domingo, 7 de novembro de 2021

ir à escola no estado novo

Arrefecer as mãos

Lembro-me da minha primeira e segunda classe, do professor Pires em óculos com armação de massa e lentes escuras. Quando chegávamos pela manhã, fazíamos fila junto da sua secretária. Sentado, com a régua que um dos idiotas lhe havia oferecido nos primeiros dias de aula, ao que estava mais próximo perguntava, por exemplo “7x4?”. Se “acertava” podia sentar-se no seu lugar. Se errava, voltava para o fim da fila e assim sucessivamente até “acertar”. Eventualmente após um fatigado “1x1?

As mãos ficavam vermelhas das pancadas da régua. Rapidamente descobríamos que o frio das ilhargas em ferro forjado das nossas mesas era bom para amenizar a dor nas mãos.

Expressão plástica

Lembro-me de ficar absolutamente deslumbrado com a habilidade do professor Pires a desenhar com giz colorido uma rã sobre um tronco na ardósia do quadro. E ele também deve ter ficado, porque durante dias e dias não apagava o quadro. E era bom, porque era para lá que eu também ia durante esses dias, para o charco onde habitava aquela rã desenhada pelo professor Pires.

Era a pedagogia da educação estética.

Expressão escrita

Lembro-me também das soluções pedagógicas relativas à expressão escrita: as redações, mais tarde rebatizadas sob o nome de “composição”. Invariavelmente tinham por tema um animal doméstico. 

"A vaca"

Um dia, alguém mais temerário teve a ousadia e atrevimento de confessar ao professor que não tinha realmente nada a dizer acerca da vaca. Muito agastado, o professor lá sugeriu uma estratégia para abordar os temas: “-Então, escrevam por exemplo: ‘A vaca dá-nos o leite e a carne para a nossa alimentação. Com a pele fazem-se sapatos e sabão com os ossos’”. Em um dia menos inspirado, o professor ofereceu-nos “o bode” para tema da redação. De maneira que lá ficou também o desgraçado do bode a “dar-nos o leite para a nossa alimentação”. Lembro-me disso porque me lembro do quanto gostei de ver os meus pais na cozinha a rirem desalmadamente do que eu havia escrito.

Espantos

Lembro-me do espanto em que fiquei quando, a meio de uma manhã, uma rapariga jovem e bela entra na sala e correu a beijar e abraçar o professor Pires. O professor Pires, afinal, era mais parecido com as pessoas do que aquilo que eu alguma vez fora capaz de imaginar.

Mais tarde, já na 4ª classe, tive o professor Adelino. O professor Adelino era muito bom homem. Sempre a fumar, vez por outra, quando se lhe acabava o tabaco, mandava-me à taberna a comprar “Definitivos”. Eu ficava encantado. Às segundas-feiras, dia de feira, passava pelo senhor que vendia pomadas e tinha uma cobra numa caixa de madeira azul. Mas nunca chegava a vê-la porque sabia que o professor Adelino estava sem tabaco e eu precisava despachar-me.

O meu pai ficou muito furioso quando soube destas coisas. Mas calou-se.

Havia respeitinho naqueles tempos.












(A marca de tabaco do professor Adelino)


Os livros

Lembro-me dos livros. Foram os primeiros livros a serem meus. E eram tão extraordinariamente belos que nunca mais deixei de gostar deles. Não eram os primeiros nas minhas mãos, mas eram os primeiros a serem meus. Algumas pessoas mais zangadas lembram que nessas páginas infantes podia ler-se “Viva Salazar!” É verdade. Podia. Mas não me lembro de que isso tenha feito qualquer diferença para a minha “formação política”. Os adultos são tão tolos nestas suas convicções…

Aquilo que nos livros me interessava - a mim e aos outros - era o tentar compreender o que diziam as letras na esperança de ganharmos um melhor entendimento das ilustrações que ainda hoje nos encantam.

Quinzenalmente tinha os livros das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, um arménio prodigiosamente rico que se apaixonou por Portugal. Mas aqueles eram inexcedivelmente belos e meus.

Por um ano. Depois passavam para a minha irmã. Eram de capa dura, feitos para resistirem ao tempo. Entretanto, os livros deixaram de ser únicos.

Ninguém os guarda. São reciclados. Por causa do ambiente.

E coisas dessas.

















































(De cima para baixo: capas de livros da primeira, segunda e terceira classes. Com reedições sucessivas, estes livros escolares do Estado Novo ainda são adquiridos por todos ou quase todos aqueles que os usaram nos primeiros anos de escolaridade.)
































