“’Penso que não há nenhuma vida, por muito degradada, deteriorada, diminuída ou empobrecida que se encontre, que não mereça ser respeitada ou não justifique que a defendamos com zelo.
Atrevo-me a pensar que uma sociedade honrada tem de assumir, de desejar esse luxo pesado que representa para ela a carga dos incuráveis, dos inúteis, dos incapazes; e quase me arrisco a medir o seu grau de civilização pelo cuidado e vigilância que ela impõe a si mesma, no puro respeito pela vida… Quando se instalar o hábito de eliminar os monstros, taras menores passarão a fazer figura de monstruosidades. Da supressão do horrível à aniquilação do indesejável vai um passo… Essa sociedade limpa, saneada, essa sociedade onde a piedade não teria lugar, essa sociedade sem dejectos, sem restos, onde os normais e os fortes beneficiariam dos recursos consumidos até aqui pelos anormais e pelos fracos, essa sociedade ressuscitaria o espírito de Esparta e extasiaria os discípulos de Nietzche; só não sei se mereceria ser chamada de sociedade humana.’*
Esparta vangloriava-se da sua eficácia ‘e, por essa razão, desapareceu sem deixar traços’. ** Também a nossa sociedade se gaba da sua eficácia; desaparecerá como Esparta, e arrisca-se a não deixar mais do que a incerta recordação de uma vergonha, a sombra de um desgosto.”
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*[citação de Jean Rostand em Le Courrier d’un biologiste, 1970]
**Já não sei a quem atribuir esta curiosa citação sobre Esparta; talvez a Chesterton, uma vez que condiz bastante bem com o seu estilo.
Michel Houellebecq, Intervenções, Alfaguara, 2020, pp.373-74
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