A doutora clara cometeu uma redação abonecada que saiu lá do jornal onde ela tem caprichos e anda por aí a sugerir que os cidadãos são criaturas caprichosas que precisam ser mimadas não vá dar-se o caso de votarem mal.
São os “que se levantam de madrugada”;
“que chegam ao fim do mês sem pecúnia”;
“que pagam os impostos a horas”;
“que são perseguidos pelas polícias à cata da multa”;
“que tremem de terror quando recebem na caixa do correio o postal das Finanças”;
”que têm os pais velhos e a precisarem de ajuda e nem sequer têm tempo para o filho pequeno à noite quando chega a casa cansado”;
“que almoçam uma sandes de fiambre de pé no café da esquina”;
“que passam todos os dias por gente que vive melhor que eles e que não os vêem”;
”que votam nas eleições e que de um modo geral cumprem os deveres que o Estado lhe atribui”;
”que se arruinaram com um seguro de saúde para a família”;
“que fazem as contas a tudo todos os dias”;
“que têm direito a férias na praia porque arrendam um apartamentozeco num esconso algarvio a meias com os cunhados”;
“que descontam para a segurança social e a reforma e que estão a ver que a reforma só vai chegar aos 70 anos”;
“que sabem que se perderem o emprego mediano não arranjam outro”;
“que passam os fins de semana no hipermercado ou no centro comercial”;
“que acreditam nas vacinas e acreditam naquilo que lhes dizem”;
“que tem como luxo uma televisão LCD”;
“que passariam fome para dar aos seus filhos um futuro”;
“que chegam ao fim do dia derreados mas ainda têm tempo para ouvir os comentadores políticos”.
Excluí da enxúndia as porções em que a doutora clara se expande em empatias e pensa que é engraçadinha nas caricaturas. Mas estas citações resumem o essencial do povo que a doutora clara entende insultar com o seu apaparicamento presumindo-as mentalmente incapazes de fazerem escolhas: “Parece que andam por aí umas pessoas zangadas e dadas à bronca que foram traídas pelo “sistema” e que temos de apaparicar.”
A que título é que se consente o atrevimento de falar de um país que manifestamente não conhece senão por ouvir falar?
A que título pensa a senhora poder insultar um país tratando-o com sarcasmo porque lhe assoma à cabeça a possibilidade de que não venha a votar como a senhora quer que vote?
Não, doutora, eu não sou. Mas a doutora é.
E foi.
Foi-o durante todo aquele tempo em que achou muita graça ver o reizinho a cavalgar tartarugas pelas Seicheles, durante todo aquele tempo em que achava divertido o reizinho a enxovalhar um guarda a quem foi incumbida a desgraçada tarefa de lhe providenciar segurança, durante todo o tempo em que fez parte dos vários séquitos dos vários régulos que se vêm sucedendo na nossa curta história democrática, durante todo o tempo em que para seu júbilo um jornal foi proibido de se referir a um ex-primeiro-ministro pelos tribunais, durante todo o tempo em que se referia a esse jornal como ”um esgoto a céu aberto” – não que a existência do esgoto a incomodasse, mas porque preferia certamente que o esgoto corresse em manilha fechada -, durante todo o tempo - até ao extremo mais ridículo- em que se indignou com tudo e todos os que não presumissem a inocência do senhor engenheiro, durante todo o tempo em que, na qualidade de “comentadora política” ignorou os sucessivos e escabrosos sinais das trafulhices do trampolineiro, durante todo o tempo em que pelejou vigorosamente pela "honra" do cavalheiro que nos arrastou para a ultima bancarrota.
Bem sei que a senhora – e o coletivo dos seus “comentadores políticos” mais próximos - pediram desculpa pelo obstinado afeto. Sucede que eu não aceito os seus pedidos de desculpa, dona clara. E muito naturalmente continua tão desqualificada para me dar indicações de voto como para me recomendar um champô.
Fica à vista que “o sistema” é também a sua “ausência de escrúpulos” quando pretende fazer passar por “jornalismo” o que não é mais que doutrina, “a espuma negra do sistema, resíduo tóxico e radioativo que deve ser incinerado e disposto longe” de qualquer coisa que se possa aparentar com a ideia de um jornalismo sério.
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