Mostrar mensagens com a etiqueta marquês de pombal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta marquês de pombal. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

onze mil virgens

"O cardeal da Cunha tinha uma ostentosa livraria: 11000 volumes, a que alguns chamavam as onze mil virgens. Mas o grande, grande homem do tempo, era o arcebispo de Tessalónica, tão bruto e atrevido que não escapou a uma sova que lhe deram na matinha de Queluz, moendo-o com sacos de areia, e deixando-o pelas ruas da amargura.

Quem o conheceu de perto viu-o rústico e volumoso, exemplar acabado da brutalidade fradesca e fidalga do fim do XVIII século em Portugal. Tinha começado por cabo de esquadra, e conservava os hábitos: até com o príncipe do Brasil, o futuro D. João VI, a quem tratava de um modo incivil e grosseiro. Era rubro e gordo, e sentado à fresca, desabotoado, prazia-se em gozar as digestões, arrotando soltamente, à portuguesa. O marquês de Pombal dera-o por confessor à rainha, então princesa do Brasil, por ver como ele era jovial e ignorante. D. Maria I fê-lo inquisidor-mor e seu ministro: quase rei. Sentia-se feliz, satisfeito, e dava largas à sua alacridade beliscando as moças do paço, e perseguindo-as pelos corredores, como um sátiro amável. A rainha, que era muito piedosa, julgava-o, porém, um santo, e nada sabia das suas travessuras. Enfadava-o bastante o governo, a necessidade de ensaiar os conselhos, antes de ir à presença da rainha; e quando olhava para a escada interior, que ligava os seus aposentos aos da soberana, dizia aos íntimos: «Forte praga é aturar essas mulheres, lá de escada acima!» Porém a sós, nos seus quartos, desforrava-se, à larga, sentado à mesa, onde tinha sempre frades seus íntimos, e o famoso truão D. João da Falperra, que lhe fazia estoirar de riso a boca atassalhada de leitão assado."

História de Portugal, Oliveira Martins, Ed. Vercial, 2010, p. 402