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quarta-feira, 27 de julho de 2022

“A revolta destes jovens de direita contra a correcção política no princípio do século xx não é uma chamada à radicalização ideológica. Muito pelo contrário, os colaboradores da Atlântico alertam contra o perigo de aproveitamento, por parte do populismo de direita, de temáticas deixadas sem resposta pelos liberais e pelos conservadores. Henrique Raposo, por exemplo, encontra a quintessência da correcção política no mito do multiculturalismo, negação do verdadeiro cosmopolitismo. O politicamente correcto impede, hoje, de se falar dos problemas da imigração, para não se correr o risco de ser rotulado de racista, de neocolonialista, de extremista de direita. Através da chantagem moral, a esquerda ocupa o espaço do debate público e impõe a figura do migrante não como um cidadão igual aos demais, nos direitos e nos deveres, mas como um refugiado titular de um estatuto especial, destinatário de subsídios. Esta dominação cultural das esquerdas é co-responsável pela realidade social deixada medrar nalgumas periferias da área metropolitana de Lisboa, onde – á semelhança do que se passa em França - as segundas e terceiras gerações de cidadãos nascidos em Portugal de pais estrangeiros não se integram culturalmente, nem sequer na aprendizagem da língua portuguesa, porque a assimilação é apontada como uma forma de etnocídio cultural supremacista. A esquerda é, assim, responsável pelos guetos multiculturais onde cresce o repúdio do Ocidente entre jovens desenraizados tanto do lugar de origem dos progenitores, quanto do lugar físico de nascença. Se é verdade que ninguém é obrigado a gostar e respeitar a cultura e a comunidade do país onde nasceu, também é verdade que o multiculturalismo impõe uma obrigação moral: aos ocidentais, a obrigação de ter vergonha de si e do seu legado histórico; aos não-ocidentais, a obrigação de preservar o orgulho das culturas de origem. Henrique Raposo define esta cultura pós-moderna de ‘comunitarismo reaccionário’, no qual é possível encontrar todos os ingredientes do romantismo do século XIX de um Johann Herder, de um Ferdinand Tönnies, de um Johann Fichte: o culto do Eu, a primazia da comunidade e da cultura, a crítica da razão iluminista, a recusa da ciência universal e da civilização mecânica anglo-saxónica. Nas directrizes da Kultur e do Volke convergem, hoje, a velha direita e a nova esquerda, portadoras de um nacionalismo identitário agressivo.
A partir de Maio de 1968, parte da esquerda recupera o conceito de etnicidade que se pensava sepultado sob os escombros do nacionalismo fascista. Com a queda do Comunismo, em 1989, esta esquerda substitui Karl Marx com Jean-Jacques Rousseau e a economia com a cultura: 0 novo sujeito antagonista contra o Ocidente é, hoje, o bom selvagem que deve ser protegido da assimilação corruptora imposta pelo dominador. O relativismo moral, promovido pela esquerda para se servir dos indivíduos em função antiocidental, é profundamente paternalista por tratar os imigrantes não como sujeitos autónomos, capazes de determinar a sua vida, mas como crianças indefesas, coagidas pelo Ocidente. Por sua vez, o Ocidente, demonstra ser vulnerável a este relativismo, tolerando, por exemplo, a vigência da lei da Sharia nalgumas comunidades muçulmanas em terras europeias, para evitar a acusação de racismo. Portugal não é imune a este fenómeno. Neste sentido, Henrique Raposo aponta a intervenção da esquerda - em particular da Associação para o Planeamento da Família - aquando da discussão da lei contra a mutilação genital