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[Mahbubani, num texto profundamente
original menciona as relações com o Islão como o primeiro erro estratégico do
ocidente. Não reproduzo porque não revela para o que mais me preocupa no que
diz respeito ao futuro da Europa e porque entendo que este pequeno livro merece
ser lido na sua totalidade]
....
"O segundo maior erro estratégico
do Ocidente foi o de continuar a humilhar a já de si humilhada Rússia. A
dissolução unilateral do império soviético levada a cabo por Gorbachev foi uma
dádiva geopolítica para o Ocidente, em particular para os Estados Unidos. A
Rússia que restou era uma pequena sombra do império soviético. Após ter vencido
a Guerra Fria sem disparar uma bala, teria sido uma atitude sábia do Ocidente
seguir o conselho de Churchill: «Na vitória, magnanimidade». Ao invés, fez
exatamente o oposto. Contrariando as garantias implícitas dadas a Gorbachev e
aos líderes soviéticos em 1990, o Ocidente expandiu a NATO até aos países
anteriormente vinculados ao Pacto de Varsóvia, entre os quais a República Checa,
a Hungria, a Polónia, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia e
a Eslováquia. Tom Friedman tinha toda a razão quando afirmou: «Opus-me à
expansão da NATO na direção da Rússia depois da Guerra Fria, num momento em que
a Rússia atravessava o seu período mais democrático e menos ameaçador. Continua a ser
uma das atitudes mais idiotas que tomámos e, claro, abriu caminho à
ascensão de Putin.» A humilhação da Rússia originou uma reviravolta inevitável.
O povo russo elegeu um líder forte, Vladimir Putin, para defender os interesses
nacionais com determinação.
Putin foi eleito presidente em 2002 e
reeleito em 2012, tendo também ocupado o cargo de primeiro-ministro entre 1999
e 2000 e entre 2008 e 2012. Ainda assim, já com Putin no poder no início deste
século, o Ocidente ameaçou expandir a NATO até à Ucrânia, muito embora alguns
estadistas norte-americanos eminentes como Henry Kissinger e Zbigniew
Brzezinski se tivessem manifestado contra. Referindo-se à Ucrânia, Kissinger
disse: «Não me parece ser uma lei da natureza que todos os Estados devam ter o
direito de serem aliados no âmbito da NATO.» Por seu turno, Brzezinski disse:
«A Rússia deve receber garantias cabais de que a Ucrânia não se tornará membro
da NATO. Estes avisos foram ignorados. Os Estados Unidos apoiaram as
manifestações contra o presidente Viktor Yanukovich da Ucrânia quando o seu
regime colapsou em 2014.
Putin sabia que o governo ucraniano
seguinte poderia levar o país a aderir à NATO. O resultado poderia ser o de a
Crimeia, que pertencera à Rússia entre 1793 e 1954, ser usada pela NATO contra
a Rússia. Putin sentiu que não tinha outra hipótese senão reapropriar-se da
Crimeia. Até mesmo Gorbachev o apoiou.
O episódio da Crimeia mostrou que há um
limite para a humilhação que um país pode suportar. Era inevitável que o povo
russo dissesse «basta!», e a eleição de Putin refletiu a vontade das pessoas.
Estas desejavam um líder forte que pudesse também afrontar o Ocidente. E Putin
fê-lo ao invadir a Crimeia e ao apoiar Assad na Síria. Não há santos nos jogos
geopolíticos. Há apenas o «olho por olho». Se o Ocidente tivesse mostrado
respeito pela Rússia em vez de a humilhar, não teria existido a ascensão de
Putin. No verão de 2017, o líder russo foi aviltado pelos meios de comunicação
social norte -americanos por ter interferido nas eleições dos Estados Unidos.
Tal interferência representa claramente um comportamento errado. Por outro
lado, nenhum líder norte-americano fez a pergunta óbvia nos debates de 2017:
terão os Estados Unidos interferido nas eleições de outros países? Dov Levin,
do Instituto de Política e Estratégia da Universidade Carnegie Mellon, compilou
uma base de dados que prova que sim- mais de 80 vezes entre 1946 e 2000. O
Ocidente também não é santo, embora corra frequentemente o perigo de acreditar
nisso.
Passemos, então, ao terceiro erro do
Ocidente: as imprudentes intervenções nos assuntos internos de vários países.
Não é uma coincidência o facto de o final da Guerra Fria ter trazido as
denominadas «revoluções coloridas». Uma lista incompleta inclui as seguintes:
Jugoslávia em 2000, Revolução Buldozer; Geórgia em 2003, Revolução Rosa;
Ucrânia em 2005, Revolução Laranja; Iraque em 2005, Revolução Púrpura; Quirguistão em 2005, Revolução das Túlipas; Tunísia em 2010, Revolução de Jasmim; Egito
em 2011, Revolução de Lótus. Muitas destas revoluções coloridas foram geradas
internamente. No entanto, quando foram postas em marcha, o Ocidente apressou-se
a apoiá-las, visto que, nas cabeças dos decisores políticos ocidentais, principalmente
nas dos norte-americanos, a exportação da democracia era um bem inerente. Nesse
sentido, acreditaram que estavam apenas a agir segundo os padrões morais mais
elevados da civilização ocidental.
