Pela pátria, evidentemente, tudo pela pátria.
Investido de todos os seus poderes vai salvá-la.
Um destes dias.
“A REPÚBLICA
E O PAÍS
Pouco depois do 5 de Outubro António José de Almeida
perguntou, melodramaticamente, se 300 000 republicanos chegavam para manter em
respeito 5 milhões de portugueses. A pergunta era boa, sobretudo porque, na
melhor das hipóteses, os republicanos não passavam de 100 000. Em 1910 o PRP
não tinha qualquer organização na maioria dos concelhos do país e onde a tinha
no papel quase sempre não a tinha na realidade: comissões e agremiações com
nomes heróicos, que na prática se reduziam à mesma meia dúzia de amigos,
associados sob diversos nomes e pretextos. Não havia acidente nesta situação. O
republicanismo era um movimento urbano, insusceptível de penetrar no mundo
rural. Os grandes proprietários, os camponeses grandes e pequenos, os rendeiros
e até, excepto no Alentejo, os trabalhadores não queriam, nem podiam, ser
igualitários e laicos. A sua veneração pela hierarquia social e a sua
obediência à Igreja Católica serviam interesses e necessidades materiais. A
redistribuição do imposto, insistentemente prometida pelo PRP, não bastava para
ganhar o apoio da classe média da província, se fosse feita em nome da
impiedade e da democracia. Quanto aos «pobres», que não pagavam, ou quase não
pagavam, impostos directos, não se moveriam por menos do que a supressão da
renda fundiária e, em certas áreas, a distribuição da terra, excessos que,
evidentemente, estavam fora dos propósitos da República.
A este considerável embaraço juntava-se um outro. A alta
classe média e a burguesia, monárquicas e católicas de raiz e convicção (em
parte, graças aos evitáveis excessos da «propaganda»), dominavam o
funcionalismo e as mais poderosas instituições do Estado: o exército, os
tribunais, a diplomacia e os municípios. Ora, se no PRP existiam umas dezenas
de indivíduos capazes de ocupar cargos de direcção e uns milhares ávidos de
empregos menores, não havia gente de qualidade na quantidade necessária para
tomar conta das coisas. De resto, em alguns sítios seria perigoso mexer. Promoções
políticas em massa (supondo-as possíveis) irritariam o exército e talvez o
provocassem à violencia. Os tribunais gozavam de imunidades em que a doutrina e
o realismo não permitiam tocar. Os ardentes merceeiros da Carbonária, como os
mestres de retórica do jornalismo jacobino, não estavam, infelizmente, à altura
de substituir o pessoal diplomático. Mesmo no resto da administração, que o
privilégio e o espírito de corpo não defendiam, certas funções exigiam
conhecimentos técnicos (para não falar em experiência), pouco naturais em
fabricantes de bombas e oradores de comício. O que era grave no Estado central
era catastrófico nos municípios. A 20 km de Lisboa e a 10 km do Porto os
republicanos rareavam. A 50 km só se encontravam por acaso. Além disso, em
regra, o poder local, embora variasse nas suas encarnações sensíveis, apenas
reflectia a vontade dos «influentes» (proprietários, grandes comerciantes,
clero diocesano), que no seu terreno mandavam mais do que os transitórios
ocupantes dos ministérios, muito especialmente se eles fossem republicanos.
Que fazer, portanto? Duas opiniões logo se estabeleceram no
PRP e no governo provisório, que não mudariam em substância até 1917. De um
lado, achava-se que a melhor maneira de consolidar a República consistia em converter
o país conservador, o que implicava fatalmente dar pleno direito de cidade aos
antigos monárquicos e não agredir de imediato, ou com excessiva rudeza, a sua
bolsa e a sua vida. Do outro, dizia-se, com notável bom senso, que no momento
em que a República desse aos antigos monárquicos direitos iguais aos dos
republicanos de antes do 5 de Outubro a República acabaria ou eles acabariam
por se apropriar dela. Em suma, os moderados argumentavam que a República não
podia sobreviver como República Democrática (aliás, o seu futuro nome oficial)
se ficasse reduzida ao partido da propaganda e os radicais respondiam que ela
não podia sobreviver se não ficasse. A Monarquia, para se salvar, pusera os
republicanos à margem da vida política. Agora, também os republicanos, para
salvar a República, que o grosso do PRP queria e pela qual se batera, tinham de
fazer o mesmo aos monárquicos, isto é, à esmagadora maioria do país. A
República seria a revolução permanente ou coisa nenhuma.
A permanência da revolução significava, primeiro que tudo, a
permanência do terror e as circunstâncias exigiram o terror desde o princípio.
Logo nas semanas seguintes ao 5 de Outubro foi evidente que a repressão legal
não bastava para manter em respeito os inumeráveis inimigos da República. Tanto
mais que nem a polícia, nem o exército, nem os tribunais, ou, por outras palavras,
os instrumentos dessa indispensável repressão, mereciam a menor confiança.
Recolhidos a um silêncio prudente, mas não resignado, os oficiais, os juizes,
os diplomatas, todos os altos funcionários, aturavam de má graça os arrivistas
republicanos. Como contar com eles para «combater a reacção» se eles eram a
cabeça e a essência da «reacção»?
