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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

nada mudou desde 1929

“ [A] 22 de Fevereiro de 1929, em entrevista ao Diário de Notícias, Salazar diria que «para alguns, o Estado é o inimigo que não é crime defraudar, para outros, o Estado deve ser o protector da sua incapacidade e o banqueiro inesgotável da sua penúria». “

José Luís Andrade, “As Ambiguidades do 28 de Maio”, Crítica XXI, n° 7, 2024, pág. 70




quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

sentir os lugares

"Quando passamos da capital para a província, da cidade para a aldeia, do clube, da redação de um jornal, de um salão para o campo, para a fábrica, para a oficina, o horizonte das realidades sociais amplia-se diante do nosso olhar e temos então uma impressão muito diferente do que é uma nação" *

Curiosamente sempre senti exactamente isso acerca dos lugares. Nas minhas viagens tenho sempre como programa as aldeias sobre as cidades e procuro sempre um mercado, um local de lazer e um cemitério.
Os grandes monumentos têm filas de espera, sol, chuva, moscas ou ingleses. De uma maneira geral são incomparavelmente mais belos quando vistos em conforto e no detalhe que o papel couchê pode oferecer.
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* Salazar em citação inderecta de Yves Léonard em "Salazar - Biografia", ed. 70, 2023, pp.58-59

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

salazar, a pobreza e os indígenas de acordo com yves léonard

Uma das minhas memórias mais recuadas - que não deverá ser muito posterior aos meus primeiros passos -, é a ilustrada nas fotos. Recordo-me como se fosse hoje do espanto em que fiquei com estes “buracos”. Não percebia como poderiam ter sido feitos e não percebia como alguém os poderia ter feito intencionalmente, na renda deslumbrante daquelas pedras. Só muito mais tarde o soube, não sei se pela minha mãe.
Nem sequer ponho a hipótese de que sejam resultado de ímpeto jacobino: são pura barbárie. Na pressa de chegar a um tesouro imaginado, foram de marreta, sem vagar para afastar a pedra de cobertura.
Vem esta evocação a propósito de duas linhas do senhor léonard na pág. 25 da sua biografia de Salazar: “O rio Dão corre pelo meio da povoação e há uma ponte, construída em 1810 pelos soldados do Marechal Masséna durante a terceira vaga da invasão francesa, que parou nas linhas de Torres Vedras graças à tenacidade de Arthur Wellesley, duque de Wellington”
Ora, a ponte a que este cavalheiro se refere julgo só poder ser a ponte de origem romana parcialmente destruída precisamente por Massena em 1810 aquando da terceira das invasões francesas (se laboro nalguma espécie de equívoco, rogo correcção)
Terão certamente reparado que para o autor da biografia, quem parou a terceira das invasões – das duas primeiras não reza a história… - foi a “tenacidade” do “duque de Wellington”. Os indígenas ficaram certamente numa qualquer bancada a admirar a “tenacidade” do duque, razão porque serão indignos de se figurarem como opositores ao grande marechal massena. O duque que por aqui ficou sem ser convidado, abichando nove partes em cada dez do que os sobreviventes iam conseguindo fazer. A título de compensação... Para pagar às tropas do amigo duque que providenciaram proteção do indígena à fuga do “marechal” e seus mercenários que daqui foram com o respectivo saque. Tudo isto deve ter sido assim porque a história é contada exactamente assim também pelos nossos “aliados” ingleses.

Não sei de rigorosamente nada que os franceses tenham construído em Portugal. 
Alguém sabe? 
Sei apenas das imensas coisas que destruíram, queimaram, vandalizaram por todo o sítio em que pisaram. Mataram, assassinaram e deixaram-nos – directa ou indirectamente, a ferro ou à fome - em qualquer coisa entre dois terços e metade do que éramos. Não há maneira de saber ao certo porque a primeira coisa que faziam os compatriotas do senhor léonard quando chegavam a uma povoação era queimar os assentos de nascimento nas igrejas. Mais uma vez, não sei se por ímpeto jacobino, cuidado a que não creio que a militância os obrigasse, se para ocultar a mortandade. De certo, sei que lhes escapou o livro de assentamento dos baptismos na matriz da Marinha Grande. Lugar de onde se pode estimar a mortandade em dois terços da população.
Mais tarde, alguns portugueses tentaram mitigar a miséria em que foram deixados construindo e limpando as casas dos compatriotas do senhor léonard. Ao mesmo tempo que iam dormir às bidonvilles. Por cá, os mais abonados aprendiam o francês que lhes valia quando fugiam à tropa. Embora uns e outros fossem e sejam olhados com igual desprezo pelos seus compatriotas...
Os nossos historiadores profissionais devem-nos uma explicação das desgraças que concorrem para a compreensão da incomensurável pobreza em que Salazar nos apanhou - além dos braganças, dos nossos “aliados” e do terramoto. E do ”El-Rei Junot” de Brandão, do que de raspão foi escrito por Vasco Pulido Valente et al.
Alguma destas coisas compromete o rigor do que o senhor léonard escreveu acerca de Salazar e ainda não li? Claro que não.
Mas… se o senhor léonard se consente esta espécie de fantasias a propósito de um compatriota tão recuado como o marechal massena, como é que posso ficar tranquilo em relação ao que ainda não li e me foi recomendado por Sérgio Sousa Pinto?




