Durante anos as manhãs de muitos dos meus sábados foram consumidas na leitura de jornais portugueses, espanhóis, franceses e ingleses. Desse hábito já só me sobra a assinatura de um jornal on-line, da qual, de resto, só retiro proveito na leitura dos textos de dois ou três “comentadores”. Ou “colunistas”, nem sei como os designar. No tal jornal on-line estão na secção “opinião”. Jornalismo e jornalistas, propriamente ditos, tirando os do Correio da Manhã, praticamente já não há. E se ainda sobram os do Correio da Manhã, será talvez porque o jornal até vai servindo as necessidades de informação de uma porção significativa dos nossos concidadãos: serve aquela parte da população que consome o cogumelo do tempo, aparelhos auditivos, palmilhas de gel, triciclos a pilhas para superar mobilidade reduzida e pomadas anti-inflamatórias. Não é pouca gente. Chego a perguntar-me se não será também essa a razão porque o CM também suplementa alguma da minha necessidade de informação…
Mas lembrei-me dessas já muito longínquas manhãs de sábado porque nestes dias de confinamento me dei a ver uma entrevista a Vladimir Putin com a duração de hora e meia, logo seguida de uma conferência de Vladimir Pozner com a duração de quase duas horas. A entrevista de Putin permite-nos contrastar a impressão com que dele possamos ficar, com a impressão que os media e os jornalistas dele vão dando.
Pozner é um jornalista que fala para pessoas a quem, repetidamente, sente necessidade de lembrar pertencer a uma geração mais antiga, a do jornalismo das minhas manhãs de sábado. Faz um retrato de Putin, do jornalismo, dos media e da necessidade de os questionarmos.
Não num jornal ou num canal de televisão. No youtube. Onde não há redações capazes de imporem alinhamentos noticiosos, finalmente expropriadas do poder de selecionarem e imporem conteúdos. Na blogosfera, o jornalismo “de referência” é exposto na mediocridade nada deontológica das suas agendas. É denunciada a sua permeabilidade a conteúdos noticiosos fabricados e oferecidos por serviços de informação. Confrontados, engendram “polígrafos” que nos oferecem o contraditório a que nunca se sujeitaram senão através de “entidades reguladoras” de nomeação política. Vivem num mundo cujas regras ainda não compreenderam.
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