“O Chega é populista porque, segundo a definição científica do conceito, a sua mundividência está baseada numa perspetiva dicotómica da realidade política, segundo a qual, há 45 anos, uma elite se apoderou dos gânglios do poder político, económico, mediático, cultural, atraiçoando o povo português, mantido, cada vez mais, na margem de qualquer processo decisório e vexado nas suas componentes mais produtivas. Esta elite, corrupta e corruptora, é transversal aos partidos que se reconhecem na III República Portuguesa, sejam eles pilares dos governos de centro-direita nas coligações PSD-CDS, dos governos do bloco-central PS-PSD ou do governo de esquerda da Geringonça. A transversalidade consubstancia-se num pacto de regime em quatro dimensões. Na dimensão política, o sistema foi deixado aberto, sem restrições, à esquerda radical, mas limitado, no polo oposto, apenas à direita “permitida”, ou seja, à direita tíbia, receosa de reivindicar a sua identidade, impossibilitada em assumir a crítica anti-sistema, sujeita à constante demonização através dos chavões do extremismo, do fascismo, do racismo. Com origem nas contingências históricas do 25 de Abril de 1974, o enviesamento à esquerda foi cristalizado, ao longo das décadas, menos por representar a realidade política do país e mais para excluir, do jogo democrático, crescentes faixas de cidadãos, como demonstra o incremento da abstenção e da insatisfação dos eleitores com as instituições do regime e com a qualidade da democracia. Na dimensão económica, a elite construiu uma rede de compadrio entre o sector público e o sector privado, onde circulam políticos de carreira, tecnocratas, empresários, nos grandes grupos económicos ou nas parcerias com o Estado, a nível tanto nacional como local. Esta teia de clientelismos e corrupções nos mais diversos níveis cria uma redoma de vasos comunicantes onde, há décadas, as mesmas pessoas sobem e descem, mas nunca desaparecem, sugando os recursos financeiros da nação, à qual são devolvidos apenas a estagnação económica crónica, serviços públicos disfuncionais, as migalhas da subsídiodependência, a perspectiva da emigração, principalmente para os mais novos. As dimensões mediática e cultural são as que mais exemplificam o pacto do regime: aqui, às esquerdas radicais, excluídas em larga medida da dimensão económica, é dado campo livre, através da sua rede de sindicatos e associações, para ocupar redacções de jornais, palimpsestos televisivos, instituições de cultura e educação – integrando ministérios, escolas básicas e secundárias, e universidades, nas áreas das Ciências Sociais e Humanas -, para implementarem a sua agenda de policiamento do pensamento, de imposição da correcção política, de ‘marxismo cultural’. Inócua para o sistema económico predatório e cúmplice na edificação do Estado monstro, a rede, a rede das elites esquerdistas revela-se extremamente eficaz no silenciamento, na denúncia e na demonização de todas as vozes críticas contra o regime, não alinhadas com a cartilha progressista das elites intelectuais estabelecidas.
Todos estes elementos presentes no ideário do Chega, tanto nos quadros como na base, determinam a separação, no seu discurso, entre o Portugal de cima – seja ele de esquerda, do centro ou de direita – próximo das alavancas do poder – e o Portugal de baixo, totalmente excluído do sistema e mantido nas suas margens, para alimentar o simulacro da democracia.”
Riccardo Marchi, A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega, Almedina, 2020, pp. 193-194
Na altura em que comprei o livro, ia na 2ª edição. Aquando da primeira, como frequentemente sucede com o lançamento de um livro, o seu autor foi convidado a falar dele no canal 2 da televisão pública. A esse pretexto, num dos mais vergonhosos episódios da democracia portuguesa, 67 “universitários” resolveram fazer um abaixo-assinado “Contra a higienização académica do racismo e fascismo do Chega”
Os “universitários” subscritores dessa coisa estão todos devidamente retratados no texto de Riccardo Marchi aqui citado. Para memória futura, os seus nomes e as funções que se atribuem no regime que os engorda ficam aqui devidamente elencados:
Adriano Campos, sociólogo, FEUC-UC; Alice Ramos, socióloga; Ambra Formenti, investigadora; Ana Alcântara, historiadora, ESE-IPS e IHC-FCSH; Ana Benavente, socióloga, docente; Ana Delicado, investigadora; Ana Ferreira, investigadora, FCSH-UNL; Ana Raquel Matias, socióloga; Ana Rita Alves, doutoranda, CES-UC; André Barata, filósofo, UBI; Boaventura de Sousa Santos, director Emérito do CES-UC; Bruno de Sena Martins, antropólogo; Cláudia Castelo, historiadora; Cristiana Bastos, antropóloga; Cristina Gomes da Silva, socióloga, professora do ensino superior; Cristina Roldão, socióloga, ESE-IPS e ISCTE-IUL; Cristina Santinho, antropóloga, investigadora e docente universitária; Eduardo Costa Dias, professor jubilado, ISCTE-IUL; Elsa Pegado, socióloga, investigadora e docente, CIES-ISCTE; Fernando Rosas, historiador, FCSH-UNL; Francesco Vacchiano, investigador associado, ICS-UL; Gaia Giuliani, investigadora; Inês Lourenço, investigadora, CRIA/ISCTEIUL; Inês Pereira, FCSH-UNL, ISCTE-IUL; Inocência Mata, professora universitária, FLUL; Iolanda Évora, investigadora e docente; Irene Pimentel, historiadora, IHC, FCSH-UNL; Joana Lucas, antropóloga; João Figueiredo, investigador, UNL; João Mourato, investigador auxiliar, ICS-UL; João Teixeira Lopes, sociólogo, FLUP; João Vasconcelos, investigador; Jorge Vala, investigador emérito, ICS-UL; Kitty Furtado, investigadora, CES-UC; Lígia Ferro, professora auxiliar, FLUP; Manuel Carlos Silva, professor universitário; Manuel Loff, historiador; Manuela Ribeira Sanches, docente universitária; Margarida Paredes, antropóloga; Maria José Casa-Nova, Universidade do Minho; Maria Paula Meneses, investigadora, CES-UC; Mariana Pires de Miranda, investigadora auxiliar, ICS-ULisboa; Marta Araújo, investigadora em Ciências Sociais; Marta Lança, IHA, FCSH-UNL; Miguel Cardina, historiador, CES-UC; Miguel Vale de Almeida, antropólogo; Nuno Dias, sociólogo; Otávio Raposo, antropólogo, CIES-ISCTE; Paula Godinho, antropóloga; Pedro Abrantes, professor universitário; Pedro Schacht Pereira, professor universitário; Pedro Varela, doutorando, CES-UC; Raquel Lima, doutoranda, CES-UC; Renato Carmo, professor universitário; Rita Cachado, antropóloga; Rui Gomes Coelho, arqueólogo; Sandra Mateus, investigadora, CIES-ISCTE; Silvia Maeso, socióloga; Sílvia Roque, investigadora; Simone Amorim, investigadora, CEsA/ ISEG/UL; Simone Frangella, antropóloga; Simone Tulumello, geógrafo; Susana Santos, investigadora, ISCTE-IUL; Teresa Seabra Almeida, docente universitária; Teresa Fradique, cientista social; Vitor Sérgio Ferreira, sociólogo, investigador auxiliar.
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