motto

Sérgio de Sousa Pinto recomendou um destes dias a leitura de “Salazar – Biografia” de Yves Léonard (ed. 70, 2023).
Ainda agora a chegar ao Vimieiro (pág. 19), já passei pelo motto em página dedicada, logo a seguir à folha de rosto: “Nada é mais desprezível do que o respeito fundado no medo.” Albert Camus.
Para princípio de biografia dificilmente se poderia dar notícia de um programa de maneira mais sucinta.
Se tiver paciência, depois conto do que li.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

grosseiras equivalências

“[…A]lguns intelectuais conservadores têm namorado a ideia de um governo abertamente autoritário. O professor de Direito em Harvard Adrian Vermeule, por exemplo, tem argumentado a favor daquilo a que chama o ‘constitucionalismo do bem comum’:

Esta abordagem deve tomar como ponto de partida os princípios morais substantivos que conduzam ao bem comum, princípios que os agentes oficiais (incluindo, mas de maneira nenhuma limitando-se aos juízes), deveriam retirar das generalidades e ambiguidades inscritas majestosamente no texto da Constituição. Estes princípios incluem o respeito pela autoridade da governação e do governo; o respeito pelas hierarquias necessárias para o funcionamento da sociedade [...].

 

O autor passa depois a defender que o principal objetivo do constitucionalismo do bem comum «não é certamente maximizar a autonomia individual ou minimizar o abuso do poder (um objetivo que, em qualquer caso, é incoerente), mas antes garantir que quem governa tem o poder necessário para governar bem» 6. Alguns autores conservadores têm sugerido que o húngaro Viktor Orbán ou o antigo ditador português, António de Oliveira Salazar, podiam servir de modelo para futuros líderes americanos.7 Na extrema-direita, tem havido um namoro com a violência como meio de travar o progressismo.

6 Vermeule (2020). Ver também Laura K. Field, “What the Hell Happened to the Claremont Institute?”, The Bulwark (13 de julho de 2021).
7 Yoram Hazony, The Virtue of Nationalism (Nova Iorque: Basic Books, 2018)"


Francis Fukuyama, Liberalismo e seus descontentes, Dom Quixote, 2022, pp. 137-38

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Que em universidades respeitáveis se comece a fazer equivaler Orbán a Salazar é bem ilustrativo do estado de coisas a que chegámos. Porque esta equivalência não tem nada de séria, mesmo para o antissalazarista mais assanhado. Enquanto o primeiro não passa de um populista sem escrúpulos que acha que os húngaros precisam ser defendidos de uma conspiração judaica patrocinada por Soros - e, não por acaso, também tem um amigo com muito dinheiro -, o segundo foi ridicularizado pela ascese e julgou-se investido do dever de salvar as massas de si mesmas.

De facto, de um modo cada vez mais perturbante nas limitações que põem a nu, mais ou menos por todo o lado, alguns “descontentes do liberalismo” parecem enlevar-se muito irrefletidamente com criaturas monstruosas como Orban e Trump. E fazer algumas grosseiras equivalências.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

o anfitrião e o convidado



Boto aqui esta redação, um pouco fora de estação, mas para vosso benefício.

Comecemos por este último. Não interessa agora quem o apoiou e a quem obedece na sua fulgurante carreira de cómico que se transmuta em político. Porque nem sequer é muito original nessa metamorfose. E quem chegou a sentir realmente alguma curiosidade pelo assunto, já teve várias oportunidades para a satisfazer.

Vamos diretamente ao assunto que o traz convidado: a solidariedade do parlamento português para com o modo como vem lidando com a violência que a Federação Russa, à revelia do direito internacional, vem impondo ao povo ucraniano.