(As páginas dedicadas ao ensino da aritmética eram despojadas de doutrina, mas apenas uns muito poucos podiam sonhar com bicicletas.)























































                                                                                                






































(Biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian)


A escola

Era um edifício belo, bem cuidado e projetado. Virado ao sol, luminoso, com janelas amplas. E parapeitos acima do necessário para sonhar para fora, devo acrescentar…

As nossas mesas, robustas e já com alguns anos, ainda tinham os tinteiros de porcelana onde outros antes de nós molhavam os aparos para a escrita. Mas por essa altura já todos éramos obrigados a escrever com caneta de tinta permanente, o equipamento mais dispendioso que os nossos pais tinham de comprar.

Lembro-me da sala. Branca. Do soalho em madeira esfregada a sabão, dos cheiros que nos acolhiam pela manhã.  

Lembro-me do cheiro do cedro das aparas de lápis, das gravuras nas caixas de lápis Viarco. Meu deus, como eu gostava daquelas gravuras. Chegava a pensar que se eu comesse o lápis do amarelo, com sorte, podia mergulhar diretamente no mundo daqueles meninos e meninas que faziam bolhas de sabão com palhinhas.

Lembro-me dos discos de plástico às cores que poderiam ter sido usados para explicar aritmética, de todas aquelas coisas em cima e dentro dos armários com portas de vidro. Nunca o professor Pires parece ter reparado naqueles armários gordos de opulentas explicações. Ou no fogão de ferro que podia ter sido usado para amenizar o frio dos invernos.

Nunca.

Era muito bela, a minha escola.






(Diferentes modelos de edifícios escolares do Estado Novo. A arquitectura do espaço interior era definida de acordo com a separação dos sexos. A construção foi sempre de qualidade e quase sempre feita com os melhores materiais. À excepção dos edifícios mais pequenos, todas as escolas eram adornadas com o brasão nacional em pedra e, menos frequentemente, em azulejo.)



















(Os lápis de cor Viarco, os mais populares e de fabrico nacional)


Menti à minha irmã

Um ano mais nova, começou a ficar muito ansiosa quando chegou a sua vez e perguntou-me como era a escola. Via a minha tristeza e estava manifestamente apreensiva. Para a tranquilizar, por comiseração, disse-lhe que para as raparigas não era assim tão mau, bem vistas as coisas. Mas rapidamente substitui a piedade com a ideia de uma patifaria que me divertiu imenso. Disse-lhe que no caso das raparigas – sim, era tudo separado dos rapazes – até parecia ser muito divertido porque na maior parte do tempo elas brincavam com casas de bonecas e cozinhavam a fingir. Por essa altura as crianças imitavam os adultos nos seus jogos. Não sei o que aconteceu entretanto…

Como ela conseguiu conciliar a tristeza em que a escola me deixava com a festa que acabara de inventar para ela, foi coisa que me impressionou e tive alguma dificuldade em compreender. Seja como for, foi com muito entusiasmo que ela se dirigiu à escola pela primeira vez.

Profundamente aborrecida, ao fim da manhã terá interrompido abruptamente a professora para perguntar quando é começavam a brincar “com os tachinhos”. A minha irmã era muito temerária e eu admirava-a muito por essa qualidade.


Meninos e meninas

Mas sim. A escola era rapazes para um lado e raparigas para outro. Eram os mesmos edifícios, mas os sexos estavam fisicamente separados à exceção do que sucedia nas aldeias mais remotas, onde o reduzido número de alunos tornava essa separação excessivamente dispendiosa. Todos usávamos batas brancas e se havia alguma diferença entre elas, nunca me dei conta.

Na geração dos meus pais a escola era obrigatória até à terceira classe. A minha mãe tinha a terceira classe. O meu pai teve mais sorte e fez a quarta classe antes de ir trabalhar. Não porque fosse rapaz. Apenas porque teve mais sorte. No “meu tempo” já eramos obrigados a concluir a 6ª classe. Mas eu tive muito mais sorte. Apesar de ter de trabalhar ao mesmo tempo que estudava. Como a minha mãe. A minha mãe não se ficou pela terceira classe. Já adulta chegámos a estudar juntos as mesmas coisas.

Muito obviamente, nunca ninguém explicou a ninguém porque é que as raparigas deixavam a escola prematuramente. Porque era óbvio. Era assim. Para rapazes e raparigas. Precisavam trabalhar desde muito cedo, ainda crianças.

Não recordo que alguma vez algum de nós se tenha interpelado acerca da separação por sexos. Nem nos primeiros anos de escola, nem depois com a revolução em 1974, quando essa separação acabou. Achávamos que aquilo era uma “conquista”, mas a verdade era que nunca nos tínhamos incomodado com o assunto; não era a escola que nos impedia de nos encontrarmos uns com os outros. Há alguns anos, vi uma classe de jardim-de-infância numa rua de uma cidade arménia. A educadora tinha-os organizado em pequenos casalinhos e o espetáculo deixou-me profundamente comovido. Não faço a menor ideia porquê.

