quarta-feira, 21 de julho de 2021

“A literatura não serve para nada. Se servisse para alguma coisa, a ralé esquerdista que monopolizou o debate intelectual ao longo do século XX nem sequer teria existido. Felizmente, esse século terminou agora mesmo; é o momento de voltar uma última vez (esperemos nós) aos dislates dos ‘intelectuais de esquerda’, e o melhor é sem dúvida evocar ‘Os Demónios’, publicado em 1872, onde a sua ideologia e os seus crimes são já claramente anunciados através da cena do assassínio de Chatov. Mas ao certo de que modo as intuições de Dostoiévski influenciaram o movimento histórico? De modo absolutamente nenhum. Marxistas, existencialistas, anarquistas e esquerdistas de todos os tipos puderam prosperar e infectar o mundo conhecido, exactamente como se Dostoiévski nunca tivesse escrito uma linha. Terão eles ao menos apresentado uma só ideia nova em relação aos seus predecessores do romance? Nada, nem uma. Este foi um século para esquecer, um século que não inventou nada. Ainda por cima, pomposo até dizer chega.”

Michel Houellebecq, Intervenções, Alfaguara, 2021, p. 179

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