Não pude assistir ao encontro virtual no parlamento e não senti entretanto a menor curiosidade para confirmar o pretexto do convite, mas terá sido mais ou menos esse. Aparentemente, o momento alto da coisa terá sido a ausência dos deputados do PCP. Isto a ajuizar pelo ruído que se fez à volta dessa ausência. Uma ausência que – apresso-me a esclarecer – é inteiramente compreensível: entre os onze partidos proibidos na democracia à moda do convidado, pelo menos metade deles pertencem à família política do PCP, um partido que entre nós beneficia de todo o respeito e consideração, sobretudo quando honra as alianças com as pessoas do bem. Como se sabe. Mas nem sequer o PCP fala do ameno convívio que o convidado mantem com o Svoboda no democrático parlamento nascido da “Revolução da Dignidade”. Que depôs o democraticamente eleito Yanukovych. Como já todos percebemos, os “aliados” são sempre muito poéticos e inspirados na hora de batizar estas “revoluções democráticas”…

Mas não, não, não me dou à enorme fadiga de rabiscar isto para mencionar ninharias destas. De que ninguém quer saber, tantas que são. E não vamos falar da guerra civil que, desde 2014, as autoridades saídas da “Revolução da Dignidade” vêm impondo nas zonas do território ucraniano habitadas por populações de maioria russa. Ou de saber porque os edifícios esventrados e as vidas destruídas desde então não vêm sendo notícia ilustrada ou comentada nas televisões.

Não, não. Vamos diretamente ao assunto que levou ao vigoroso aplauso dos nossos valentes parlamentares: a solidariedade com a resistência de Zelensky e da democracia ucraniana ao invasor russo.

Pode ser? Podemos especular acerca dos méritos dessa resistência?
Bom, então com licença. Começo com uma pergunta:
Lembram-se vossas senhorias do general Vassalo e Silva?
Eu também não. Acho que nem sabia andar quando se veio a saber dele.

E só vim a saber muitos anos depois, quando começaram a falar-me da maldade do doutor Salazar, um louco tão perigoso e mau quanto o senhor Putin.
E de que modo é que as pessoas do bem serviam esse propósito ao ir buscar o general?
Assim: o doutor Salazar ordenou que o senhor general se matasse.
E que de caminho fizesse outro tanto com a pequena guarnição de 3300 homens que o doutor Salazar lhe havia orçamentado.

Em 1961, o doutor Salazar exigiu que, na defesa de Goa, Damão e Diu, estas 3301 almas - com quase mais nada, senão paus e pedras - se imolassem no confronto com o exército “invasor” de 45000 homens da União Indiana. O senhor general lá deve ter pensado no assunto. Pensou, pensou, e ao fim de 36 horas concluiu que estava vivo e ainda era cedo para estar morto. Pelo menos tanto quanto a rapaziada mais nova que estava sob o seu comando.

E cometeu o delito de desobedecer ao doutor Salazar. Confrontados com a desproporção de forças e meios, é perfeitamente normal concluirmos pela razoabilidade de uma desobediência que não oferece qualquer desonra. Por muito austera que fosse a vida em São Bento a honra era algo que o doutor Salazar poderia experimentar com menos sobressaltos.

Vossas senhorias vão já pôr-se a guinchar que isto não tem nada a ver.
Mas tem. Tem tudo a ver. Até nas palavras.

Por exemplo: a esta operação militar os portugueses chamaram “invasão de Goa”. Já os indianos preferiram referir-se-lhe por “libertação de Goa”. Fosse o que fosse, o senhor general Vassalo e Silva foi confrontado com a necessidade de tomar uma decisão militar e decidiu-se pela rendição. E creio que só um feroz salazarista poderá achar que Vassalo e Silva decidiu mal.

Já no caso do ex-pianista Zelensky, em circunstâncias absolutamente idênticas no que se refere à desproporção de forças e meios, acha-se valor na decisão de resistir ainda que com ela não pareça arriscar a vida. Ao contrário do que infelizmente sucede com milhares dos seus concidadãos.

Eventualmente duvidarão de mim quando falo nesta desproporção, habituados que já estão a ouvir os comentários do senhor Rogeiro, um homem que deve ter tido uma infância muito serena a arrumar as roupinhas do Action Man em caixas de sapatos. Apenas sugiro que oiçam militares a sério neste assunto: não sei de um único que não reconheça as desproporções que menciono e a consequente improbabilidade ou impossibilidade de uma vitória do exército ucraniano. Como já disseram muitos, Zelensky faz uma guerra por procuração.
E assim sendo vão certamente perdoar-me a bigorna da lógica: os senhores deputados são a modos que um bocadinho salazaristas quando felicitam Zelensky na honra de resistir.

E para aqui a falar em honra, quase me esquecia do augusto anfitrião. Antes de ser o que agora quis ser, pertence lembrar os muito esquecidos que o doutor silva era ministro dos assuntos parlamentares do 44 quando, em Julho de 2008, o governo português “ [considerava a] Líbia um parceiro estratégico para Portugal”. Numa atmosfera de imensas “fotocópias” e de negócios “Lino & Pino”, na bonacheira descrição de Hugo Chávez.