O exército, ou seja, o corpo de oficiais, liquidaria a
República no instante em que a disciplina, que o 5 de Outubro varrera dos
quartéis, fosse restaurada e os sargentos e subalternos jacobinos, que
dedicadamente vigiavam e perseguiam os seus superiores, deixassem de ser as
verdadeiras autoridades militares. Para escândalo do «bom povo republicano» e
virtuosa fúria dos «caudilhos», os tribunais, ordinários ou não, civis ou não,
subordinados ou não a legislação especial, exibiram imediatamente a maior das
complacencias com todos os presumíveis contra-revolucionários e conspiradores,
que as autoridades terroristas traziam, ou eram obrigadas a trazer, à justiça
do Estado. Os diplomatas juntavam o insulto à injúria. Quando Bernardino
Machado tomou posse, no governo provisório, o secretário-geral do Ministério
dos Negócios Estrangeiros resmungou audivelmente, a benefício das
personalidades presentes: Pourvu que ça dure!
Os republicanos sofriam ainda de outra decisiva desvantagem.
Durante a chamada propaganda tinham exigido e, pior do que isso, prometido
«liberdade» e mais «liberdade». Um dos nefandos crimes da Monarquia estava precisamente
em que ela não «dava» bastante «liberdade»; a República daria «liberdade»
bastante. Não podia, assim, começar a sua patriótica carreira por suprimir ou
restringir as liberdades que já existiam. É necessário reconhecer que se
esforçou. Mesmo de direito as liberdades individuais foram drasticamente
reduzidas (sobretudo em matéria religiosa e política). Mas, por uma questão de
lógica, decência e necessidade, existiam limites inultrapassáveis. Era difícil,
por exemplo, estabelecer uma censura prévia que não abrangesse a imprensa
republicana moderada ou abolir na letra da lei a liberdade de associação.
Acontece que era igualmente suicida consentir que a imprensa monárquica (agora
«neutra» e, muitas vezes, mesmo «republicana») continuasse a vociferar por
Lisboa e pelas províncias, que os monárquicos se organizassem (como tal ou em
comissões «filiadas» no PRP) ou que os católicos, a pretexto de defender a fé,
se constituíssem num autêntico partido político. A solução encontrada para este
dilema distinguiu-se pela sua suma simplicidade: o que não se pudesse suprimir
de direito suprimia-se de facto. Tinha legalmente de se tolerar um intolerável
jornal monárquico ou «reaccionário»? O «povo indignado» encarregava-se de
corrigir a anomalia, assaltando o jornal e «empastelando» os tipos? Tinham
legalmente de se tolerar instituições pérfidas como os centros católicos? As
puras massas republicanas tomavam sobre si a responsabilidade de restaurar a
ordem, invadindo os centros, sovando os sócios e queimando a mobília. A
deportação não era legal? As autoridades preveniam os indivíduos de quem se
queriam ver livres de que a sua presença em Portugal irritava as
susceptibilidades dos «patriotas». Por falta de provas legalmente válidas, a
polícia, a GNR e o exército não apreendiam quantidades satisfatórias de
conspiradores, padres subversivos, espiões, anarquistas ou meros
«incorrigíveis»? Voluntários abnegados, livres de semelhantes formalidades,
deitavam-lhes a mão e metiam-nos na cadeia.
O terror não vinha, evidentemente, do exercício constante da
violência. A vida oscilava entre períodos de extrema violência e outros de
relativa paz. O terror não vem do uso sistemático da força ou sequer da
particular crueza da repressão. Vem sobretudo de não existir uma legalidade, ou
sequer um simples conjunto de regras tácitas, mas fixas e compreensíveis, que
definam os direitos e os deveres dos indivíduos e das instituições, e também da
ausência de qualquer linha, mesmo ténue e até secreta, que separe os agentes da
repressão das pessoas privadas. «Quais são os nossos direitos? Quais são os
nossos deveres?», perguntavam a certa altura com angústia os católicos do
Porto. Eis a pergunta que não tinha resposta. Direitos e deveres emanavam
apenas da «justiça republicana», como era interpretada pelos chefes do radicalismo
e percebida por quem quer que se interessasse pela saúde e salvação da
República.
O terrorismo republicano foi um terrorismo de massa,
politicamente dirigido pela facção do PRP que Afonso Costa comandava. Alguns
dos terroristas pertenciam a grupos organizados: ou porque simplesmente faziam
parte da administração pública (as juntas de paróquia, por exemplo), ou porque
tinham sido instituídos pelas autoridades (os «batalhões de voluntários»), ou
ainda porque eles próprios se davam um mínimo de estabilidade e disciplina (as
comissões de vigilância, as comissões de defesa da República e outras
sociedades beneméritas semelhantes). Nos quartéis existiam várias maçonarias de
oficiais, de sargentos, ou de oficiais e sargentos, desde a Jovem Turquia, uma
verdadeira polícia política, fundada pelos adjuntos do ministro da Guerra do
governo provisório, a restos da Carbonária Portuguesa. Havia, além disso,
terroristas que eram agentes do Estado e usavam a máquina do Estado para os
seus fins, como os governadores civis, os administradores de concelho, os cabos
de polícia e centenas de funcionários indescritos. No entanto, à volta deste
caroço estavam milhares e milhares de indivíduos, cuja única forma de
organização era a mercearia, o barbeiro, o café ou a taberna onde se
encontravam, a rua onde viviam, a oficina, a loja ou a repartição em que
trabalhavam. Eles é que constantemente espiavam os talassas, os conspiradores,
os «clericais» e os padres; eles é que os insultavam e perseguiam; eles é que
eram o «bom povo republicano». Não eram ninguém em particular; eram toda a
gente.
