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terça-feira, 7 de setembro de 2021

 

“’Penso que não há nenhuma vida, por muito degradada, deteriorada, diminuída ou empobrecida que se encontre, que não mereça ser respeitada ou não justifique que a defendamos com zelo.

Atrevo-me a pensar que uma sociedade honrada tem de assumir, de desejar esse luxo pesado que representa para ela a carga dos incuráveis, dos inúteis, dos incapazes; e quase me arrisco a medir o seu grau de civilização pelo cuidado e vigilância que ela impõe a si mesma, no puro respeito pela vida… Quando se instalar o hábito de eliminar os monstros, taras menores passarão a fazer figura de monstruosidades. Da supressão do horrível à aniquilação do indesejável vai um passo… Essa sociedade limpa, saneada, essa sociedade onde a piedade não teria lugar, essa sociedade sem dejectos, sem restos, onde os normais e os fortes beneficiariam dos recursos  consumidos até aqui pelos anormais e pelos fracos, essa sociedade ressuscitaria o espírito de Esparta e extasiaria os discípulos de Nietzche; só não sei se mereceria ser chamada de sociedade humana.’*

Esparta vangloriava-se da sua eficácia ‘e, por essa razão, desapareceu sem deixar traços’. ** Também a nossa sociedade se gaba da sua eficácia; desaparecerá como Esparta, e arrisca-se a não deixar mais do que a incerta recordação de uma vergonha, a sombra de um desgosto.”

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*[citação de Jean Rostand em Le Courrier d’un biologiste, 1970]

**Já não sei a quem atribuir esta curiosa citação sobre Esparta; talvez a Chesterton, uma vez que condiz bastante bem com o seu estilo.

 

Michel Houellebecq, Intervenções, Alfaguara, 2020, pp.373-74

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

brexit versus pigs



















Com isto de haver indígenas que acham de bem poder dizer que já viram um relógio à beira de um rio e pessoas a adormecerem sobre o seu próprio vómito de sexta à noite até à tarde de domingo e por acidente descobrirem as “Carr’s table water fabricadas em fornos de tijolos", fará sentido informá-los de que existem as “Gran Pavesi, sfoglia fragante senza olio di palma”.
Provem.
Apenas para que não esqueçam que depois de Roma os bárbaros ainda vivem do mesmo lado.
Dos franceses não sei.



Mas em princípio, com o brexit, as Carr’s ficarão fora de bolso para o indígena em vontades de ver o relógio à beira do rio. Bom para a civilização que, entre muitas outras coisas, deu as Gran Pavesi ao mundo. Ou mesmo as Vieira.

Have a nice brexit, pigs!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

excerto do manuscrito encontrado no rei das enguias

"Há duas europas: a do vinho e do azeite e a da cerveja e da manteiga. A minha é a primeira, que é a melhor das duas. A segunda é infante e bárbara. No sentido em que, à maneira do mais analfabeto imberbe, se oferece a ideia de que ‘civilização’ é qualquer coisa passível de ser confundida com a oferta de 40 marcas de iogurte no supermercado do bairro."