Na sequência dos bombardeamentos da OTAN na Líbia - em apoio de uma revolução “espontânea” e de mais um acaso – a coincidência com as cogitações que o senhor Kadafi deu de fazer acerca do petrodólar… -, em março de 2011, já na qualidade de ministro da defesa, o doutor silva fazia saber que Portugal critica[va] o regime de Kadafi e não nega[va] participação em missão da NATO :“o mundo deve ser 'muito claro' na condenação ao regime líbio de Muammar Kadafi”. Porventura inspirado pelos ventos que lhe eram soprados pela “primavera” tunisina.
Sem a menor dúvida, com a falta de pudor e cinismo desta criatura, foi a ocasião em que me senti mais envergonhado com a desonra da política externa do meu país … Em outubro de 2011, Kadafi seria assassinado em Sirte, à saída do esgoto em que o apanharam.

E é mais ou menos isto o que tenho a dizer sobre o tema. É tarde e já deve dar no mínimo para um suficiente menos.
Se ainda houver justiça neste mundo.

domingo, 7 de novembro de 2021

ir à escola no estado novo

Arrefecer as mãos

Lembro-me da minha primeira e segunda classe, do professor Pires em óculos com armação de massa e lentes escuras. Quando chegávamos pela manhã, fazíamos fila junto da sua secretária. Sentado, com a régua que um dos idiotas lhe havia oferecido nos primeiros dias de aula, ao que estava mais próximo perguntava, por exemplo “7x4?”. Se “acertava” podia sentar-se no seu lugar. Se errava, voltava para o fim da fila e assim sucessivamente até “acertar”. Eventualmente após um fatigado “1x1?

As mãos ficavam vermelhas das pancadas da régua. Rapidamente descobríamos que o frio das ilhargas em ferro forjado das nossas mesas era bom para amenizar a dor nas mãos.

Expressão plástica

Lembro-me de ficar absolutamente deslumbrado com a habilidade do professor Pires a desenhar com giz colorido uma rã sobre um tronco na ardósia do quadro. E ele também deve ter ficado, porque durante dias e dias não apagava o quadro. E era bom, porque era para lá que eu também ia durante esses dias, para o charco onde habitava aquela rã desenhada pelo professor Pires.

Era a pedagogia da educação estética.

Expressão escrita

Lembro-me também das soluções pedagógicas relativas à expressão escrita: as redações, mais tarde rebatizadas sob o nome de “composição”. Invariavelmente tinham por tema um animal doméstico. 

"A vaca"

Um dia, alguém mais temerário teve a ousadia e atrevimento de confessar ao professor que não tinha realmente nada a dizer acerca da vaca. Muito agastado, o professor lá sugeriu uma estratégia para abordar os temas: “-Então, escrevam por exemplo: ‘A vaca dá-nos o leite e a carne para a nossa alimentação. Com a pele fazem-se sapatos e sabão com os ossos’”. Em um dia menos inspirado, o professor ofereceu-nos “o bode” para tema da redação. De maneira que lá ficou também o desgraçado do bode a “dar-nos o leite para a nossa alimentação”. Lembro-me disso porque me lembro do quanto gostei de ver os meus pais na cozinha a rirem desalmadamente do que eu havia escrito.

Espantos

Lembro-me do espanto em que fiquei quando, a meio de uma manhã, uma rapariga jovem e bela entra na sala e correu a beijar e abraçar o professor Pires. O professor Pires, afinal, era mais parecido com as pessoas do que aquilo que eu alguma vez fora capaz de imaginar.

Mais tarde, já na 4ª classe, tive o professor Adelino. O professor Adelino era muito bom homem. Sempre a fumar, vez por outra, quando se lhe acabava o tabaco, mandava-me à taberna a comprar “Definitivos”. Eu ficava encantado. Às segundas-feiras, dia de feira, passava pelo senhor que vendia pomadas e tinha uma cobra numa caixa de madeira azul. Mas nunca chegava a vê-la porque sabia que o professor Adelino estava sem tabaco e eu precisava despachar-me.

O meu pai ficou muito furioso quando soube destas coisas. Mas calou-se.

Havia respeitinho naqueles tempos.












(A marca de tabaco do professor Adelino)


Os livros

Lembro-me dos livros. Foram os primeiros livros a serem meus. E eram tão extraordinariamente belos que nunca mais deixei de gostar deles. Não eram os primeiros nas minhas mãos, mas eram os primeiros a serem meus. Algumas pessoas mais zangadas lembram que nessas páginas infantes podia ler-se “Viva Salazar!” É verdade. Podia. Mas não me lembro de que isso tenha feito qualquer diferença para a minha “formação política”. Os adultos são tão tolos nestas suas convicções…

Aquilo que nos livros me interessava - a mim e aos outros - era o tentar compreender o que diziam as letras na esperança de ganharmos um melhor entendimento das ilustrações que ainda hoje nos encantam.