Mas, sendo «toda a gente», nenhum grupo -oficial, oficioso
ou amador -, nenhum militante, na província ou em Lisboa, tinha a sua política
ou os seus objectivos privados. Os chefes radicais, no Parlamento ou através de
O Mundo, designavam as vítimas permissíveis e as alturas em que o «povo» se
devia mexer ou ficar quieto. Não significa isto que cada vez que espancava ou
prendia um «inimigo da República», cada vez que «empastelava» um jornal ou
profanava uma igreja, o «povo» o fizesse por ordens expressas de Afonso Costa,
de França Borges ou dos demagogos de S. Bento. Nem mesmo que recebesse
instruções pela cadeia hierárquica do PRP. O modus operandi e, largamente, a
escolha do momento e dos alvos individuais eram deixados ao arbítrio dos
executantes. A direcção radical, no entanto, ia decidindo que malfeitores e que
delitos se podiam, ou não podiam, em determinada altura «tolerar», e atiçava ou
refreava o ardor das massas, de acordo com as suas conveniências tácticas. Por
outras palavras, embora o universo dos terroristas fosse imenso e fluido, havia
uma forte unidade política no terror. O terror era um instrumento dos radicais,
que eles até certo ponto controlavam. Não era (apesar de frequentemente servir
de capa a crimes comuns e vinganças pessoais) apenas o resultado da livre iniciativa
de centenas de grupos e milhares de indivíduos, orientada conforme as ideias, o
gosto, a extravagância ou os ódios de quem calhava.
Os moderados do PRP, muito especialmente António José de
Almeida, tentaram várias vezes pôr fim ao terrorismo. Mas sempre sem êxito.
Para que o terrorismo acabasse era preciso que o Estado o pudesse substituir
como instrumento de repressão ou que os antigos monárquicos aceitassem a República
dos antigos republicanos. Sucede que o Estado demonstrou invariavelmente a sua
patética fraqueza (quando não caiu nas mãos de «reaccionários» ou de
terroristas) e que os monárquicos não aceitaram a República intransigente e
facciosa do PRP (embora, em princípio, não se importassem de fazer a deles). Os
apelos à ordem e à paz tinham, assim, um inequívoco sabor a traição. Não querer
os meios quase não fazia, ou parecia não fazer, diferença de não querer os
fins. Para os radicais, estar contra o terrorismo significava, em última
análise, estar contra a República. A seus olhos, os moderados pretendiam, no
fundo, deixar a República sem defesa, oferecendo impunidade aos seus inimigos
e, praticamente, convidando-os a tomá-la ou a derrubá-la. Ao contrário, os
moderados acreditavam, ou fingiam acreditar, que a oposição monárquica e
conservadora se devia, acima de tudo, ao terrorismo e que cessaria quando este
cessasse. Ambas as partes estavam inteiramente certas, e foi essa a causa
essencial das suas intermináveis querelas e da crónica instabilidade do regime.
É claro que, em
rigor, nenhuma das facções podia ser coerente. Veja-se o caso dos moderados.
Desde o princípio que António José de Almeida, ministro do Interior do governo
provisório, se tornou o seu inesperado chefe. António José de Almeida, posto
perante um país hostil e quase em revolta, escolheu, em vez da repressão, a
política que ele chamou de atracção e que consistia, como o nome indica, em
«atrair» os monárquicos ao aprisco das novas instituições. Em concreto, o que
ele fez foi limitar as purgas ao funcionalismo central e, principalmente, ao
funcionalismo local. No seu estilo patético, tão apreciado pelos
contemporâneos, anunciou ao mundo que não usava «serviços de devassas», nem
«caixinhas de denúncias». Ninguém contasse com ele para despedir gente «só por
causa do seu passado político». Qualquer pessoa podia ser um «bom servidor do
Estado»: «os que se tinham batido pela República», «os que não se tinham
batido» e até «os que se tinham batido contra ela».
Isto, palavras e compromissos reais, consolava a direita.
