"Este preciso momento de máxima húbris ocidental coincidiu com o ligar de motores no resto do planeta, em particular na China e na Índia. A China foi a primeira a adiantar-se, com Xiaoping a lançar em 1978 o seu programa das Quatro Modernizações. No entanto, os acontecimentos de Tiananmen reforçaram a cegueira ocidental e fortaleceram, também, a convicção dos governos ocidentais de que apenas as suas sociedades haviam encontrado a fórmula mágica para o crescimento económico e para a estabilidade política. De modo semelhante, quando algumas figuras tutelares indianas como Manmohan Singh e Montek Singh Ahluwalia foram com as suas tigelas de esmolas ao FMI, em 1990-91, para pedirem assistência na resolução de uma grave crise financeira na Índia, o domínio do Ocidente pareceu óbvio.
Um outro evento por volta da mesma altura que impediu o Ocidente de alterar o seu rumo foi a crise financeira asiática de 1997-8. Em meados da década de 1990, alguns observadores ocidentais começaram a perceber que estava a ocorrer um importante ressurgimento económico na Ásia. E cresceu o desejo de negociar com os países deste continente. Vivi isto em primeira mão ao visitar várias capitais europeias na promoção da posta de Singapura para acolher o primeiro encontro entre líderes dos continentes asiático e europeu, a Cimeira Ásia-Europa (ASEM). A primeira ASEM teve lugar em Banguecoque, com grande pompa e circunstância, nos dias 1 e 2 de março de 1996. Contudo, um ano mais tarde, quando um conjunto de economias - entre elas, as da Indonésia, Malásia, Tailândia e Coreia do Sul - se precipitaram na Crise Financeira Asiática, a Europa voltou a perder o interesse na Ásia. E a condescendência ocidental regressou com maior veemência.
Em resumo, as duas décadas cruciais no ressurgimento da China e da Índia, as de 1990 e de 2000, coincidiram com um período de grande insularidade e soberba. Os líderes ocidentais não identificaram - ou preferiram ignorar - alguns marcos significativos. Em 2014, no que diz respeito ao PIB medido em termos de paridade de poder de compra (PPC), a Índia ultrapassou o Japão, tornando-se na terceira maior economia do mundo. A China, por seu turno, fez progressos ainda mais impressionantes. Em 2000, o PIB dos Estados Unidos em termos nominais era nove vezes superior ao da China. Devido ao rápido crescimento chinês nessa década, por volta de 2010, o PIB norte-americano era apenas 2,5 vezes superior ao da China.46 Mas, em termos de PPC, a China impôs-se como a maior economia do mundo em 2014, muito embora, em 1980, possuísse apenas 10 por cento do tamanho da economia norte -americana."
Kishore Mahbubani, "A Queda do Ocidente? - Uma
provocação", Bertrand Editora, 2018, pp. 61-63
Sem comentários:
Enviar um comentário