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terça-feira, 4 de junho de 2024

a aflição do doutor santos

Não acredito que alguém compreenda o doutor santos melhor que eu quando dá voz à aflição em que o deixa o facto de o governo estar a governar.
O doutor santos sabe muito bem o que isso significa. Sabe ele em primeira mão e devíamos saber nós todos ao fim destes cinquenta anos. Para ele, o orçamento de estado devia ser "do ps". Em democracia e em Portugal, ressalvadas as despesas correntes, governar significa dedicar o orçamento de estado à campanha eleitoral de quem governa. É o que tem feito o partido socialista do doutor santos e é o que faz agora o doutor montenegro pelo psd. Como vem sendo costume, o prejuízo é atirado para cima de quem um dia terá de fechar a porta às despesas.
Muito evidentemente, os governantes não são mais culpados deste estado de coisas do que os governados que os elegem.
Se ainda houvesse remédio, valeria a pena aos mais jovens mobilizarem-se no sentido de impor constitucionalmente a interdição da república contrair quaisquer dívidas que não fossem justificadas por infraestruturas com interesse intergeracional.
Seja como for, o que a minha geração vem fazendo aos mais novos não tem perdão.
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P.s: pode, muito evidentemente pensar-se no reverso, como no que abaixo se linka. Mas não é também esse reverso outra coisa senão parte do imperdoável da minha geração: a incapacidade de formar cidadãos mais capazes em todos os sentidos?

"Que diferença, meu Deus, entre o tratamento por você que nos tempos de militar por vezes recebia dos recrutas e soldados camponeses, gente de vida dura e sofrida, mãos calejadas e vincos de rugas precoces - o "Você" que para o falante era reminiscência do Vossa Mercê - e este Você arrogante e malcriado de meninos e meninas que por aí andam a reivindicar o florão da «mais bem preparada geração», fulanos que passando largamente os vinte anos nunca trabalharam, não produzem e, pois, nem se levantam quando entra um adulto, apertam a contragosto com uma mão, enquanto enfiam a outra no bolso e, há que dizê-lo, odeiam profundamente aqueles que têm a idade dos seus pais e avós. Não sei, sinceramente, de onde vem tanta arrogância. Assisti há momentos a um destes tristes episódios e notei a impassividade dos pais perante o monstrinho em acção."

Texto de Miguel Castelo Branco, aqui.

sexta-feira, 10 de março de 2023

também me lembro de um tempo em que se desconhecia o conceito de "férias"

Nem se tratava de saber o que fossem "férias". Era uma ideia completamente estranha. Havia umas festas a pretexto do calendário religioso e era tudo.

Para os que chegaram depois, muito possivelmente isso é uma coisa semelhante àquilo que foi para mim a história da meia sardinha: um exagero dos mais velhos.

Mas uma coisa destas torna mais fácil a despedida de tudo isto

sábado, 14 de janeiro de 2017

counter stricke

A epifania aconteceu-me quando carregava uns bons quilos de material, máquinas e tripés distribuídos pelos ombros e ambas as mãos. A miudita saltitava de canadianas à minha frente. Antecipo-me e, com uma perna, abro-lhe a porta armada em mola. Aguardo que avance e ela nada. No limiar da porta que educadamente lhe abria, avançava um pintas de mãos nos bolsos em calma assassina. Atiro-lhe às pernas os tripés que segurava com um dos braços e pergunto-lhe: “olha lá, meu cabrão, achas mesmo que é para ti que eu estou a segurar a porta?”
Já tinha reparado no estranho fenómeno da minha invisibilidade para catraios que me davam pela cintura. Na rua, nas lojas, em qualquer lugar, esta estranha geração de bípedes parece agir na assunção de que o mar vermelho da realidade física se abre à sua frente sem orações ou cajado. Não sei se por efeito de um número exagerado de sessões de counter stricke, se por efeito de progenitores confusos ou por qualquer outro fenómeno antropológico que não me dou ao ócio de tirar a limpo, esta geração de pubescentes põe um olhar vidrado no infinito e avança a direito como se todos os outros seres tivessem a materialidade de um holograma.
Foi desde esse episódio da miudita de canadianas que decidi passar a fazer rigorosamente a mesma coisa.  Tudo em cima da muito divertida vantagem de antecipar os resultados. Para quem como eu, ainda não padece de artroses e monta na vantagem de algum caparro, é só riçar ombros e vê-los a fazer ricochete em movimentos taralhoucos de piusca mal lançada. Porque, apesar de tudo, ponho algum cuidado na coisa, raramente se esbardalham pelo chão. Quando levam telemóvel à altura dos olhos vidrados, paro sem me afastar. Para que os danos me não sejam imputados.
Ontem à tarde vem-me um deles mais despachado de trás de mim em movimento em “u” pela minha frente no preciso momento em que avançava com uma das pernas que ficou suspensa para não o rasteirar. De repente, arrependo-me do cuidado e empurro-o com ambas as mãos. Estendido de costas, meio sorriso na boca e dedo em riste, acusa-me de ter feito de propósito. Sem conter o riso, digo-lhe que não, foi sem querer. Estendo-lhe a mão para o levantar e dou-lhe uma sapatada nas costas, na força calculada daquele limiar ambíguo do toma lá para aprenderes e da palmada amistosa.
Já depois de me deitar, lembro-me do episódio e não consigo parar de rir. Gostei do puto. Tinha coluna vertebral.