Mas não possuía a virtude de a desviar dos seus fins ou de subverter a sua
natureza. No começo de 1911 o conservadorismo português exigia que se guardasse
a bandeira azul e branca da Monarquia (sem a coroa), em vez de a substituir
pela bandeira encarnada e verde do PRP; que o hino nacional fosse a Maria da Fonte
e não A Portuguesa; que se garantissem os direitos individuais contra a
violência revolucionária; e que se fizessem eleições depressa. Como de costume,
a direita pedia o que nunca quisera dar, ou seja, uma oportunidade legal para
suprimir os seus inimigos. Se os republicanos cedessem a qualquer das suas
reivindicações, especialmente à última, a República seria com certeza
«monárquica». Por outras palavras, seria governada pelas forças que mandavam no
país antes do 5 de Outubro, agora unificadas, fortalecidas e livres de aturar
um partido revolucionário. Por uma pequena coroa na bandeira e por um hino
indecoroso, era um preço ridículo. A moral da história está em que António José
de Almeida não desejava resultados tão drásticos da política de atracção. No
essencial, viu-se, por isso, coagido a apoiar os radicais. Como eles, recusou a
bandeira azul e branca e a Maria da Fonte (que simbolicamente reduzia o
republicanismo a um apêndice do progressismo monárquico). Pior do que eles,
propôs ele próprio, por dever de função, a primeira lei eleitoral da República
e conduziu o simulacro de eleições de 1911.
O PRP prometera, contra a corrupção monárquica, círculos
uninominais e o sufrágio universal masculino. António José de Almeida manteve
os círculos plurinominais e tirou o voto aos analfabetos que não eram chefes de
família. Condenava, assim, à inexistência política um considerável número de
militantes republicanos e, ainda por cima, precisamente aqueles que, como Sampaio
Bruno sem complacência lembrou, tinham a seu tempo servido para lutar e morrer
«na rua de Santo António e na Rotunda». Mas não se tratava agora nem de
princípios, nem de sentimentos. Os círculos plurinominais permitiam à
República, como antes à Monarquia, diminuir o peso das influências locais,
suprimir bolsas de oposição e falsificar com mais facilidade recenseamentos e
contagens, e a República, como antes a Monarquia, não os dispensou. Desde 1884
que a Monarquia diluíra progressivamente o voto urbano no voto rural para se
defender dos republicanos. Para se defender do conservadorismo, monárquico ou
não, a República, excluindo o grosso dos analfabetos do país político, tornou o
voto rural insignificante. A atracção de António José de Almeida acabou, assim,
em efectiva repulsão.
Pior ainda: as eleições para a Assembleia Constituinte (que
depois num acto de puro arbítrio se transformou ela mesma em assembleia
ordinária e se dividiu num senado e num parlamento, que iriam durar até 1913)
foram uma fraude mais vasta e descarada do que tudo a que no passado se atrevera
a Monarquia. Proibiram-se partidos monárquicos (entendendo-se, na prática, que
novos partidos republicanos dirigidos por antigos monárquicos eram) e partidos
regionais, sob a alegação de que seria «imoral» defender a «defunta crápula».
Decretou-se que nos círculos onde concorresse uma lista única os candidatos se
deviam considerar automaticamente eleitos (o que sucedeu em dois terços dos
casos, graças ao afastamento dos monárquicos, «mascarados» ou «desmascarados»,
e aos serviços do «bom povo» terrorista, muitas vezes importado de Lisboa). O
PRP só teve de competir em meia dúzia de circunscrições com os seus próprios activistas
e com o PS, e até aí as autoridades conduziram as coisas com a costumada
velhacaria. Houve chantagem, suborno, recenseamentos falsos, voto múltiplo,
«chapeladas», sufrágio de ausentes e defuntos, numa palavra, o que se achou
necessário para provar à Inglaterra que Portugal amava a República.
A lei eleitoral e as eleições demonstraram à saciedade que a
República pertencia apenas aos republicanos da propaganda. A Constituinte não
passou de um congresso do PRP, reunido em S. Bento, para glória dele e humilhação
dos Portugueses. Aos monárquicos restava uma alternativa: ou o silêncio ou a
revolta armada. Ironicamente, o chefe dos moderados, cujo objectivo essencial
consistia em «nacionalizar» a República, havia sido o responsável pelo seu
definitivo isolamento e radicalização. Ironicamente, mas não por acaso. Os
moderados queriam atrair; e queriam também sobreviver. Não tencionavam ajudar
as forças do conservadorismo a destruir a República, pretendiam, o que era
muito diferente, representar o conservadorismo na República. Por outras
palavras, a atracção de monárquicos e católicos não lhes servia de nada se os
monárquicos e católicos viessem para mandar e não para obedecer. Quem viesse
tinha de aceitar a sua direcção política e de aceitar sine die um estatuto de
inteira impotência. Numa República genuinamente conservadora os moderados não
existiriam. O seu valor estava, ou eles desejavam ardentemente que estivesse,
em que podiam oferecer ao conservadorismo português um pequeno lugar de vida e
acção, subordinado, mas protegido da violência radical. Por isso, os moderados
defendiam a República Democrática sem nenhum escrúpulo de método e, simultaneamente,
estendiam a mão a quem ficava de fora, proclamando a sua tolerância e generosidade.
A natureza contraditória desta política explica as suas constantes oscilações
até à morte do regime e para lá dela.
