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[V]ale talvez a pena lembrar quem é Riccardo Marchi. Não, não é um activista político, nem tem da academia a ideia de que deva ser activismo político, como muitos dos que se manifestaram contra ele. É um professor de Ciência Política com um CV dificilmente mais respeitável: bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, etc. Coordenou obras colectivas em que colaboraram professores de várias universidades e perspectivas. O seu tema de estudo? A “direita radical” em Portugal, antes e depois do 25 de Abril. Há quem, com o mesmo direito que Marchi, estude a “esquerda radical” e o Partido Comunista. Nunca vi manifestos contra isso, nem nunca vi ninguém preocupado em que o “estudo universitário” pudesse “branquear” ou “higienizar” o comunismo e a extrema-esquerda.
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Ah, mas não, ninguém quer proibir o livro. Pois não, é pior: querem proibir o autor. O objectivo do manifesto – porque senão, para quê mandar um abaixo-assinado para os jornais? – é tornar Marchi um “autor maldito”, fechar-lhe as portas, sujeitá-lo aos rigores da nova cultura de “cancelamento” e “desconvite” – em linguagem chã, “lixá-lo”. Porquê? Porque ele se atreveu a estudar em vez de se limitar a ter as opiniões da extrema-esquerda universitária. E porque é preciso dar exemplos para inibir quem por acaso pense em sair do rebanho para investigar o que não deve ou concluir o que não lhe é permitido. Sim, este é um abaixo assinado contra a liberdade de pensar que é a razão de ser de uma verdadeira universidade.”
Rui Ramos, aqui.
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No processo de apropriação por parte das nomenclaturas partidárias de todos os espaços e meios de que possam fazer uso para um modo de vida tranquilo e sem sobressaltos fala-se sempre dos partidos “do arco do poder”. Nunca se fala que outro tanto acontece em espaços aparentemente menos vistosos e apetecíveis – frequentemente, com auras de respeitabilidade – como as universidades, institutos, museus, etc.
Veja-se o corpo docente de qualquer universidade ou politécnico e facilmente se verificará que muitos deles, têm a militância no PCP (o maior número) ou no BE como nota maior dos seus currículos académicos. É, de resto, o caso da esmagadora maioria dos subscritores desta coisa.
Ainda por exemplo, veja-se o que muito recentemente aconteceu com a nomeação da dona rato para a direção de um museu* qualquer faz poucos dias…
Nestes meios, a venalidade dos partidos da “esquerda” não é diferente daquela que os das governações adotam em empresas publicas, bancos e em tudo o resto que se sabe.
Apenas parece mais respeitável.
São os “intelectuais de esquerda”.
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*- Ao ler as perguntas da entrevista citada, ia-me perguntando o que teria acontecido ao jornalista que as fazia. Estas “impertinências” – ou “discurso de ódio” como agora as batizam - não costumam ficar sem castigo…
Cliquei no link e percebi. A entrevista foi feita por um jornalista do CM, aquilo que o regime batizou de “esgoto a céu aberto”. Nunca será demais lembrar que aquilo que incomoda a esta gentalha não é a existência do esgoto moral do regime que só ali vê a luz do céu. Não. Eles apenas preferem que o esgoto corra em manilha fechada para que ninguém se incomode com o cheiro.
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