feminina, no sentido de não estigmatizar a complexidade cultural das comunidades africanas. Na opinião do autor, esta postura paternalista discrimina as meninas com base na origem étnica, negando-lhes a protecção por parte do Estado de direito. Para Henrique Raposo, o relativismo epistemológico no processo de conhecimento do outro não pode implicar o relativismo moral: a dignidade humana é o chão comum e não pode ser sacrificado face a qualquer valor cultural. O direito natural deve prevalecer sobre qualquer direito romântico multiculturalista. A liberdade individual tem supremacia sobre a moral do comunitarismo multiculturalista. O Estado, com a sua constituição iluminista, não deve deixar espaços vazios no território nacional para o florescimento de moralidades diferentes, ancoradas em particularismos identitários. O princípio bio-étnico-comunitário deve ser rejeitado, venha ele da direita radical clássica ou da nova esquerda pós-materialista. A constituição iluminista igualitária, e não a origem étnico-racial diferencialista, determina os direitos. O direito à diversidade não pode ser sinónimo de diversidade de direitos.
Neste sentido, o multiculturalismo da esquerda pós-materialista faz o jogo da extrema-direita de sempre, reaccionária, romântica, anti-iluminista, antiuniversalista, pois o identitarismo das minorias provoca a reacção identitária das maiorias, cavalgadas pelos populismos de extrema-direita. O populismo de direita de um Pim Fortuyn (lider holandês anti-islâmico), estigmatizado até ao seu assassinato em 2002, é hoje celebrado porque encarnado pelo cineasta Theo van Gogh, assassinado em 2004 por um radical islâmico. Por isso, segundo Henrique Raposo, os moderados do centro político têm de incorporar na sua agenda o tema das migrações, para o retirar aos extremistas que aproveitam o vazio deixado por liberais e conservadores amedrontados.32 Para o futuro colunista do Expresso, entre a crítica ao relativismo cultural e ao multiculturalismo, e o apoio ao discurso nacionalista, existe o patriotismo constitucional liberal, no qual o próprio se reconhece, avesso a qualquer tipo de generalização comunitária das minorias étnicas. Não existem os ciganos ou os muçulmanos, mas, apenas, indivíduos com direitos e deveres iguais. Reconhecer e resolver os problemas ligados à presença muçulmana na Europa, fugindo ao politicamente correcto, não significa liquidar os indivíduos. O problema islâmico na Europa é um problema de integração nos valores ocidentais. O erro da esquerda é a inconsequência entre, por um lado, a defesa dos direitos dos homossexuais e das mulheres e, por outro lado, o sonegar, politicamente correcto, o machismo e a homofobia presentes na cultura islâmica. Esta constatação não tem nada a ver com o populismo de direita de uma Marine Le Pen, por exemplo, cujo humanismo é só para os franceses, ou seja, excludente do ponto de vista étnico, por estigmatizar um grupo inteiro de indivíduos em razão da sua pertença étnica. A abordagem certa é, pelo contrário, a resolução dos problemas concretos, específicos, vividos nos bairros e não a identificação do problema com todo um grupo humano. Isso significa rejeitar a ideia de que o Islão tenha de ficar fora da Europa. O Islão deve entrar na Europa, porque a Europa deve ser um melting pot como os Estados Unidos da América e também porque a Europa precisa da imigração, integrada nos mesmos direitos e deveres dos autóctones. A presença islâmica na Europa, portanto, vai ao encontro dos valores e dos interesses da Europa liberal.
32 Henrique Raposo, Atlântico, 24 de Novembro de 2005.”