Os radicais não sofriam da mesma ambiguidade. Mas tinham
também um problema insolúvel: o de conservar a República propriedade privada do
partido da propaganda. A seguir ao 5 de Outubro, com o atávico oportunismo da
miséria portuguesa, milhares e milhares de pessoas descobriram-se de repente
irreprimíveis convicções republicanas e correram a inscrever-se no PRP. Em
Lisboa e no Porto, funcionários e aspirantes a funcionários ou gente que de
qualquer modo dependia do Estado. Na província, o próprio pessoal político monárquico.
Em alguns concelhos, a máquina inteira de um ou outro dos partidos do antigo
regime (nem sempre dos que se diziam mais «liberais») marchou em boa ordem para
a delegação local do PRP e solene- mente se declarou convertida à democracia.
Onde não existiam delegações, ou seja, em quase toda a parte, os antigos
influentes monárquicos, regeneradores ou progressistas, franquistas ou
dissidentes, constituíram comissões rivais e continuaram a guerrear-se sob os
nomes improváveis de Centro Radical Republicano ou Centro Democrático
Republicano.
Era preciso parar esta maré, que ameaçava varrer os
militantes para as trevas exteriores. Passou, assim, a fazer-se uma sistemática
distinção entre republicanos anteriores e posteriores ao 5 de Outubro para
afastar os «mariolas» e os «hipócritas», que precisavam de severas
«penitências» ou, pelo menos, de uma «quarentena». A partir de Janeiro de 1911,
raras vezes se disse, ou se escreveu, o substantivo republicano sem
qualificação adicional. Deixou de haver republicanos tout court e apareceram,
em compensação, republicanos «de sempre», «históricos», «da velha guarda»,
«sinceros «honestos» e «leais». Aos antigos monárquicos deu-se o nome irrisório
de adesivos para sugerir que a sua adesão à nova ordem era, como a do objecto,
passageira e precária: apenas destinada a «conservar o que possuíam e a conseguir
o que cobiçavam». No entanto, embora susceptíveis de alegrar a alma, estes
expedientes arriscavam-se a não ter efeitos práticos. Era preciso estabelecer
uma linha divisória de carácter político, de maneira a que a República não
fosse sufocada pelos conservadores, e essa linha só podia ser o anti-clericalismo.
Por isso, o ministro da Justiça do governo provisório, Afonso Costa, declarou
guerra à Igreja com perfeita consciência e deliberação.
Logo em Outubro desenterrou a velha legislação de Pombal e
de Joaquim António de Aguiar e serviu-se dela para expulsar as ordens
religiosas, cujos bens naturalmente confiscou. Em Novembro estabeleceu o
divórcio com grande liberalidade, mesmo para critérios actuais. Em Dezembro
publicou uma lei de família que melhorava o estatuto dos filhos ilegítimos e
adulterinos e aumentava os direitos pessoais e patrimoniais das mulheres.
Entretanto, abolira também os feriados e juramentos religiosos e outras
fórmulas em que tradicionalmente se mencionava o abominável nome de Deus.
Por fim, em Abril saiu a Lei de Separação do Estado e das
Igrejas, que, com razão, se tornaria o intangível símbolo da República. A lei
era drástica. Expropriava a Igreja secular, colocando-a numa absoluta
dependência financeira do Estado, que se encarregava de subsidiar o culto e de
pagar uma «pensão» aos padres. Constituía em cada paróquia uma «comissão cultual»,
que, pelo menos, nas cidades seria inevitavelmente composta por militantes
jacobinos, e confiava-lhe a gerência dos negócios da Igreja, tanto mundanos
como, em última análise, religiosos. Proibia a seguir o culto público, excepto
se autorizado pelas autoridades do Estado; proibia que as crianças frequentassem
a igreja durante as horas de escola, e proibia qualquer espécie de cerimónias
litúrgicas ou reuniões de laicos depois do sol-posto, tendo, evidentemente, em
vista que os camponeses e os trabalhadores agrícolas trabalhavam de sol a sol.
À injúria seguia-se o insulto. Os padres eram impedidos de usar vestes talares
fora dos locais de culto e concediam-se, magnanimamente, pensões aos seus
filhos e viúvas.
Como a lei eleitoral, a Lei de Separação punha os
conservadores contra a parede. A Igreja reagiu com desesperada dureza. O
episcopado chamou ao novo regime uma «atrocidade», uma «tirania» e um
«escárnio» e descreveu o que achava dele em quatro palavras: «injustiça,
opressão, espólio, desprezo». Dito isto, ordenou ao clero que não se submetesse
às mais violentas disposições da lei e naturalmente insistiu que ele rejeitasse
as pensões do Estado e não participasse nas «comissões cultuais» (aliás uma
importação francesa já condenada pelo Vaticano). Os bispos não hesitaram: quem
cedesse seria «apóstata».
A Lei de Separação deixou os moderados num impossível
aperto. Para não romperem com os militantes «históricos» do PRP antes do
congresso do partido, o primeiro em República, que se imaginava, e de facto
foi, decisivo, aprovaram a Intangível no governo provisório e não se atreveram
a criticá-la na imprensa. Ficaram, assim, ligados ao mais odioso acto da facção
jacobina. Pior ainda: a sua cumplicidade animou e justificou os poucos
monárquicos que defendiam a insurreição armada. Agora, com a Igreja a seu lado
(ou seja, supunham eles, as massas rurais), a vitória era certa. Bastava dar o
«grito» e Portugal em peso se levantaria por eles. Couceiro partiu para a
Galiza.
