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Catherine Millet (normalmente mais parisiense, mas encontrando-se em Estagel, Nos Pirenéus Orientais, no momento em que a ordem de imobilização chegou). A situação presente faz-lhe desagradavelmente pensar na parte intitulada ‘antecipação’ de um dos meus romances, A Possibilidade de Uma Ilha.
Eis um momento em que disse a mim mesmo que afinal é bem bom, isto de ter leitores. Porque não me ocorreu fazer essa aproximação ao livro, quando ela é absolutamente cristalina. De resto, voltando a pensar nisso, verifico que era exactamente aquilo em que eu andava a matutar na altura, no que diz respeito à extinção da humanidade. Nada de semelhante aos filmes de grande espectáculo. Qualquer coisa de mais sombrio e triste. Indivíduos que vivem isolados nas sua celas, sem contacto físico com os seus semelhantes, apenas algumas trocas por computador com vivacidade decrescente.
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[O] coronavírus deveria ter, como principal resultado, a aceleração de certas mutações em curso. Desde há alguns anos, o conjunto das evoluções tecnológicas, sejam as menores, (o streaming de vídeo, o pagamento sem contacto) ou maiores (o teletrabalho, as compras pela Internet, as redes sociais) tiveram como principal consequência (ou principal objectivo?) diminuir os contactos materiais, e sobretudo os contactos humanos. A epidemia de coronavírus oferece uma magnífica razão de ser para esta tendência pesada: a de uma certa obsolescência que parece afectar as relações humanas. O que me faz pensar numa comparação luminosa que encontrei num texto [anti procriação medicamente assistida] redigido por um grupo de activistas denominado ‘os chimpanzés do futuro’ (descobri estas pessoas na Internet; nunca disse que a Internet só tinha inconvenientes). Por isso, vou citá-los: ‘Dentro em breve, fazer filhos pelos próprios meios, gratuitamente e ao calhas, parecerá tão incongruente como hoje andar à boleia sem uma plataforma web.’ A partilha de carros, a partilha de aluguer de casa, esse tipo de coisas, enfim, temos as utopias que merecemos, mas passo bem sem elas.
Seria igualmente falso afirmar que redescobrimos o trágico, a morte, a finitude, etc. A tendência desde há meio século, bem descrita por Philippe Ariès, foi a de dissimular a morte, tanto quanto possível; pois bem, nunca a morte terá sido tão discreta como nas últimas semanas. As pessoas morrem sozinhas nos seus quartos de hospital ou de [lares de terceira idade], enterram-nas assim que morrem (ou serão cremadas? A cremação está mais conforme o espírito do tempo), sem chamar ninguém, em segredo. Mortos que partem sem que haja testemunho disso, as vítimas resumidas a uma unidade nas estatísticas dos mortos diários, a angústia que se espalha pela população à medida que os números totais aumentam, tudo isto tem qualquer coisa de estranhamente abstracto.
Um outro número ganhou importância nestas semanas, o da idade dos doentes. Até quando é suposto reanimá-los e trata-los? Onde colocar o limite? Nos 70, nos 75, nos 80 anos? Isso depende, aparentemente, da região do mundo onde se vive; mas nunca, em todo o caso, foi dito com um tão tranquilo impudor que nem todas as vidas valem o mesmo; que a partir de uma certa idade (70, 75, 80 anos?), é um pouco como se já estivéssemos mortos.
Todas estas tendências, já o disse, existiam antes do coronavírus, mas manifestam-se agora com uma maior evidência. Nós não vamos acordar, depois do confinamento, num mundo novo; será o mesmo, só que um pouco pior.”
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