domingo, 2 de novembro de 2008

velocidade e pão, por deus

Dormi que nem um cação e acordei cedo no dia de todos os santos. Em média dormimos sete horas e dezoito minutos, dizem as estatísticas. Hoje dormi mais, mas as estatísticas também dizem que fazemos sexo durante quatro minutos e alguns segundos por semana, mais ou menos o mesmo tempo que passamos no preenchimento dos papéis para as finanças e também não é esse o caso deste desgraçado que vos beija. No que se refere a sexo fico tão abaixo da média que me sinto ruborescer; já a preencher papéis para as finanças supero largamente a média.
Acordei hoje para o conhecimento de merdas inúteis acerca do tempo e da velocidade porque - faz agora coisa de uma década - comprei um livro acerca da aceleração terminal das nossas vidas. Até ontem nunca tinha arranjado tempo ou vontade de o ler.
Algures em Washington existe uma coisa chamada Directório do Tempo. O Sr. Germot M. R. Winkler é o director do directório, responsável por umas boas dezenas de relógios atómicos que se monitorizam uns aos outros. Os pontos astronómicos de referência na aferição do tempo, foram joeirados à porção de 462 quasares que se portam bem no espaço e ficam sossegadinhos lá no sítio dos gajos. Por acção das marés, que actuam como travão sobre a velocidade de rotação da terra e um sem fim de coisas que transcendem a vossa humana compreensão, o segundo deixou de ser o que era até 1955, ou seja, 1/86,400 do tempo de um dia. Agora, por cada ano que passa, o Directório do Tempo acrescenta uma fracção de segundo ao calendário do mundo. E é na mais absoluta sincronia dos segundos que assenta uma boa parte da ordem desse mundo que vamos fazendo. Porquê? Como vos creio sem paciência para a extensão e complexidade da resposta, teletransporto-vos a uma velocidade terminal para a página 279:

“We do feel the rush of time as we grow older. Then, time does go by faster for us. Perhaps that is partly because the end is nearer. Psychologists have isolated a ‘gradient of tension’ to measure the shift in our sense of time as we approach a critical point – the end of a baseball game, a journey, a book, a millennium, a lifetime. Behind all our haste, all that migraine-like pressure to hurry, lurks the fear of mortality. But perhaps the sense of speed comes also from have experienced more. People accumulate responsibilities and time fillers as ocean piers accumulate barnacles.
You are aware that the director of the Directorate of Time is something of a philosopher. He has written, ‘We experience time intervals as much shorter than when we are young.’ He even has equations for this: … by which he means , the more we have experienced, the faster the time flows. Depressants like alcohol slow time, because the brain receives fewer inputs per second. You may feel, as so many do, that your life could be plotted on a scale where the years from age ten to age twenty seem as long (as event full) as the years from age twenty to age forty or from forty to eighty. Exponential growth at its most damning.

Death may be an absolute. Our ancestors may have considered time to be divine property, but we know better – we who have created jet lag, slow-motion, instant replays, methamphetamines, the International Date Line, the relativity of physicists, leap years and leap seconds. Come to think of it, Winkler is not really setting the pace – not for you. Synchronize your watch according to his clocks, sure, but you will serve as your own time directorate. Even if you feel yourself rushed by the sheer plenitude of things, even if you eat when the clock says to, you can remember that time is defined, analyzed, measured, and even constructed by humans. It may help to think of time as a continuous flow, rather than a series of segmented packages. Or to find aggressive ways of squandering the time you save. Or at least to recognize that neither technology nor efficiency can acquire more time for you, because time is not a thing you have lost. It is not a thing you ever had. It is what you live in. You can drift in its currents, or you can swim.”

(pp. 279-280, Faster; the acceleration of just about everything, James Gleick, Litle, Brown & C., Londres, 1999, uma valente merda, se me perguntam, cheia de factos interessantes e mal amanhados na produção de sentidos)

Na minha zona é “pão, por deus” mas sei que mais acima lhe chamam “bolinho”.
No dia de todos os santos os catraios juntam-se e vão de porta em porta com sacos de pano ou do que calhe, a pedir “pão, por deus” (não sei se leva vírgula mas acho mais bonito assim). Quando eu era catraio, recebíamos frutos secos, broas, romãs e maçãs das mais variadas cores e perfumes. Os meus rapazes já recebiam todas essas coisas mas acrescentadas de gomas, chocolates, enfim, todas as formas comerciais de açúcar.
Em choque, descobri que agora nalguns sítios também dão dinheiro. Pode-se imaginar que dói muito mandar os garotos embora de mão vazias só porque nos esquecemos de constituir atempadamente as provisões de açúcar, mas nunca se deve dar dinheiro. Mais vale pedir que passem mais tarde e voar a uma mercearia ou supermercado para nos redimirmos do pecado do esquecimento.
No dia do “pão, por deus”, os meus filhos foram filhos da aldeia. Hoje é o meu benjamim que atende os catraios ao portão. Eu escondo-me a ouvir-lhes as tonteiras e a ver o prazer que o sacaninha põe a fazer-me pai do pai de todas as crianças da aldeia. Porque no dia de “pão, por deus” todos os filhos da aldeia são meus filhos.
Neste dia espantoso que soubemos inventar, nas 86400 partes de um dia, o catolicismo arranjou tempo e velocidade para conjurar a memória dos que partiram com a comunhão dos que agora chegam.
É por isso que me irritam namoros e lampejos de ritos bárbaros dos povos do gelo, terrores ignorantes com que alguns ameaçam esquecer o dia do “pão, por deus”.
Porque no dia do “pão, por deus”, a minha aldeia é a Cidade de Deus.

3 comentários:

tiagugrilu disse...

Na zona de Abrantes chama-se "bolinhos" e sim, as pessoas dão maioritariamente dinheiro.

E nós não levávamos a mal, antes pelo contrário.

Romãs e essas merdas podíamos sempre roubar.

Agora a sério, concordo plenamente e este texto está nota 10 (ler com sotaque telenovelesco brazuca)

Anónimo disse...

Fiquei baralhado, Sr. Grilo, mas depois lembrei-me. Olhe que antes de ser brasileira, a cidade de que eu falo já era a de Santo Agostinho.

dutilleul

dutilleul disse...

Estou a ver que tenho de explicar umas merdas de teologia a estes caralhos.