Quinzenalmente tinha os livros das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, um arménio prodigiosamente rico que se apaixonou por Portugal. Mas aqueles eram inexcedivelmente belos e meus.

Por um ano. Depois passavam para a minha irmã. Eram de capa dura, feitos para resistirem ao tempo. Entretanto, os livros deixaram de ser únicos.

Ninguém os guarda. São reciclados. Por causa do ambiente.

E coisas dessas.

















































(De cima para baixo: capas de livros da primeira, segunda e terceira classes. Com reedições sucessivas, estes livros escolares do Estado Novo ainda são adquiridos por todos ou quase todos aqueles que os usaram nos primeiros anos de escolaridade.)
































(As páginas dedicadas ao ensino da aritmética eram despojadas de doutrina, mas apenas uns muito poucos podiam sonhar com bicicletas.)























































                                                                                                






































(Biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian)


A escola

Era um edifício belo, bem cuidado e projetado. Virado ao sol, luminoso, com janelas amplas. E parapeitos acima do necessário para sonhar para fora, devo acrescentar…

As nossas mesas, robustas e já com alguns anos, ainda tinham os tinteiros de porcelana onde outros antes de nós molhavam os aparos para a escrita. Mas por essa altura já todos éramos obrigados a escrever com caneta de tinta permanente, o equipamento mais dispendioso que os nossos pais tinham de comprar.

Lembro-me da sala. Branca. Do soalho em madeira esfregada a sabão, dos cheiros que nos acolhiam pela manhã.  

Lembro-me do cheiro do cedro das aparas de lápis, das gravuras nas caixas de lápis Viarco. Meu deus, como eu gostava daquelas gravuras. Chegava a pensar que se eu comesse o lápis do amarelo, com sorte, podia mergulhar diretamente no mundo daqueles meninos e meninas que faziam bolhas de sabão com palhinhas.

Lembro-me dos discos de plástico às cores que poderiam ter sido usados para explicar aritmética, de todas aquelas coisas em cima e dentro dos armários com portas de vidro. Nunca o professor Pires parece ter reparado naqueles armários gordos de opulentas explicações. Ou no fogão de ferro que podia ter sido usado para amenizar o frio dos invernos.

Nunca.

Era muito bela, a minha escola.






(Diferentes modelos de edifícios escolares do Estado Novo. A arquitectura do espaço interior era definida de acordo com a separação dos sexos. A construção foi sempre de qualidade e quase sempre feita com os melhores materiais. À excepção dos edifícios mais pequenos, todas as escolas eram adornadas com o brasão nacional em pedra e, menos frequentemente, em azulejo.)



















(Os lápis de cor Viarco, os mais populares e de fabrico nacional)


Menti à minha irmã

Um ano mais nova, começou a ficar muito ansiosa quando chegou a sua vez e perguntou-me como era a escola. Via a minha tristeza e estava manifestamente apreensiva. Para a tranquilizar, por comiseração, disse-lhe que para as raparigas não era assim tão mau, bem vistas as coisas. Mas rapidamente substitui a piedade com a ideia de uma patifaria que me divertiu imenso. Disse-lhe que no caso das raparigas – sim, era tudo separado dos rapazes – até parecia ser muito divertido porque na maior parte do tempo elas brincavam com casas de bonecas e cozinhavam a fingir. Por essa altura as crianças imitavam os adultos nos seus jogos. Não sei o que aconteceu entretanto…

Como ela conseguiu conciliar a tristeza em que a escola me deixava com a festa que acabara de inventar para ela, foi coisa que me impressionou e tive alguma dificuldade em compreender. Seja como for, foi com muito entusiasmo que ela se dirigiu à escola pela primeira vez.

Profundamente aborrecida, ao fim da manhã terá interrompido abruptamente a professora para perguntar quando é começavam a brincar “com os tachinhos”. A minha irmã era muito temerária e eu admirava-a muito por essa qualidade.


Meninos e meninas

Mas sim. A escola era rapazes para um lado e raparigas para outro. Eram os mesmos edifícios, mas os sexos estavam fisicamente separados à exceção do que sucedia nas aldeias mais remotas, onde o reduzido número de alunos tornava essa separação excessivamente dispendiosa. Todos usávamos batas brancas e se havia alguma diferença entre elas, nunca me dei conta.