 



















(Reprodução das guardas do livro da terceira classe; meninos e meninas. As senhoras não devem amofinar-se; ser rapaz não era assim tão bom quanto vos possa parecer. Apenas uns muito poucos podiam dedicar-se às artes ou à pesca recreativa...)




(O Estado Novo promoveu o ensino de adultos em horários pós-laborais. Para homens e mulheres.)














(Meninos de mão dada com meninas numa rua de Vanadzor.)


Liceus e escolas técnicas

Depois da escola primária e do “ciclo preparatório”, antigas 5ª e 6ª classe e fim do ensino obrigatório, o ensino bifurcava em dois tipos de escolas: os liceus e as escolas técnicas. Os primeiros eram frequentados pelas famílias mais prósperas – filhos do regime e dos (marxistas) opositores ao regime, quase todos. As escolas técnicas eram reservadas à classe média-baixa e eram isso mesmo: ensino técnico; eletricidade, torneiros mecânicos, carpinteiros, contabilidade, técnicos agrícolas… Em ambos os casos, havia acesso ao ensino superior – gratuito ou quase gratuito para todos. Sucede que a qualificação técnica conferida pelas escolas era disputada e razoavelmente bem paga por um mercado de trabalho empobrecido por mão-de-obra emigrada em França, Alemanha, EUA e Canadá, nesses países refugiada da mais absoluta pobreza. Razão porque muito poucos dos antigos alunos das escolas técnicas continuavam estudos nas universidades. Curiosamente, por vezes verifica-se ainda a sobrevivência do vocabulário associado a esta estratificação social, com os alunos dos antigos "liceus"  - agora rebatizados como qualquer outra escola - a continuarem a designar as suas escolas como "liceus"...

Que desta diferenciação não se pense que o regime tratava menos bem os filhos dos mais humildes. Bastante pelo contrário. No que me diz respeito, recordo-me de uma escola técnica cujas instalações estariam à altura, senão acima, dos mais sofisticados e dispendiosos colégios ingleses; com ginásios guarnecidos dos melhores equipamentos, onde proliferavam as mais luxuosas madeiras exóticas provenientes das colónias, oficinas e laboratórios equipados com o que de melhor havia à época, em edifícios modernos e exemplarmente projetados onde os jardins não eram esquecidos. Em contrapartida, os filhos-família frequentavam um liceu instalado num palácio decrépito, que juntava exteriores enlameados às ruínas… Lembro-me do edifício, na encosta do castelo, mas não consegui encontrar uma única fotografia.










(A minha antiga escola técnica ainda em construção)                                                                      





















(Os mesmos edifícios recentemente requalificados)










(O edifício dedicado ao ensino de técnicas agrícolas, adjacente aos anteriores. Infelizmente os jardins não são visíveis.)

Contexto

Portugal, um dos países mais prósperos do mundo até ao século XVI, é lançado num pronunciado crepúsculo em meados do século XVII com uma crise dinástica e uma coroa partilhada com Castela, a IIIª dinastia. Oportunisticamente, o nosso mais antigo “aliado” lançou-se sobre as colónias e dizimou a nossa marinha – o grosso da “armada invencível” – colocada sob o comando de incompetentes almirantes castelhanos. Reconduzida ao reino, a coroa viria a ser ocupada pela casa de Bragança, a última e a mais medíocre de todas. A juntar a essa desgraça somaram-se várias catástrofes: (a) o terramoto de 1755 – de tal magnitude que em confronto com o positivismo viria a inspirar o Cândido de Voltaire; menos de 50 anos depois uma sucessão de (b) três invasões napoleónicas que além de sistemáticas pilhagens, vandalismo, torturas e assassinatos reduziram a população a três quartos. Expulsos os franceses em 1811 na última das invasões, completamente arruinado, em 1832 o país haveria de lançar-se numa (c) guerra civil entre “absolutistas” e “liberais” – na realidade um conflito familiar em que ambas as partes – com exércitos maioritariamente compostos por mercenários estrangeiros - foram financiadas por banqueiros ingleses que aceitaram o país como garantia dos empréstimos. Na sucessão de mais uma pulhice dos nossos “aliados”, a monarquia chega ao fim com (d) a implantação da república em 1910. Com o país completamente arruinado, a primeira república não haveria de sobreviver ao caos imposto por uma cambada de ladrões que se havia instalado no poder, significativamente piores que a monarquia que haviam substituído e enxovalhado.

