A partir de Maio de 1968, parte da esquerda recupera o conceito de etnicidade que se pensava sepultado sob os escombros do nacionalismo fascista. Com a queda do Comunismo, em 1989, esta esquerda substitui Karl Marx com Jean-Jacques Rousseau e a economia com a cultura: 0 novo sujeito antagonista contra o Ocidente é, hoje, o bom selvagem que deve ser protegido da assimilação corruptora imposta pelo dominador. O relativismo moral, promovido pela esquerda para se servir dos indivíduos em função antiocidental, é profundamente paternalista por tratar os imigrantes não como sujeitos autónomos, capazes de determinar a sua vida, mas como crianças indefesas, coagidas pelo Ocidente. Por sua vez, o Ocidente, demonstra ser vulnerável a este relativismo, tolerando, por exemplo, a vigência da lei da Sharia nalgumas comunidades muçulmanas em terras europeias, para evitar a acusação de racismo. Portugal não é imune a este fenómeno. Neste sentido, Henrique Raposo aponta a intervenção da esquerda - em particular da Associação para o Planeamento da Família - aquando da discussão da lei contra a mutilação genital feminina, no sentido de não estigmatizar a complexidade cultural das comunidades africanas. Na opinião do autor, esta postura paternalista discrimina as meninas com base na origem étnica, negando-lhes a protecção por parte do Estado de direito. Para Henrique Raposo, o relativismo epistemológico no processo de conhecimento do outro não pode implicar o relativismo moral: a dignidade humana é o chão comum e não pode ser sacrificado face a qualquer valor cultural. O direito natural deve prevalecer sobre qualquer direito romântico multiculturalista. A liberdade individual tem supremacia sobre a moral do comunitarismo multiculturalista. O Estado, com a sua constituição iluminista, não deve deixar espaços vazios no território nacional para o florescimento de moralidades diferentes, ancoradas em particularismos identitários. O princípio bio-étnico-comunitário deve ser rejeitado, venha ele da direita radical clássica ou da nova esquerda pós-materialista. A constituição iluminista igualitária, e não a origem étnico-racial diferencialista, determina os direitos. O direito à diversidade não pode ser sinónimo de diversidade de direitos.
Neste sentido, o multiculturalismo da esquerda pós-materialista faz o jogo da extrema-direita de sempre, reaccionária, romântica, anti-iluminista, antiuniversalista, pois o identitarismo das minorias provoca a reacção identitária das maiorias, cavalgadas pelos populismos de extrema-direita. O populismo de direita de um Pim Fortuyn (lider holandês anti-islâmico), estigmatizado até ao seu assassinato em 2002, é hoje celebrado porque encarnado pelo cineasta Theo van Gogh, assassinado em 2004 por um radical islâmico. Por isso, segundo Henrique Raposo, os moderados do centro político têm de incorporar na sua agenda o tema das migrações, para o retirar aos extremistas que aproveitam o vazio deixado por liberais e conservadores amedrontados.32 Para o futuro colunista do Expresso, entre a crítica ao relativismo cultural e ao multiculturalismo, e o apoio ao discurso nacionalista, existe o patriotismo constitucional liberal, no qual o próprio se reconhece, avesso a qualquer tipo de generalização comunitária das minorias étnicas. Não existem os ciganos ou os muçulmanos, mas, apenas, indivíduos com direitos e deveres iguais. Reconhecer e resolver os problemas ligados à presença muçulmana na Europa, fugindo ao politicamente correcto, não significa liquidar os indivíduos. O problema islâmico na Europa é um problema de integração nos valores ocidentais. O erro da esquerda é a inconsequência entre, por um lado, a defesa dos direitos dos homossexuais e das mulheres e, por outro lado, o sonegar, politicamente correcto, o machismo e a homofobia presentes na cultura islâmica. Esta constatação não tem nada a ver com o populismo de direita de uma Marine Le Pen, por exemplo, cujo humanismo é só para os franceses, ou seja, excludente do ponto de vista étnico, por estigmatizar um grupo inteiro de indivíduos em razão da sua pertença étnica. A abordagem certa é, pelo contrário, a resolução dos problemas concretos, específicos, vividos nos bairros e não a identificação do problema com todo um grupo humano. Isso significa rejeitar a ideia de que o Islão tenha de ficar fora da Europa. O Islão deve entrar na Europa, porque a Europa deve ser um melting pot como os Estados Unidos da América e também porque a Europa precisa da imigração, integrada nos mesmos direitos e deveres dos autóctones. A presença islâmica na Europa, portanto, vai ao encontro dos valores e dos interesses da Europa liberal.
32 Henrique Raposo, Atlântico, 24 de Novembro de 2005.”
A BOLHA - UMA DIREITA ANTIPOPULISTA, Riccardo Marchi, edições 70, 2022, pp. 69-72