A estratégia insurreccional (de resto, quase unanimemente
reprovada pelo campo conservador) deixou os moderados republicanos no vazio.
Para o militante médio do PRP (insensível à diferença entre os «paivantes» da
Galiza e a gente séria, católica e ordeira que o radicalismo de Afonso Costa
horrorizava), propor um compromisso, ou sequer concessões, a gente que proclamava
o seu desejo de exterminar a República não fazia sentido e cheirava a traição,
mesmo admitindo que nem todos os putativos interlocutores tencionavam eliminar
indiscriminadamente todos os republicanos. A política de atracção isolara os
moderados e não tardaria a infligir-lhes uma série de irrecuperáveis derrotas.
A Constituição que saiu de S. Bento estabeleceu um regime de
assembleia, em que o Congresso (o Parlamento e o Senado electivo) era absoluto
e recebia mesmo a faculdade de escolher o Presidente. Ao contrário do rei, e de
acordo com o programa e as promessas da propaganda, o Presidente não tinha o
direito de dissolução. Só o Senado, onde presumivelmente se sentariam os
«venerandos vultos» do PRP, gozava de alguma hipotética autonomia. Na
realidade, porém, Presidente, Parlamento e Senado dependiam do PRP.
Dependiam do PRP e não, como se poderia pensar, dos partidos
políticos. Por duas razões. Em primeiro lugar, porque o PRP foi o único partido
português até Outubro de 1911. Em segundo lugar, porque a maior parte dos
republicanos se reconheciam nele e por ele se consideravam representados. A
prazo, quem dominasse o PRP dominaria o Congresso e, dominando o Congresso,
dominava também os órgãos de soberania (embora não necessariamente o Estado) e
recebia, a título perpétuo, o poder político formal, ou seja, o governo. Em
1911 a luta política decisiva era, portanto, a luta pela direcção do PRP.
Sucede que, nesse capítulo, os moderados estavam em visível
desvantagem. A atracção, falhando no essencial, não tinha conseguido convencer
os conservadores, mas tinha conseguido ofender e alienar o radicalismo. A Lei
de Separação, pelo contrário, tinha respondido às convicções e aos mais profundos
instintos dos republicanos da propaganda (os outros estavam estatutariamente
excluídos do Congresso). Em suma, em dez meses de governo provisório António
José de Almeida perdera o partido e Afonso Costa ganhara-o. Isto já era tão
claro em Outubro de 1911 que António José de Almeida se absteve de assistir ao
Congresso para se poupar a vexames. Brito Camacho, que, como ministro do
Fomento, adquirira uma espécie de mandato tácito dos interesses económicos,
falou sozinho pela moderação. Não falou muito. Insultado, vaiado e acusado de
torpezas várias, saiu a meio dos trabalhos, enquanto Afonso Costa elegia
triunfalmente um directório da sua confiança e se estabelecia como dono e
senhor da República.
António José de Almeida e Brito Camacho criaram partidos
seus: o Partido Evolucionista e a União Republicana ou Partido Unionista,
respectivamente. Mas tanto um como o outro, sobretudo o Partido Unionista,
nunca foram mais do que pequenos grupos, poucos militantes e mal organizados. Não
era fácil penetrar na província católica e, pelo menos sentimentalmente, monárquica,
ou, nas cidades, competir com a velha e prestigiosa máquina do PRP. Além disso,
nem os republicanos, nem os conservadores, confiavam nos moderados, porque os
suspeitavam dispostos a trair a esquerda com a direita ou a direita com a
esquerda. No meio, como de costume, não havia nada.
Conquistado o PRP, faltava aos radicais conquistar o
governo. O que levou algum tempo. Escolhida pelo directório de 1910, a
Constituinte tinha ainda o número suficiente de moderados e de hesitantes para
não permitir que Afonso Costa tomasse desde logo conta de tudo. Evolucionistas
e unionistas juntaram-se num bloco de oposição ao PRP, agora também chamado
Partido Democrático. E os hesitantes, que se diziam independentes (à volta de
vinte), ficaram árbitros da situação. Ou porque temiam os radicais, ou porque
achavam prematura a divisão dos republicanos, ou por ambas as coisas, tentaram
restaurar a unidade do movimento pré-revolucionário. Não podiam, assim, começar
por oferecer a presidência aos radicais e escolheram o candidato do bloco,
Manuel de Arriaga.