Foi nesta sucessão de eventos, num contexto de ruína financeira e no mais absoluto caos político, que António de Oliveira Salazar haveria de assumir o cargo de ministro das finanças em 1928 e de instaurar aquela que viria a ser designada a 2ª república – o Estado Novo (1933-1974).  Não obstante o que a historiografia marxista gosta de fazer acreditar, o Estado Novo foi tremendamente popular durante pelo menos metade da sua longa vida. Não porque tenha imposto tremendos sacrifícios, mas porque produziu resultados, como o saneamento das finanças públicas e através da contínua invocação da sua história coletiva devolveu alguma autoestima a um povo financeiramente arruinado e humilhado pelos seus “amigos”. A partir dos anos sessenta, com a eclosão das guerras coloniais e os correspondentes milhares de mortos e estropiados (física e mentalmente), com 40% das receitas do estado afetas ao Ministério da Defesa, essa popularidade viria a dar lugar à perceção de que o regime tinha chegado ao fim. O que viria a acontecer em 1974, precisamente através de militares oriundos das guerras coloniais.

Números

Muito significativamente na primeira república de Afonso Costa, o assunto da instrução pública ficava sob a tutela do Ministério do Interior (!). Em outubro de 1910 determinou-se a extinção do ensino religioso e decretou-se que o ensino teria por fim “satisfazer ao espírito liberal e às aspirações dos sentimentos republicanos da Nação Portuguesa” (RC, 609). Muito evidentemente, o novo regime decidiu que as escolas teriam por função doutrinar os mais jovens nos “sentimentos” republicanos.

Ainda que declarando ao que vinha no que a escolas diz respeito, a 1ª república fez nada, rigorosamente nada para erradicar o analfabetismo endémico. E a historiografia marxista tem muita dificuldade em reconhecer que os governos de Salazar investiram mais do que quaisquer outros na alfabetização das populações: é algo que pode ser empiricamente constatado por qualquer pessoa que viaje pelo país – onde na mais remota aldeia pode ser visto um edifício escolar construído na época do Estado Novo. Hoje, na maior parte dos casos desativados da sua função e transformados em sede de clubes locais (de caça, de motards, de amigos da terra, de cozinha regional, etc….) ou em abandono e ruína. Mas é igualmente algo que está quantificado em trabalhos de académicos muito insuspeitos de simpatias pelo Estado Novo como Rómulo de Carvalho, autor da maior e mais completa obra sobre o ensino em Portugal: em 1910 (instauração da república) havia 271,830 crianças inscritas em escolas públicas Em 1926 (fins da 1ª república) havia 330,647 crianças inscritas. Em 1955 havia 1, 040,799 crianças e adultos inscritos em escolas públicas. (RC, p. 791). Em 1911, 79,4% das crianças com idade entre os 7 e 11 anos não tinham acesso ao ensino. Em 1955, já com uma população significativamente maior, essa percentagem era de 1,0. (RC, p. 793)

O Estado Novo e a igreja

Uma das falsas ideias mais frequentemente associadas à historia do Estado Novo é o da reciproca cumplicidade da igreja com o regime. Esta falsa ideia é induzida pelo facto de Salazar ter estudado num colégio católico – por muito tempo a solução adotada por quem não tinha meios financeiros para ir além da escolaridade obrigatória –, ter frequentado os meios católicos quando frequentava a Universidade de Coimbra e de ai ter conhecido e feito amizade com aquele que viria a ser o Patriarca de Lisboa, o Cardeal Cerejeira. Na verdade, Salazar era monárquico e católico. Contudo, quando esteve em condições políticas de o fazer, não reverteu a esmagadora maioria das ações anticlericais e jacobinas adotadas na primeira república; não devolveu o património expropriado à igreja, reiterou a laicidade do estado e apenas aceitou a indissolubilidade do casamento pela igreja. No que diz respeito ao regime, limitou-se a  aceitar a república como facto consumado, uma questão em que não fazia sentido dissipar energias e arriscar confrontos. As escolas tinham um crucifixo sobre o quadro e a educação religiosa como disciplina facultativa. E era tudo.

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Rómulo de Carvalho, “História do Ensino em Portugal – Desde a Fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano”, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 3ª ed, Lisboa, 2001

(obra referida por RC no corpo do texto)


As imagens, com uma exceção, foram reproduzidas dos seguintes lugares:

https://restosdecoleccao.blogspot.com/2012/06/ensino-primario.html

https://www.correiodoporto.pt/do-porto/os-livros-sao-perigosos

http://projectobame.blogspot.com/2019/08/escola-secundaria-d-ines-de-castro.html


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