Na geração dos meus pais a escola era obrigatória até à terceira classe. A minha mãe tinha a terceira classe. O meu pai teve mais sorte e fez a quarta classe antes de ir trabalhar. Não porque fosse rapaz. Apenas porque teve mais sorte. No “meu tempo” já eramos obrigados a concluir a 6ª classe. Mas eu tive muito mais sorte. Apesar de ter de trabalhar ao mesmo tempo que estudava. Como a minha mãe. A minha mãe não se ficou pela terceira classe. Já adulta chegámos a estudar juntos as mesmas coisas.

Muito obviamente, nunca ninguém explicou a ninguém porque é que as raparigas deixavam a escola prematuramente. Porque era óbvio. Era assim. Para rapazes e raparigas. Precisavam trabalhar desde muito cedo, ainda crianças.

Não recordo que alguma vez algum de nós se tenha interpelado acerca da separação por sexos. Nem nos primeiros anos de escola, nem depois com a revolução em 1974, quando essa separação acabou. Achávamos que aquilo era uma “conquista”, mas a verdade era que nunca nos tínhamos incomodado com o assunto; não era a escola que nos impedia de nos encontrarmos uns com os outros. Há alguns anos, vi uma classe de jardim-de-infância numa rua de uma cidade arménia. A educadora tinha-os organizado em pequenos casalinhos e o espetáculo deixou-me profundamente comovido. Não faço a menor ideia porquê.

 



















(Reprodução das guardas do livro da terceira classe; meninos e meninas. As senhoras não devem amofinar-se; ser rapaz não era assim tão bom quanto vos possa parecer. Apenas uns muito poucos podiam dedicar-se às artes ou à pesca recreativa...)




(O Estado Novo promoveu o ensino de adultos em horários pós-laborais. Para homens e mulheres.)














(Meninos de mão dada com meninas numa rua de Vanadzor.)


Liceus e escolas técnicas

Depois da escola primária e do “ciclo preparatório”, antigas 5ª e 6ª classe e fim do ensino obrigatório, o ensino bifurcava em dois tipos de escolas: os liceus e as escolas técnicas. Os primeiros eram frequentados pelas famílias mais prósperas – filhos do regime e dos (marxistas) opositores ao regime, quase todos. As escolas técnicas eram reservadas à classe média-baixa e eram isso mesmo: ensino técnico; eletricidade, torneiros mecânicos, carpinteiros, contabilidade, técnicos agrícolas… Em ambos os casos, havia acesso ao ensino superior – gratuito ou quase gratuito para todos. Sucede que a qualificação técnica conferida pelas escolas era disputada e razoavelmente bem paga por um mercado de trabalho empobrecido por mão-de-obra emigrada em França, Alemanha, EUA e Canadá, nesses países refugiada da mais absoluta pobreza. Razão porque muito poucos dos antigos alunos das escolas técnicas continuavam estudos nas universidades. Curiosamente, por vezes verifica-se ainda a sobrevivência do vocabulário associado a esta estratificação social, com os alunos dos antigos "liceus"  - agora rebatizados como qualquer outra escola - a continuarem a designar as suas escolas como "liceus"...

Que desta diferenciação não se pense que o regime tratava menos bem os filhos dos mais humildes. Bastante pelo contrário. No que me diz respeito, recordo-me de uma escola técnica cujas instalações estariam à altura, senão acima, dos mais sofisticados e dispendiosos colégios ingleses; com ginásios guarnecidos dos melhores equipamentos, onde proliferavam as mais luxuosas madeiras exóticas provenientes das colónias, oficinas e laboratórios equipados com o que de melhor havia à época, em edifícios modernos e exemplarmente projetados onde os jardins não eram esquecidos. Em contrapartida, os filhos-família frequentavam um liceu instalado num palácio decrépito, que juntava exteriores enlameados às ruínas… Lembro-me do edifício, na encosta do castelo, mas não consegui encontrar uma única fotografia.










(A minha antiga escola técnica ainda em construção)                                                                      





















(Os mesmos edifícios recentemente requalificados)










(O edifício dedicado ao ensino de técnicas agrícolas, adjacente aos anteriores. Infelizmente os jardins não são visíveis.)