Em represália, os democráticos recusaram-se a entrar no
primeiro governo «constitucional», que, presidido por João Chagas, incluiu
apenas membros do bloco e tomou posse em Agosto de 191 1. Passadas poucas
semanas, Couceiro entrou em Portugal com um bando de caceteiros e filhos de
família, sem qualquer valor militar e, por conseguinte, qualquer possibilidade
de sobreviver à resistência, ainda que fraca, do exército de linha. Ostensivamente,
o «Paladino», para grande fúria e ofensa de D. Manuel, não vinha a Portugal
restaurar a Monarquia: vinha defender a liberdade. Isto é, não se propunha
devolver às suas intrigas os desacreditados políticos do antigo regime, por
quem nenhuma pessoa sensata moveria um dedo e ele próprio nunca morrera de
amores, mas fundar um país «novo». Em vários folhetos sentimentais declarou-se
apenas, muito modestamente, o verdadeiro representante da «nação real» que
gemia sob o jugo jacobino. Para depois da vitória prometeu um plebiscito sobre
a «questão do regime», seguido de eleições livres. De imediato queria
simplesmente proteger a religião, restabelecer a disciplina no exército e
destruir o «quarto poder do Estado», ou seja, «a bomba e as sociedades
secretas».
Este extraordinário programa destinava-se a obter o apoio de
todos aqueles que, sem odiarem a República, odiavam Afonso Costa. Couceiro
desejava, evidentemente, ser uma espécie de António José de Almeida da
«reacção». António José de Almeida abria os braços aos monárquicos moderados e
ele aos moderados republicanos. Só que o conservadorismo português não estava interessado
nestes exercícios de equilíbrio político; e, se o estivesse, procuraria mais
depressa a sua salvação num golpe de Estado ou num pronunciamento militar
dentro da República do que nos delírios insurreccionáis e plebiscitarios de
Couceiro. E não hesitou, por conseguinte, em o abandonar. Couceiro esperava que
a sua aparição fosse o sinal de uma série de rebeliões no Norte. Houve um
patético motim no Porto e meia dúzia de levantamentos no Minho, no Douro e na
Beira, que os democráticos locais (já infiltrados na conspiração) logo
abafaram. Fora isso, o país permaneceu em paz e o «Paladino» voltou,
desesperado, para a Galiza.
A pueril incursão de Couceiro não teve, em si própria,
qualquer consequência séria. Mas, por um lado, provou que mesmo os monárquicos
não se bateriam pela monarquia de 1910 e que não tinham ideia por que monarquia
se bater. E, por outro, permitiu aos radicais intensificar o terror. Ao fim de
um mês de entusiásticas perseguições à «reacção monárquico-clerical», António
José de Almeida acabou a levar pancada na rua e a fugir, como João Franco,
pelas traseiras da estação do Rossio para não ser morto pelo «bom povo
republicano».
Compreensivelmente pesaroso, António José de Almeida
derrubou Chagas, exigindo um governo «a que não falecesse o pulso». Isto era de
uma tocante ingenuidade. Excepto o ex-«idolatrado» tribuno, todo o Parlamento percebia
que a única maneira de limitar o terrorismo estava em associar ao poder os seus
patronos. Em vez do «pulso forte», veio, pois, o médico parteiro da boa
sociedade, Augusto de Vasconcellos, que politicamente não existia, com três
democráticos, três bloquistas e dois independentes. Os democráticos entravam em
condições susceptíveis de embaraçar os bloquistas e ficavam com o Ministério da
Justiça, muito útil para perseguir a Igreja e, principalmente, para comprometer
os moderados aos olhos da nação católica.
Augusto de Vasconcellos aguentou seis meses tumultuosos, em
que os democráticos conduziram a oposição do próprio governo. Toda a gente sentia
que a «batalha final» se aproximava. «Ou o país vence, ou vencem eles», escrevia
António José de Almeida, tomando-se incorrigivelmente pelo país. E ameaçava:
«Se vencem eles [...]» Para que não vencessem, o bloco resolveu exigir eleições
municipais. O PRP pedia purgas e mais purgas às câmaras (já administradas por
comissões republicanas e quase todas escolhidas pelos moderados). Ansiosos por
provar a sua boa fé e «atrair» os monárquicos, António José de Almeida e Brito
Camacho pretendiam oferecer-lhes a província. Oferecer é a palavra justa. O
Mundo fizera um inquérito sobre a matéria em litígio. Dos 262 presidentes em
funções, responderam 155: 93 disseram não a eleições, 55 sim e 7 evadiram a
questão. Os que disseram não foram francos. Uns admitiam abertamente que o povo
era talassa ou, pelo menos, «adverso à República» e parecia «desejoso» de se
«meter debaixo dos caciques» e «galopins». Outros, mais pudicos, declaravam
temer a influência do «clero paroquial». Todos os 93 concordavam, porém, que as
eleições municipais seriam um «perigo» ou uma «punhalada nas costas” de que
necessariamente resultaria uma «barafunda», uma «monarquia de barrete frigio»
ou até o suicídio do regime. Era evidente que a República «Democrática» estava
cercada e que a mais leve concessão a poderia submergir sob a maré
conservadora.
Discutia-se ainda a oportunidade das eleições municipais
quando apropriadamente, a 6 de Julho de 1912, rebentaram revoltas monárquicas
no Ribatejo, na Estremadura, no Douro, no Minho e em Trás-os-Montes e Couceiro
tornou a passar a fronteira da Galiza. Como antes, o «Paladino» contava com a
ajuda de uma sublevação camponesa. Como antes, fora alguns motins dispersos, o
«povo» rural ficou sossegado e quieto e o «povo» radical depressa pôs na ordem
o que não ficou.
