quinta-feira, 16 de maio de 2024

do jornalismo a martelo

Não sei se os mais novos ainda conhecem a expressão do "vinho a martelo". Era usada para designar vinho falsificado, habitualmente através da adição de açúcar para acrescentar teor alcóolico a um "vinho" adulterado. Sucede que o açúcar se foi tornando cada vez mais caro, a falsificação cada vez menos rentável e a expressão caiu em desuso.
Recupero-a agora para designar esta espécie de "jornalismo" que agora se faz. O outro, aquele que conheci em tempos, dava conta dos factos. Não é que os jornalistas não tivessem opiniões acerca dos factos de que davam conta. Mas eles eram soberanos e não era sério qualquer falta de rigor em relação a eles. Eram a substancia da actividade jornalística. Compravam-se jornais para ter noticia deles. Ouviam-se as partes, dava-se boa conta dos nomes, dos lugares, das partes e do tempo. Agora nada disso parece importar. As agendas, as opiniões, o comentário são a essência do jornalismo a martelo. Os factos apenas se mencionam para ilustrar a agenda do "jornalista". E a sua maior ou menor relevância é aferida pelo maior ou menor valor que possam acartar para essa agenda. Essa a única razão porque alguns crimes parecem levar a comunicação social e comentadores ao paroxismo e outros - que até podem estar na origem dos primeiros -, são olimpicamente ignorados.
Veja-se o caso do menino nepalês que "ficou gravemente ferido com hematomas no corpo e feridas abertas" em resultado de ter sido "violentamente agredido". Tendo as agressões sido "acompanhadas por frases racistas e xenófobas" proferidas pelos seus coleguinhas numa escola "em Lisboa".
Todas as palavras entre aspas são de Carmo Afonso e do jornal "Público" (dia 15/5).
Acrescenta a senhora Carmo Afonso que "a fonte da notícia da Rádio Renascença" - de que a senhora Carmo Afonso dava notícia,...-"...não quis reproduzir algumas dessas frases por serem rudes."
Embora me sopre o mais elementar bom senso que tudo isto ou grande parte é altamente improvável, ninguém me apanhará a afirmar que tudo é falso. Do que não há qualquer dúvida é que isto é um belo exemplar de jornalismo a martelo e que ninguém em bom juízo estará disposto a pagar um centavo por panfletos embrulhados em tal enxúndia.
Título da "notícia" da senhora Carmo Afonso: "Os imigrantes correm perigo em Portugal"
Não há mal nenhum com as opiniões. Até porque elas são como aquele orifício que todos temos atrás: toda a gente tem um.
Mas o jornalismo não é isso. 
Está antes e à frente disso.

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