domingo, 21 de setembro de 2008

são jorge e o cão




Não vi mas contaram-me tão bem que é como se estivesse lá estado. Por isso, posso garantir de boa fé que foi assim.
Em Vera Cruz, aldeia antiga do Alentejo, apareceu um sujeito possuído pelo demónio.
Era costume aparecerem por ali pessoas possuídas pelo mafarrico, pois que a terra é conhecida pelos poderes de exorcista do seu padroeiro. Dir-me-ão os mais entendidos nessas coisas do sanctum sanctorum que São Jorge - pois é ele o padroeiro - tinha mais queda para as pelejas que para o esconjuro. Seja como for, postas assim as coisas, também eu desconfiei. E, como quem não quer a coisa, perguntei: "Então, no território português, de onde acorrem todas essas almas em dor que engolem do demónio, qual a terra de onde chegam mais?" A isto, uma vetusta aldeia de testemunhas, depois de uma longa pausa para ponderar o assunto, atreveu-se a garantir que era de Monção que chegava o maior número de camionetas com almas possuídas. Enfim, a maior parte vinha lá de cima, do norte, acrescentaram.
Pois, mas o que é que tinha de especial o sujeito que mencionei lá para trás, perguntarão as minhas princesas, impacientes com a minha incompetência narrativa.
Têm toda a razão, minhas pombinhas. O sujeito da história que me contaram era realmente singular no seu modo de estar possesso, procedendo em tudo como se fora um cão.
"-Mas um cão, como?", perguntei eu com dúvidas perfeitamente idênticas às vossas. "Pois no modo que de uso é o dos cães. Senão, repare", disseram várias testemunhas idosas que pareciam ser donas de todo o juízo que alguém saudável pode ter: "mal saiu da camioneta disparou em direcção àquelas silvas como se tivesse farejado coelho". "-E ficou lá?", perguntei eu, parecendo-me que aquilo era pouco. "-Não, depois veio sentar-se aqui neste banco", responderam. Como esbocei um sorriso condescendente, precipitaram a exposição de detalhes menos equívocos; afinal de contas, o gajo podia simplesmente ter sido acometido por impreterível necessidade de mijar atrás das silvas. "-Não, nada disso", juraram dois velhinhos com extraordinária firmeza. "Em primeiro lugar, o tipo trazia um baraço ao pescoço, tal como os cães. Depois, não falava, ninguém percebia o que dizia o gajo, aquilo era mais rosnar do que falar". E como eu não parecia convencido, vergaram a mola a 45º, fecharam as mãos em jeito de patas, e juraram que era assim que ele andava.
Depois calaram-se à espera que eu dissesse alguma dúvida. Mas eu já estava embaraçado num silêncio convencido, enviado a imaginar as artes de São Jorge, lá no espaço da bela igrejinha de Vera Cruz.
Passado o silêncio que demorei na igreja, perguntei:
- Então e depois?
- Depois? Depois o gajo enfiou-se ali no Canoilas, mamou uma lata de atum, bebeu um copo e abalou na camioneta em que tinha vindo.

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