Muitos dos presidentes de câmaras que mais insistentemente
tinham pedido eleições tinham também colaborado nos levantamentos, ou, pelo
menos, não os tinham combatido. Isto parecia comprometer os moderados. Mas não
foi essa a conclusão que eles tiraram do episódio. Com a terminante derrota da
estratégia insurreccional de Couceiro, pela primeira vez desde Outubro de 1910,
a República prometia durar. António José de Almeida pensou, portanto, que, à
falta de melhor, as forças conservadoras se voltariam para ele e que ele
poderia finalmente, como sempre tinha desejado, governar a República com os
antigos monárquicos.
Restava-lhe apenas remover dois pequenos obstáculos. A
segunda incursão provocara, como de costume, milhares de prisões e as cadeias
transbordavam. Uma amnistia política total era mais do que nunca indispensável
à «pacificação da família portuguesa». O conservadorismo não podia acolher-se à
sombra de António José de Almeida enquanto ele fosse o carcereiro da sua gente.
Além disso, que por si bastava, havia a Lei de Separação. Como Afonso Costa a
seu tempo tinha previsto, ela estabelecera uma incompatibilidade permanente
entre a República e o país. Nenhum católico aceitaria juntar-se aos moderados
se eles não conseguissem previamente revogá-la ou revê-la. Daqui resultou que
António José de Almeida apareceu a pedir amnistia e tolerância religiosa no
exacto momento em que o grosso do movimento republicano, excitado pelas
aventuras de Couceiro e glorificado pelos radicais, perseguia entusiasticamente
a «reacção» nas suas infinitas e surpreendentes encarnações. Ele mesmo
precisava, para garantir a sua segurança, de quatro guarda-costas «façanhudos e
tétricos», o que de certo modo não contribuía para o tornar muito persuasivo.
Em desespero de causa, e após proclamar que a taça se
enchera, resolveu, assim, reclamar eleições gerais, com o belo propósito de pôr
termo ao «tumulto da demagogia desvairada». Ignorando serenamente a sua responsabilidade
pessoal nas eleições de 1911 (que acusou agora de haverem sido «feitas» pelo
PRP e produzido um parlamento «partidário»), apelou para a «província», para os
cidadãos «ainda indiferentes, desconfiados ou receosos» e, de maneira geral,
para todos os que «tinham a perder», exortando-os a instalar em S. Bento um
parlamento «nacional» (ou seja, verdadeiramente representativo), capaz de
restabelecer «a paz interna e a ordem pública». «A Pátria», preveniu, estava «à
beira do abismo» e, se os radicais ganhassem, «só espalhariam a morte, a ruína
e o ódio».
A iniciativa passava, portanto, ao Presidente, que o bloco
moderado elegera para estas ocasiões. Arriaga não podia dissolver o Parlamento,
mas podia pesar na balança, pronunciando-se contra os democráticos. No Natal de
1912, penetrado do espírito da época, sugeriu a Duarte Leite (que, entretanto,
substituíra Augusto de Vasconcellos) uma amnistia aos presos políticos e aos
padres e bispos desterrados das respectivas paróquias e dioceses. Tàl acto de
misericórdia, assegurava ele, facilmente arrancaria do «organismo da vida
colectiva» os «espinhos» que o «molestavam» e «perturbavam o bem-estar social e
a paz das consciências». Duarte Leite hesitou e meteu pela tortuosa via média
da amnistia parcial. Os radicais não hesitaram e, declarando as ideias de
Arriaga «repelentes», devolveram Duarte Leite aos encantos da vida privada. A
situação ficou esclarecida. Os governos híbridos não serviam a ninguém e, sendo
impotentes para governar, agravavam o caos já crónico do país. Chegara a altura
de escolher: ou os moderados ou os radicais, ou António José de Almeida ou
Afonso Costa.
Arriaga começou por chamar António José de Almeida, que não conseguiu arranjar apoio no Congresso ou depois, segundo Machado Santos, convencer o exército a um golpe de Estado. O exército nunca iria a parte alguma atrás do «idolatrado tribuno». E nem os unionistas de Brito Camacho, nem os deputados ditos independentes, agora quase todos unidos à volta do engenheiro carbonário António Maria da Silva, achavam que fosse possível subsistir contra a vontade dos radicais. Restava, por consequência, verificar se os radicais podiam subsistir contra a vontade de toda a gente. Brito Camacho ofereceu a Afonso Costa os votos que lhe faltavam no Senado e António Maria da Silva os que lhe faltavam no Parlamento. António Maria da Silva entrou até para o governo e não tardaria a fazer-se democrático. Em 9 de Janeiro de 1913 os jacobinos portugueses tomaram o poder de Estado.”
Vasco Pulido Valente , “Revoluções: A ‘República Velha’
(ensaio de interpretação política), em Análise Social, Quarta Série, Vol. 27, No. 115 (1992),
pp. 7-19