São poucos os que, no Resto do Mundo,
acreditam que o encorajamento à democracia no estrangeiro após a Guerra Fria
representa um impulso moral. Pelo contrário, encaram esta posição como uma
última tentativa fútil para prolongar, através de outros meios, o período de
dois séculos de domínio ocidental da história do mundo. E também estão cientes
da cínica promoção da democracia em países adversários como o Iraque e a Síria,
mas não em países amigos como a Arábia Saudita. Tremendamente desastrosa tem
sido a decisão de, quando a intervenção corre mal, como no caso do Iraque ou da
Líbia, o Ocidente virar as costas e não assumir nenhuma responsabilidade moral
pelas consequências nefastas. Uma dolorosa verdade que não pode ser negada é
que esta imprudente tentativa de «exportar a democracia» tem aumentado, em vez de
diminuir, o sofrimento humano em muitos países.
É por demais evidente a forma como o
Ocidente perdeu o rumo nas últimas três décadas. Terá de alterar o seu trajeto.
Mas antes de formular uma nova estratégia, precisa de reconhecer a mudança de
mentalidade das populações não ocidentais. Um Resto do Mundo emergente não
admitirá o mesmo nível de intervenção ocidental que admitiu no passado.
Enquanto o Ocidente não entender isto, não compreenderá o porquê de precisar de
uma nova estratégia para continuar a prosperar.
Um relevante acontecimento recente
ilustra o quanto a ignorância histórica gera mal-entendidos entre ambas as
partes. Quando se deram os acontecimentos do 11 de Setembro, a maioria dos
norte-americanos sentiu que era vítima inocente de um ataque injustificado.
Muitos observadores internacionais ponderados viram-no como uma inevitável
reação contra os atropelos cometidos pelo Ocidente no mundo islâmico ao longo
de vários séculos. Não foram só os muçulmanos que acreditaram nisso. Um dos
maiores romancistas da América Latina, Gabriel García Márquez, perguntou aos
norte-americanos: *
Como te sentes ao ver que o horror
estourou no teu próprio quintal e não na sala dos teus vizinhos? (...) Sabes
que, entre 1824 e 1994, o teu país levou a cabo 73 inva sões a países da
América Latina? (...) Durante quase um século, o teu país tem estado em guerra
com o resto do mundo. (...) Como te sentes, ianque, ao saberes que, no dia 11
de setembro, a guerra finalmente te chegou a casa?
O Ocidente terá de reconhecer que a
humanidade é só uma. Sete mil milhões de pessoas vivem em camarotes separados
no mesmo barco. O grande problema é que, embora tenhamos comandantes e equipas
a tomarem conta de cada camarote, não temos qualquer comandante ou equipa a
tratar do barco como um todo. Podemos e devemos fortalecer as instituições
multilaterais da governação global, como as Nações Unidas, o FMI, o Banco
Mundial e a OMS, para que estas possam enfrentar os desafios globais comuns.
Não ajuda muito o facto de os Estados
Unidos serem liderados por um presidente decidido a não reconhecer que
pertencemos todos a uma só tribo humana que vive junta num pequeno e frágil
planeta, o único lugar habitável no universo conhecido. Se arruinarmos o único
planeta de que dispomos, não teremos um plano alternativo a que recorrer.
Felizmente, a disseminação da razão do Ocidente tornou o Resto do Mundo mais
consciente e responsável.
Por isso, mesmo apesar de Donald Trump, o líder da sociedade com as melhores instituições educativas a nível mundial, estar atualmente a tomar decisões insensatas acerca das alterações climáticas e a desencadear uma nova corrida ao armamento nuclear, o seu tipo de ignorância acabará por ser destronado pela ampla comunidade humana bem informada, que se revoltará contra esta falaciosa maneira de pensar. O Ocidente fez um favor ao mundo ao partilhar a sua cultura e a sua razão Agora, o Resto do Mundo, depois de ter obtido o mesmo acesso às melhores fontes de informação, será capaz de instruir o Ocidente a respeito das virtudes do trabalho conjunto, no sentido de proteger e preservar o planeta Terra. No mesmo instante em que Donald Trump retirou os Estados Unidos da batalha contra as alterações climáticas, as duas nações mais populosas, a China e a Índia, chegaram-se à frente, em vez de culparem o Ocidente por este ter criado a crise climática (o que é tecnicamente verdade). E, além disso, os povos chinês e indiano estão a apoiar os seus governos, pois sabem que os seus países sofrerão se as alterações climáticas se agravarem. Não havia garantias de que a China e a Índia continuariam a ser razoáveis neste tópico depois de Donald Trump ter tornado os Estados Unidos insensatos. O facto de terem continuado a sê-lo é um claro motivo de celebração."
Kishore Mahbubani, "A Queda do
Ocidente? - Uma provocação", Bertrand Editora, 2018, pp. 69-76
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