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sábado, 1 de outubro de 2022

porque é que os líderes europeus ainda não repararam?

"São poucas as mentes ocidentais mais proeminentes que parecem ter consciência desta fulgurante melhoria nas condições de vida durante as últimas três décadas. Se têm consciência, não estão muito focadas no assunto. O Ocidente necessita de proceder a uma profunda autorreflexão. Ao fazê-lo, conseguirá ver com maior clareza o porquê de ter de mudar de rumo e o modo como o deverá fazer, se quiser permanecer seguro e próspero no século xxi. Como escreveu George Orwell: «Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante.»

A autorreflexão honesta nunca é fácil. Enquanto estudioso amador de psicologia, aprendi desde muito novo o quão dominante pode ser a autoilusão. Para nos libertarmos da tendência natural de nos enganarmos a nós mesmos, temos de lidar com verdades dolorosas e desconfortáveis. Por exemplo, poucos ocidentais reconhecem abertamente uma palavra-chave que explica o modo como o Ocidente se perdeu após o final da Guerra Fria: «húbris».

Enquanto se regozijavam perante a sua grande vitória sobre a União Soviética, os líderes ocidentais desligaram todos os sinais de alarme que os poderiam ter alertado relativamente a outras mudanças significativas. Esta é, para todos os efeitos, a resposta humana natural face a uma grande vitória. O ensaio de Fukuyama, «O Fim da História?», provocou muitos danos cerebrais no Ocidente. Forneceu o ópio para justificar uma estratégia complacente em piloto automático no preciso momento em que o Ocidente deveria ter ligado os seus motores competitivos. Para clarificar este ponto, permitam-me avançar com uma breve versão da história pós-Segunda Guerra Mundial que nenhum dos maiores historiadores ocidentais ainda apresentou

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente continuou focado e competitivo. A Europa Ocidental empenhou-se arduamente para revitalizar as economias devastadas pelos anos de guerra. Os Estados Unidos despertaram e concentraram-se de forma intensiva no novo desafio soviético. Quer a América do Norte, quer a Europa Ocidental beneficiaram de taxas de crescimento económico saudáveis nas décadas de 1950 e 1960. O PIB dos Estados Unidos cresceu a uma média de 4,28 por cento, enquanto o da Europa cresceu ainda mais depressa, a uma média de 4,8 por cento. Apesar disso, os Estados Unidos ficaram chocados quando a União Soviética se tornou no primeiro país a enviar um homem ao espaço. E, então, investiram fortemente em investigação e desenvolvimento, conseguindo ser, em 1969, o primeiro país a levar um homem a pisar a Lua.

Durante as décadas de 1970 e 1980, à medida que a ameaça soviética se intensificava, com as invasões do Camboja e do Afeganistão apoiadas por aquele país, o Ocidente permaneceu alerta. Contudo, algumas sementes de complacência começaram a germinar. Após a descolonização em grande escala dos continentes asiático, africano e sul-americano em meados do século xx, houve algumas preocupações quanto à possibilidade de estes novos países independentes virem a desafiar o Ocidente. Com efeito, surgiram no Terceiro Mundo líderes fortes e vibrantes - entre eles, Jawaharlal Nehru na Índia, Gamal Abdel Nasser no Egito, Sukarno na Indonésia e Norodom Sihanouk no Camboja. Ainda assim, à medida que estas duas décadas foram decorrendo, tornou-se evidente que, à exceção dos "Quatro Tigres" (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura), a maior parte das economias do Terceiro Mundo estava a fracassar. A ideia de que qualquer uma destas economias pudesse desafiar os países ocidentais era, aos olhos destes, risível. Enquanto embaixador de Singapura nas Nações Unidas na década de 1980, vivi de perto o enfatuamento do Ocidente derivado do pressuposto da inerente superioridade das suas economias. Os diplomatas ocidentais dispensavam conselhos, evidenciando uma condescendência mal disfarçada em relação aos 88 por cento da população mundial que vivia fora das suas fronteiras.

O colapso da União Soviética em 1991 fortaleceu enormemente o sentido de superioridade que o Ocidente começara a desenvolver nas duas décadas anteriores, já de si bastante elevado, tendo em conta a evolução dos dois séculos precedentes. Neste sentido, tanto os intelectuais norte-americanos quanto os europeus acreditaram que, tendo vencido a Guerra Fria, o Ocidente poderia descontrair e desfrutar da sua boa fortuna. A civilização ocidental tinha chegado ao zénite das façanhas humanas. As outras civilizações teriam de lutar e trabalhar arduamente; mas o Ocidente já não precisava de o fazer. Willy Claes, o antigo primeiro-ministro da Bélgica, afirmou o seguinte no início da década de 1990: «A Guerra Fria acabou. Sobraram apenas duas superpotências: os Estados Unidos e a Europa.»"

Kishore Mahbubani, "A Queda do Ocidente? - Uma provocação", Bertrand Editora, 2018, pp. 57-60

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

grosseiras equivalências

“[…A]lguns intelectuais conservadores têm namorado a ideia de um governo abertamente autoritário. O professor de Direito em Harvard Adrian Vermeule, por exemplo, tem argumentado a favor daquilo a que chama o ‘constitucionalismo do bem comum’:

Esta abordagem deve tomar como ponto de partida os princípios morais substantivos que conduzam ao bem comum, princípios que os agentes oficiais (incluindo, mas de maneira nenhuma limitando-se aos juízes), deveriam retirar das generalidades e ambiguidades inscritas majestosamente no texto da Constituição. Estes princípios incluem o respeito pela autoridade da governação e do governo; o respeito pelas hierarquias necessárias para o funcionamento da sociedade [...].

 

O autor passa depois a defender que o principal objetivo do constitucionalismo do bem comum «não é certamente maximizar a autonomia individual ou minimizar o abuso do poder (um objetivo que, em qualquer caso, é incoerente), mas antes garantir que quem governa tem o poder necessário para governar bem» 6. Alguns autores conservadores têm sugerido que o húngaro Viktor Orbán ou o antigo ditador português, António de Oliveira Salazar, podiam servir de modelo para futuros líderes americanos.7 Na extrema-direita, tem havido um namoro com a violência como meio de travar o progressismo.

6 Vermeule (2020). Ver também Laura K. Field, “What the Hell Happened to the Claremont Institute?”, The Bulwark (13 de julho de 2021).
7 Yoram Hazony, The Virtue of Nationalism (Nova Iorque: Basic Books, 2018)"


Francis Fukuyama, Liberalismo e seus descontentes, Dom Quixote, 2022, pp. 137-38

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Que em universidades respeitáveis se comece a fazer equivaler Orbán a Salazar é bem ilustrativo do estado de coisas a que chegámos. Porque esta equivalência não tem nada de séria, mesmo para o antissalazarista mais assanhado. Enquanto o primeiro não passa de um populista sem escrúpulos que acha que os húngaros precisam ser defendidos de uma conspiração judaica patrocinada por Soros - e, não por acaso, também tem um amigo com muito dinheiro -, o segundo foi ridicularizado pela ascese e julgou-se investido do dever de salvar as massas de si mesmas.

De facto, de um modo cada vez mais perturbante nas limitações que põem a nu, mais ou menos por todo o lado, alguns “descontentes do liberalismo” parecem enlevar-se muito irrefletidamente com criaturas monstruosas como Orban e Trump. E fazer algumas grosseiras equivalências.