Foi assim que li com grande interesse o “Tratado em que se contam muito por extenso as Cousas da China” de Gaspar da Cruz, o primeiro livro sobre a China publicado na Europa. E quando, na Almedina on-line, dei conta da existência de um “Tratado das Contradições e Diferenças de Costumes entre a Europa e o Japão” de um tal Luís Frois que o escreveu e concluiu em 1585 (3ª ed. “Livros de Bordo”, 2025), tratei logo de que me chegasse a casa.
São 149 páginas, já a contar com a pequena e muito interessante introdução de Rui Manuel Loureiro, seu editor.
É a vários títulos um livro cativante e das suas várias virtudes separo duas: (1) em nenhum momento o autor se consente quaisquer juízos de valor relativamente aos costumes de que nos dá conta, mesmo quando podemos supor que seriam nalguns casos francamente perturbantes para um clérigo do século XVI. O texto evolui sempre na estrutura de um “Entre nós [é assim], em Japão [é assado]”.
(2) Reflecte uma consciência identitária que somos muitas vezes tentados a acreditar que é relativamente recente e que tem paternidade em autores contemporâneos como George Steiner. Só muito excepcionalmente o autor fala em Portugal ou nos portugueses. Escreve (quase) sempre “Entre nós…”, “Em Europa…”, “Os Europeus”. Precisamente como no título.
Apesar das muitas edições e reedições do texto em várias línguas, Rui Manuel Loureiro dá-nos a saber que em 1993 terá havido uma primeira edição portuguesa que “apenas foi objecto de distribuição privada”.
Ainda me lembro de quando a INCM dava muito boa conta destas coisas.
Outros tempos.

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