terça-feira, 24 de agosto de 2021

“os nossos corruptos são melhores que os deles”

É a ideia que por aqui passa e foi mais uma vez ilustrada na recente entrevista de Miguel Sousa Tavares a António Barreto.

O nível de corrupção dos países é habitualmente inferido a partir da perceção que os cidadãos dos diferentes países fazem dela. Não faço a menor ideia de como os diferentes índices medem a perceção dos cidadãos desses países, mas confesso que não me surpreende aquilo que entendo como um índice de perceção desproporcionalmente baixo da maioria dos meus concidadãos. Está devidamente “normalizada” por quase todos os que laboram os climas de opinião que são todas as pessoas criteriosamente escolhidas para “acharem” coisas: criaturas como o Miguel Sousa Tavares. Será necessário recordar que sujeitos como o senhor engenheiro beneficiaram de uma escandalosa falta de escrutínio graças à sistemática desvalorização dos indícios mais escabrosos de corrupção por parte destes sujeitos que acham coisas? São pessoas como eles que impõem a perceção de que entre nós há racismo, mas a corrupção é coisinha de nada.

A certa altura, na entrevista que começo por mencionar, António Barreto tenta enumerar indiciados por corrupção nas várias estruturas do estado e pergunta-se se haverá mais algum país democrático com tamanha abundância de casos. Responde o entrevistador em atalho de conversa: “-Quer já dois países? Espanha e França!”

Pergunta o cavalheiro logo de seguida:

“-Não o preocupa que essa ideia da corrupção generalizada e endémica possa conduzir a julgamentos populares instantâneos com apelos a um estado cada vez mais policial?”

Sim, claro, o António Barreto preocupa-se, fica intimidado. Ficamos todos, não vá dar-se o caso de sermos corresponsáveis pela implantação de um “estado policial”.

“-Qual corrupção? Umas coisinhas de nada.
Como na França.”


Se não fosses tu e os teus amigos a lembrarem-nos destas coisas, Miguel, o “estado policial” já se tinha “normalizado”.

Melhor fazemos em silenciar todas as evidências de uma administração corrupta fazendo com que os julgamentos não sejam populares e, sobretudo, que aconteçam muito lentamente num estado não policiado e juridicamente incapaz de a prevenir.
Muito bem, Miguel.

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