Contexto

Portugal, um dos países mais prósperos do mundo até ao século XVI, é lançado num pronunciado crepúsculo em meados do século XVII com uma crise dinástica e uma coroa partilhada com Castela, a IIIª dinastia. Oportunisticamente, o nosso mais antigo “aliado” lançou-se sobre as colónias e dizimou a nossa marinha – o grosso da “armada invencível” – colocada sob o comando de incompetentes almirantes castelhanos. Reconduzida ao reino, a coroa viria a ser ocupada pela casa de Bragança, a última e a mais medíocre de todas. A juntar a essa desgraça somaram-se várias catástrofes: (a) o terramoto de 1755 – de tal magnitude que em confronto com o positivismo viria a inspirar o Cândido de Voltaire; menos de 50 anos depois uma sucessão de (b) três invasões napoleónicas que além de sistemáticas pilhagens, vandalismo, torturas e assassinatos reduziram a população a três quartos. Expulsos os franceses em 1811 na última das invasões, completamente arruinado, em 1832 o país haveria de lançar-se numa (c) guerra civil entre “absolutistas” e “liberais” – na realidade um conflito familiar em que ambas as partes – com exércitos maioritariamente compostos por mercenários estrangeiros - foram financiadas por banqueiros ingleses que aceitaram o país como garantia dos empréstimos. Na sucessão de mais uma pulhice dos nossos “aliados”, a monarquia chega ao fim com (d) a implantação da república em 1910. Com o país completamente arruinado, a primeira república não haveria de sobreviver ao caos imposto por uma cambada de ladrões que se havia instalado no poder, significativamente piores que a monarquia que haviam substituído e enxovalhado.

Foi nesta sucessão de eventos, num contexto de ruína financeira e no mais absoluto caos político, que António de Oliveira Salazar haveria de assumir o cargo de ministro das finanças em 1928 e de instaurar aquela que viria a ser designada a 2ª república – o Estado Novo (1933-1974).  Não obstante o que a historiografia marxista gosta de fazer acreditar, o Estado Novo foi tremendamente popular durante pelo menos metade da sua longa vida. Não porque tenha imposto tremendos sacrifícios, mas porque produziu resultados, como o saneamento das finanças públicas e através da contínua invocação da sua história coletiva devolveu alguma autoestima a um povo financeiramente arruinado e humilhado pelos seus “amigos”. A partir dos anos sessenta, com a eclosão das guerras coloniais e os correspondentes milhares de mortos e estropiados (física e mentalmente), com 40% das receitas do estado afetas ao Ministério da Defesa, essa popularidade viria a dar lugar à perceção de que o regime tinha chegado ao fim. O que viria a acontecer em 1974, precisamente através de militares oriundos das guerras coloniais.

Números

Muito significativamente na primeira república de Afonso Costa, o assunto da instrução pública ficava sob a tutela do Ministério do Interior (!). Em outubro de 1910 determinou-se a extinção do ensino religioso e decretou-se que o ensino teria por fim “satisfazer ao espírito liberal e às aspirações dos sentimentos republicanos da Nação Portuguesa” (RC, 609). Muito evidentemente, o novo regime decidiu que as escolas teriam por função doutrinar os mais jovens nos “sentimentos” republicanos.

Ainda que declarando ao que vinha no que a escolas diz respeito, a 1ª república fez nada, rigorosamente nada para erradicar o analfabetismo endémico. E a historiografia marxista tem muita dificuldade em reconhecer que os governos de Salazar investiram mais do que quaisquer outros na alfabetização das populações: é algo que pode ser empiricamente constatado por qualquer pessoa que viaje pelo país – onde na mais remota aldeia pode ser visto um edifício escolar construído na época do Estado Novo. Hoje, na maior parte dos casos desativados da sua função e transformados em sede de clubes locais (de caça, de motards, de amigos da terra, de cozinha regional, etc….) ou em abandono e ruína. Mas é igualmente algo que está quantificado em trabalhos de académicos muito insuspeitos de simpatias pelo Estado Novo como Rómulo de Carvalho, autor da maior e mais completa obra sobre o ensino em Portugal: em 1910 (instauração da república) havia 271,830 crianças inscritas em escolas públicas Em 1926 (fins da 1ª república) havia 330,647 crianças inscritas. Em 1955 havia 1, 040,799 crianças e adultos inscritos em escolas públicas. (RC, p. 791). Em 1911, 79,4% das crianças com idade entre os 7 e 11 anos não tinham acesso ao ensino. Em 1955, já com uma população significativamente maior, essa percentagem era de 1,0. (RC, p. 793)

O Estado Novo e a igreja

Uma das falsas ideias mais frequentemente associadas à historia do Estado Novo é o da reciproca cumplicidade da igreja com o regime. Esta falsa ideia é induzida pelo facto de Salazar ter estudado num colégio católico – por muito tempo a solução adotada por quem não tinha meios financeiros para ir além da escolaridade obrigatória –, ter frequentado os meios católicos quando frequentava a Universidade de Coimbra e de ai ter conhecido e feito amizade com aquele que viria a ser o Patriarca de Lisboa, o Cardeal Cerejeira. Na verdade, Salazar era monárquico e católico. Contudo, quando esteve em condições políticas de o fazer, não reverteu a esmagadora maioria das ações anticlericais e jacobinas adotadas na primeira república; não devolveu o património expropriado à igreja, reiterou a laicidade do estado e apenas aceitou a indissolubilidade do casamento pela igreja. No que diz respeito ao regime, limitou-se a  aceitar a república como facto consumado, uma questão em que não fazia sentido dissipar energias e arriscar confrontos. As escolas tinham um crucifixo sobre o quadro e a educação religiosa como disciplina facultativa. E era tudo.

