terça-feira, 8 de dezembro de 2020

coisas que vale a pena (re)ler

"Marcelo é um 'desequilibrista'; Costa é capaz de 'acabar com o regime'" 

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Se o país achar que foi enganado, uma vez que o Costa comprometeu toda a esquerda, será a vez da direita?
Não. Este acordo que o Costa fez com a extrema-esquerda teve também este efeito: se caírem, o PS não pode governar com ninguém da direita. Ficamos perante isto: ou a direita tem mais de 50%, ou não há Governo possível. E como é muito pouco provável que a direita tenha mais de 50%, não há Governo possível. A queda do Governo de Costa é capaz de acabar com este regime.

Como é que se acaba com o regime? É a tropa na rua? Um levantamento popular?
Não. É fundar-se um novo partido presidencialista que ganhe as eleições.

O que pode o atual Presidente da República fazer?
Nunca vi o Marcelo Rebelo de Sousa, em 20 anos de comentários, tomar uma posição clara sobre coisa nenhuma.

Como Presidente da República também não o fará?
Não.
O Presidente da República anda a distribuir afetos. Afetos a quem? Dar beijinhos no Presidente da República muda a vida de alguém? O povo vai votar no Marcelo porque o Marcelo os beijocou? E tirou fotografias com as pessoas?


[Aqui, acho que o dr. se engana. Sim, vai votar! O povo não é ingrato. Não há um único "selfado" que não se sinta no dever de ir votar no "selfador". É de resto essa a única razão porque foi sempre fazendo a conta ao número de selfies que fazia. E não, não estou a brincar. Ele contava as selfies todas que fazia]

Acha que a Presidência dele vai acabar mal?
Não sei. Com o Marcelo nunca se sabe. O Marcelo é um desequilibrista. Está sempre quase a cair. É como no circo. Isto parece engraçado, mas tem um efeito muito grave.

Um efeito grave nas instituições, na imagem do Presidente?

Acaba com a seriedade na política. Ele transformou a política num espetáculo. Não há dia que ele não apareça. Ele hoje aparece mais na televisão do que quando era comentarista. Agora aparece a dar beijinhos e abraços e posar para aquelas fotografias, chamam-se selfies, não é? Lembra-me sempre uma frase que o De Gaulle disse sobre o Lebrun, último presidente da Terceira República Francesa. “Como chefe de Estado ele tinha dois defeitos, não era chefe, nem havia Estado”.

E Marcelo é isso?
É exatamente isso. Como Chefe de Estado tem um defeitos: não é um chefe. Não é um homem que esteja a tentar impor um caminho para a política portuguesa. Não fez um discurso de intervenção, não fez nada.

Não se pode entender a atitude dele como a de alguém que percebeu que o país tem de despertar por si próprio para o que está errado?
Mas como é que o país descobre? Como é que ele está a contribuir para isso? É a ir às feiras? O Paulo Portas era o Paulinho das Feiras e ele? É o Marcelinho da Feiras? É a comer petiscos? Ah esta salsicha é muito boa…



Mas a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa não lhe pode dar autoridade para confrontar o Governo?
Não. Marcelo não tem relações com o país. Ele tem a mesma espécie de relação que um cantor pop tem com o seu público. Dar beijinhos à população não é ter uma relação com o país. Que mensagem é que ele passa? Que convicção é que representa um beijinho?"

Vasco Pulido Valente, entrevista, Observador, 10 de junho, 2016 (o sub-título deste conjunto de citações da entrevista é escolha minha)

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