sábado, 1 de outubro de 2016

p. 184 (notas de leitura)

Uma caricatura dos políticos do regime que justifica uma longa citação.
Surreal, é como Saraiva descreve o almoço com Luís Valente de Oliveira:
“[L]ogo no princípio da conversa diz-me uma coisa perfeitamente inesperada:’Convidei-o porque estou a elaborar as Grandes Opções do Plano e, nestas situações, gosto de ter uma conversa com uma pessoa fora da política. Da última vez falei com o Miguel Esteves Cardoso, que me fez sugestões interessantes.’ Eu fico para morrer. O homem convidou-me esperando ouvir propostas fantásticas, mas eu não tenho nada para lhe dizer nem tenho já tempo para pensar no assunto. Faço um sorriso amarelo, enquanto esmifro desesperadamente a cabeça a ver se me vem um lampejo qualquer. A verdade é que estou obrigado a dizer coisas minimamente inteligentes…

É nesse momento que me ocorre uma ideia salvadora: ‘Portugal é um país pequeno e por isso não pode apostar na quantidade; tem de apostar na qualidade. No turismo, não podemos apostar num turismo de massas, no ‘turista de caracol’ que não tem cheta. Há que atrair outro tipo de turista. E tal exige oferecer melhor qualidade. E isso é válido para todos os setores. No turismo, nos têxteis, no mobiliário ou no calçado há que apostar na qualidade. E mais qualidade não significa gastar mais dinheiro: o fundamental aos produtos de exportação é um bom design. Um bom design é decisivo – tanto para os móveis, como para os têxteis ou os sapatos… E tanto custa produzir móveis ou sapatos com mau design como com um bom.’

Umas semanas depois, assistia eu por acaso a um telejornal, quando vejo aparecer o ministro Valente de Oliveira a anunciar as Grandes Opções do Plano 2015. E começou mais ou menos assim: ‘Portugal entrou numa nova fase, e a nossa grande aposta para os próximos anos tem de ser na qualidade.’ E o ano seguinte será mesmo batizado como ‘o ano da qualidade’”

Isto poderá até parecer um exercício de jactância da parte de Saraiva. Mas estou absolutamente convencido que as coisas se passaram exatamente assim e não acredito que o autor em algum lugar do livro tenha lançado mão da mentira. Em meu entender até seria um bom “plano” embora nem seja particularmente original; tem vindo a ser a “solução” de pequenos países como a Suíça.
Mas como se vê, o “oliveirismo” entende que uma política, uma “grande opção”, é concatenável em um “ano da qualidade” e que basta perguntar a quem passa para saber onde fica o melhor restaurante da terra.

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