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Rómulo de Carvalho, “História do Ensino em Portugal – Desde a Fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano”, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 3ª ed, Lisboa, 2001

(obra referida por RC no corpo do texto)


As imagens, com uma exceção, foram reproduzidas dos seguintes lugares:

https://restosdecoleccao.blogspot.com/2012/06/ensino-primario.html

https://www.correiodoporto.pt/do-porto/os-livros-sao-perigosos

http://projectobame.blogspot.com/2019/08/escola-secundaria-d-ines-de-castro.html


sábado, 17 de agosto de 2019

"A notícia de que, em meados de Dezembro, Salazar tinha discutido com Jorge Jardim o estado das relações com o Malawi gerou uma pequena onda de pânico em círculos governamentais. Cumprindo ordens de Tomás, quando Salazar saiu do seu coma não foi informado de que tinha sido substituído por Caetano. Em Maio de 1969, Tomás pediu ao médico amigo de Salazar, Bissaia Barreto, para informar Salazar da mudança; Bissaia pediu a D. Maria para o fazer; D. Maria, em pranto, confessou a Eduardo Coelho que não era capaz de fazer semelhante coisa. Ele concordou e o faz-de-conta prosseguiu."

Filipe Ribeiro Meneses, Salazar - Uma biografia política, Ed. D. Quixote, 2010, p. 634

domingo, 7 de julho de 2019

salazar e os ingleses

“Todos nós fomos educados na tese de que a independência e integridade de Portugal são dádiva gratuita da Inglaterra, pois o país não tem condições de vida livre. Ainda que esta doutrina fosse tese histórica inegável, deveríamos considerá-la politicamente errada. A verdade política deve reivindicar para a Nação a base suficiente de independência efectiva. Esta não se afirma só em frases, mas em actos e oportunidades devidas.
Sei que a doutrina que defendo não conquistou ainda a massa de Portugal. Parte confunde ainda consciência nacional e interesse nacional com o puro servilismo pró-britânico, por inércia, por comodidade e cobardia.”

António de Oliveira Salazar citado por Filipe Ribeiro de Menezes em “Salazar – Uma biografia política”, ed. D. Quixote, 2010, p. 319

sábado, 6 de julho de 2019

diplomacia

Ao mesmo tempo que pretendia fazer valer a Portugal o estatuto de neutralidade durante a 2.ª Guerra Mundial – que entre outras coisas lhe permitia vender volfrâmio a ambas as partes e ao melhor preço-, Salazar esgotou todas as hipóteses de empatar a “anuência” à pretensão dos aliados em fazer uso dos Açores como base militar. Em finais de 1943 assinou um acordo para essa utilização. Perante os protestos de Huene (embaixador alemão em Lisboa), justificou-se nos seguintes termos:

('Na vastidão de áreas e complexidade de condições em que se desenrola a luta, a violação, mesmo com carácter permanente de um dever ou direito de neutro confinada a determinado espaço limitado não importa forçosamente e de facto não tem importado, a negação da qualidade de neutro do país em causa.') [Esta reação deixou] Huene mais perplexo do que nunca. Confessou a Teixeira de Sampaio que traduzi-la para alemão se revelara tão difícil que recorrera aos préstimos de um professor de línguas modernas para o ajudar.”*

*Filipe Ribeiro de Menezes em “Salazar – Uma biografia política”, ed. D. Quixote, 2010, pp. 311-312

terça-feira, 2 de julho de 2019


“Os pais mandam os filhos para as creches e asilos; os filhos internam os pais, e os irmãos dividem-se por sanatórios e casas de saúde. E tudo isto sabe porquê? Porque a humanidade, acobardada, teme o espectáculo da dor! E procura afastá-lo dos olhos por todos os meios, como se a vida não fosse, também, sofrimento e não nos impusesse o dever de acarinhar, pessoalmente, os que sofrem […]. Mandam-se os doentes sistematicamente para os hospitais para se poder continuar a ir, à noite, ao cinema! […]”

António de Oliveira Salazar em entrevista com data de 1935, citada por Filipe Ribeiro de Menezes em “Salazar – Uma biografia política”, ed. D. Quixote, 2010, p. 192