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sábado, 1 de outubro de 2016

p. 179 (notas de leitura)

Saraiva almoçou bastantes vezes com Marques Mendes que chegava sempre atrasado. Levantava-se da cama e almoçava sem passar pelo pequeno almoço.
O “mendismo” tinha um truque para não darem pelos seus atrasos em dias de Conselho de Ministros: “… combinou com uma secretária do Conselho de Ministros que, antes da reunião começar, penduraria um casaco nas costas da cadeira onde ele se sentava -induzindo a ideia de que ele já ali tinha estado mas saíra”.
De onde se prova que os senhores conselheiros bem podem mandar o casaco e ficar a dormir. Nas “distritais” os debates não são mais acalorados:
“… [D]iz-se muito desiludido em relação ao PSD e aos partidos em geral. Os militantes não discutem ideias, só querem saber de lugares – é o resumo do que ele pensa. Dá exemplos de sessões partidárias em que procura lançar o debate político mas as únicas reações que obtém são perguntas acerca de lugares.”
De maneiras que se dedicou à escrita e garante que “escreveu mais de 50% dos discursos de Durão Barroso”.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

p. 176 (notas de leitura)

“Encontrámo-nos depois mais duas ou três vezes – e fiquei sempre com a mesma impressão: o seu principal objetivo era trepar as escadarias da política e concentrava aí todas as suas energias. Era um tático. Não o preocupava a discussão das ideias, mas o modo de subir. Faltava-lhe em densidade o que lhe sobrava em ambição.”

Viria a ser presidente do PSD, sucedendo a Marques Mendes, e presidente da Câmara de Gaia.
Foi nessa qualidade ou a esse pretexto que Luís Filipe Menezes apareceu um dia numa revisteca – Visão ou Sábado – que folheei em cima da mesa de snooker lá no café. Dessa “aparição” recordo com especial nitidez uma fotografia do carro de “presidente da câmara de Gaia”: um Audi dos gordos com ar de ser coisa blindada. Do teto pendiam monitores lcd, havia banquetazinhas para os pés e luzinhas por todo o lado. Recordo-me muito bem desses detalhes porque, precisamente por essa altura, o primeiro-ministro belga fora demitido na sequencia de um escândalo relacionado com a aquisição de um carro para seu serviço que era exatamente igual. Através do El País (que na altura lia em dias de Babelia), tive notícia de que a imprensa belga se comprazia a descrever os extras com que o carro era equipado – falavam mesmo nas tais banquetazinhas para os pés. Na sequência, a Bélgica viria a viver uma crise política que levou tempo a resolver-se e, sem governo, viria a experimentar um dos anos mais prósperos da sua história recente.
Achei estranho que ninguém tivesse reparado no carro de funções de um município que não era mais que um arrabalde - colossalmente endividado - da segunda cidade do país.
Não me recordo se na altura a imprensa portuguesa chegou ao ócio de falar em “menezismo”.
Deve ter chegado.