"-Então, no território português, de onde acorrem todas essas almas em dor que engolem do demónio, qual a terra de onde chegam mais?"
A isto, uma vetusta aldeia de testemunhas, depois de uma longa pausa para ponderar o assunto, atreveu-se a garantir que era de Monção que chegava o maior número de camionetas com almas possuídas. Enfim, a maior parte vinha lá de cima, do norte, acrescentaram.
Pois, mas o que é que tinha de especial o sujeito que mencionei lá para trás, perguntarão as princesas, impacientes com a minha incompetência narrativa. Com toda a razão do mundo. O sujeito da história que me contaram era realmente singular no seu modo de estar possesso, procedendo em tudo como se fora um cão.
"-Mas um cão, como?", perguntei eu com dúvidas perfeitamente idênticas às vossas.
"-Pois no modo que de uso é o dos cães. Senão, repare:" -disseram várias testemunhas idosas que pareciam ser donas de todo o juízo que alguém saudável pode ter:
"-Mal saiu da camioneta disparou em direcção àquele silvado como se tivesse farejado coelho".
"-E ficou lá?", perguntei eu, parecendo-me que aquilo era pouco.
"-Não, depois veio sentar-se aqui neste banco", responderam.
Como esbocei um sorriso condescendente, precipitaram a exposição de detalhes menos equívocos; afinal de contas, o gajo podia simplesmente ter sido acometido por impreterível necessidade atrás das silvas.
"-Não, nada disso", juraram dois velhinhos com extraordinária firmeza.
"-Em primeiro lugar, o tipo trazia um baraço ao pescoço, tal como os cães. Depois, não falava, ninguém percebia o que dizia o gajo, aquilo era mais rosnar do que falar".
E como eu não parecia convencido, vergaram a mola a 45º, fecharam as mãos em jeito de patas, e juraram que era assim que ele andava. Depois calaram-se à espera que eu dissesse alguma dúvida. Mas eu já estava embaraçado num silêncio convencido, enviado a imaginar as artes de São Jorge, lá no espaço da bela igrejinha de Vera Cruz.
Passado o silêncio que demorei na igreja, perguntei:
"-Então e depois?"
"- Depois? Depois o gajo enfiou-se ali no Canoilas, mamou uma lata de atum, bebeu um copo e abalou na camioneta em que tinha vindo."
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