega do combustível do corta-relva para o depósito da mota.
Provando que nunca tinha chegado a ser ator político - ao contrário do camarada doutor que nunca foi outra coisa -, o sindicato aceitou pôr termo à greve, subscrevendo a proposta de negociar um acordo ao longo de oito meses.
Na sua boa-fé não percebeu que nunca mais poderá voltar a dizer: “Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos.”
Quando o tiver percebido já o governo teve tempo para fazer o que devia ter feito.
A "oposição" é que já não vai a tempo de fazer o que não fez.
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