A BOLHA - UMA DIREITA ANTIPOPULISTA, Riccardo Marchi, edições 70, 2022, pp. 69-72

quarta-feira, 21 de julho de 2021

“A literatura não serve para nada. Se servisse para alguma coisa, a ralé esquerdista que monopolizou o debate intelectual ao longo do século XX nem sequer teria existido. Felizmente, esse século terminou agora mesmo; é o momento de voltar uma última vez (esperemos nós) aos dislates dos ‘intelectuais de esquerda’, e o melhor é sem dúvida evocar ‘Os Demónios’, publicado em 1872, onde a sua ideologia e os seus crimes são já claramente anunciados através da cena do assassínio de Chatov. Mas ao certo de que modo as intuições de Dostoiévski influenciaram o movimento histórico? De modo absolutamente nenhum. Marxistas, existencialistas, anarquistas e esquerdistas de todos os tipos puderam prosperar e infectar o mundo conhecido, exactamente como se Dostoiévski nunca tivesse escrito uma linha. Terão eles ao menos apresentado uma só ideia nova em relação aos seus predecessores do romance? Nada, nem uma. Este foi um século para esquecer, um século que não inventou nada. Ainda por cima, pomposo até dizer chega.”

Michel Houellebecq, Intervenções, Alfaguara, 2021, p. 179

sábado, 28 de novembro de 2020

 “O Chega é populista porque, segundo a definição científica do conceito, a sua mundividência está baseada numa perspetiva dicotómica da realidade política, segundo a qual, há 45 anos, uma elite se apoderou dos gânglios do poder político, económico, mediático, cultural, atraiçoando o povo português, mantido, cada vez mais, na margem de qualquer processo decisório e vexado nas suas componentes mais produtivas. Esta elite, corrupta e corruptora, é transversal aos partidos que se reconhecem na III República Portuguesa, sejam eles pilares dos governos de centro-direita nas coligações PSD-CDS, dos governos do bloco-central PS-PSD ou do governo de esquerda da Geringonça. A transversalidade consubstancia-se num pacto de regime em quatro dimensões. Na dimensão política, o sistema foi deixado aberto, sem restrições, à esquerda radical, mas limitado, no polo oposto, apenas à direita “permitida”, ou seja, à direita tíbia, receosa de reivindicar a sua identidade, impossibilitada em assumir a crítica anti-sistema, sujeita à constante demonização através dos chavões do extremismo, do fascismo, do racismo. Com origem nas contingências históricas do 25 de Abril de 1974, o enviesamento à esquerda foi cristalizado, ao longo das décadas, menos por representar a realidade política do país e mais para excluir, do jogo democrático, crescentes faixas de cidadãos, como demonstra o incremento da abstenção e da insatisfação dos eleitores com as instituições do regime e com a qualidade da democracia. Na dimensão económica, a elite construiu uma rede de compadrio entre o sector público e o sector privado, onde circulam políticos de carreira, tecnocratas, empresários, nos grandes grupos económicos ou nas parcerias com o Estado, a nível tanto nacional como local. Esta teia de clientelismos e corrupções nos mais diversos níveis cria uma redoma de vasos comunicantes onde, há décadas, as mesmas pessoas sobem e descem, mas nunca desaparecem, sugando os recursos financeiros da nação, à qual são devolvidos apenas a estagnação económica crónica, serviços públicos disfuncionais, as migalhas da subsídiodependência, a perspectiva da emigração, principalmente para os mais novos. As dimensões mediática e cultural são as que mais exemplificam o pacto do regime: aqui, às esquerdas radicais, excluídas em larga medida da dimensão económica, é dado campo livre, através da sua rede de sindicatos e associações, para ocupar redacções de jornais, palimpsestos televisivos, instituições de cultura e educação – integrando ministérios, escolas básicas e secundárias, e universidades, nas áreas das Ciências Sociais e Humanas -, para implementarem a sua agenda de policiamento do pensamento, de imposição da correcção política, de ‘marxismo cultural’. Inócua para o sistema económico predatório e cúmplice na edificação do Estado monstro, a rede, a rede das elites esquerdistas revela-se extremamente eficaz no silenciamento, na denúncia e na demonização de todas as vozes críticas contra o regime, não alinhadas com a cartilha progressista das elites intelectuais estabelecidas.

Todos estes elementos presentes no ideário do Chega, tanto nos quadros como na base, determinam a separação, no seu discurso, entre o Portugal de cima – seja ele de esquerda, do centro ou de direita – próximo das alavancas do poder – e o Portugal de baixo, totalmente excluído do sistema e mantido nas suas margens, para alimentar o simulacro da democracia.”

Riccardo Marchi, A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega, Almedina, 2020, pp. 193-194

Na altura em que comprei o livro, ia na 2ª edição. Aquando da primeira, como frequentemente sucede com o lançamento de um livro, o seu autor foi convidado a falar dele no canal 2 da televisão pública. A esse pretexto, num dos mais vergonhosos episódios da democracia portuguesa, 67 “universitários” resolveram fazer um abaixo-assinado “Contra a higienização académica do racismo e fascismo do Chega” 

Os “universitários” subscritores dessa coisa estão todos devidamente retratados no texto de Riccardo Marchi  aqui citado. Para memória futura, os seus nomes e as funções que se atribuem no regime que os engorda ficam aqui devidamente elencados: 

Adriano Campos, sociólogo, FEUC-UC; Alice Ramos, socióloga; Ambra Formenti, investigadora; Ana Alcântara, historiadora, ESE-IPS e IHC-FCSH; Ana Benavente, socióloga, docente; Ana Delicado, investigadora; Ana Ferreira, investigadora, FCSH-UNL; Ana Raquel Matias, socióloga; Ana Rita Alves, doutoranda, CES-UC; André Barata, filósofo, UBI; Boaventura de Sousa Santos, director Emérito do CES-UC; Bruno de Sena Martins, antropólogo; Cláudia Castelo, historiadora; Cristiana Bastos, antropóloga; Cristina Gomes da Silva, socióloga, professora do ensino superior; Cristina Roldão, socióloga, ESE-IPS e ISCTE-IUL; Cristina Santinho, antropóloga, investigadora e docente universitária; Eduardo Costa Dias, professor jubilado, ISCTE-IUL; Elsa Pegado, socióloga, investigadora e docente, CIES-ISCTE; Fernando Rosas, historiador, FCSH-UNL; Francesco Vacchiano, investigador associado, ICS-UL; Gaia Giuliani, investigadora; Inês Lourenço, investigadora, CRIA/ISCTEIUL; Inês Pereira, FCSH-UNL, ISCTE-IUL; Inocência Mata, professora universitária, FLUL; Iolanda Évora, investigadora e docente; Irene Pimentel, historiadora, IHC, FCSH-UNL; Joana Lucas, antropóloga; João Figueiredo, investigador, UNL; João Mourato, investigador auxiliar, ICS-UL; João Teixeira Lopes, sociólogo, FLUP; João Vasconcelos, investigador; Jorge Vala, investigador emérito, ICS-UL; Kitty Furtado, investigadora, CES-UC; Lígia Ferro, professora auxiliar, FLUP; Manuel Carlos Silva, professor universitário; Manuel Loff, historiador; Manuela Ribeira Sanches, docente universitária; Margarida Paredes, antropóloga; Maria José Casa-Nova, Universidade do Minho; Maria Paula Meneses, investigadora, CES-UC; Mariana Pires de Miranda, investigadora auxiliar, ICS-ULisboa; Marta Araújo, investigadora em Ciências Sociais; Marta Lança, IHA, FCSH-UNL; Miguel Cardina, historiador, CES-UC; Miguel Vale de Almeida, antropólogo; Nuno Dias, sociólogo; Otávio Raposo, antropólogo, CIES-ISCTE; Paula Godinho, antropóloga; Pedro Abrantes, professor universitário; Pedro Schacht Pereira, professor universitário; Pedro Varela, doutorando, CES-UC; Raquel Lima, doutoranda, CES-UC; Renato Carmo, professor universitário; Rita Cachado, antropóloga; Rui Gomes Coelho, arqueólogo; Sandra Mateus, investigadora, CIES-ISCTE; Silvia Maeso, socióloga; Sílvia Roque, investigadora; Simone Amorim, investigadora, CEsA/ ISEG/UL; Simone Frangella, antropóloga; Simone Tulumello, geógrafo; Susana Santos, investigadora, ISCTE-IUL; Teresa Seabra Almeida, docente universitária; Teresa Fradique, cientista social; Vitor Sérgio Ferreira, sociólogo, investigador auxiliar.


sábado, 1 de setembro de 2018

enquanto nos for possível, é deixá-los proibir


O olho que na capa vê mais ou menos a direito fica aqui vendado pela frase de Roger Scruton, estranhamente editado entre nós pela Quetzal, uma editora que arrisca a proscrição pela temeridade. Mas Sartre, Deleuze, Adorno, Habermas e demais família, que  terão sido os bibelots da roda dentada e da enxada da udp do major tomé, são hoje substituídos pela estrelinha com cabeça e membros tribais.
Sem a tradicional direção estalinista, fazem agora uso de matarruanas de queixo quadrado para anunciar a excomunhão de uma qualquer criatura que arrisque assomos de ideia fora do cânon, para reclamar a incineração de um qualquer livro, para exigir o abate de um qualquer monumento erigido em memória de um Vieira em enxofre de sotaina.
Sem sombra de pudor, exigem o silêncio de todas as vozes que não reconheçam como sendo das suas tribos.
Com mais ou menos máfias cor-de-malva, o resultado é sempre o mesmo.

Mas enquanto nos for possível, a melhor e mais eficaz resistência é a de lhes consentir o espetáculo das suas assanhadas proibições.