sábado, 1 de outubro de 2022

erros estratégicos: a rússia e a interferência nas questões internacionais

[Mahbubani, num texto profundamente original menciona as relações com o Islão como o primeiro erro estratégico do ocidente. Não reproduzo porque não revela para o que mais me preocupa no que diz respeito ao futuro da Europa e porque entendo que este pequeno livro merece ser lido na sua totalidade]

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"O segundo maior erro estratégico do Ocidente foi o de continuar a humilhar a já de si humilhada Rússia. A dissolução unilateral do império soviético levada a cabo por Gorbachev foi uma dádiva geopolítica para o Ocidente, em particular para os Estados Unidos. A Rússia que restou era uma pequena sombra do império soviético. Após ter vencido a Guerra Fria sem disparar uma bala, teria sido uma atitude sábia do Ocidente seguir o conselho de Churchill: «Na vitória, magnanimidade». Ao invés, fez exatamente o oposto. Contrariando as garantias implícitas dadas a Gorbachev e aos líderes soviéticos em 1990, o Ocidente expandiu a NATO até aos países anteriormente vinculados ao Pacto de Varsóvia, entre os quais a República Checa, a Hungria, a Polónia, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia e a Eslováquia. Tom Friedman tinha toda a razão quando afirmou: «Opus-me à expansão da NATO na direção da Rússia depois da Guerra Fria, num momento em que a Rússia atravessava o seu período mais democrático e menos ameaçador. Continua a ser uma das atitudes mais idiotas que tomámos  e, claro, abriu caminho à ascensão de Putin.» A humilhação da Rússia originou uma reviravolta inevitável. O povo russo elegeu um líder forte, Vladimir Putin, para defender os interesses nacionais com determinação.

Putin foi eleito presidente em 2002 e reeleito em 2012, tendo também ocupado o cargo de primeiro-ministro entre 1999 e 2000 e entre 2008 e 2012. Ainda assim, já com Putin no poder no início deste século, o Ocidente ameaçou expandir a NATO até à Ucrânia, muito embora alguns estadistas norte-americanos eminentes como Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski se tivessem manifestado contra. Referindo-se à Ucrânia, Kissinger disse: «Não me parece ser uma lei da natureza que todos os Estados devam ter o direito de serem aliados no âmbito da NATO.» Por seu turno, Brzezinski disse: «A Rússia deve receber garantias cabais de que a Ucrânia não se tornará membro da NATO. Estes avisos foram ignorados. Os Estados Unidos apoiaram as manifestações contra o presidente Viktor Yanukovich da Ucrânia quando o seu regime colapsou em 2014.

Putin sabia que o governo ucraniano seguinte poderia levar o país a aderir à NATO. O resultado poderia ser o de a Crimeia, que pertencera à Rússia entre 1793 e 1954, ser usada pela NATO contra a Rússia. Putin sentiu que não tinha outra hipótese senão reapropriar-se da Crimeia. Até mesmo Gorbachev o apoiou.

O episódio da Crimeia mostrou que há um limite para a humilhação que um país pode suportar. Era inevitável que o povo russo dissesse «basta!», e a eleição de Putin refletiu a vontade das pessoas. Estas desejavam um líder forte que pudesse também afrontar o Ocidente. E Putin fê-lo ao invadir a Crimeia e ao apoiar Assad na Síria. Não há santos nos jogos geopolíticos. Há apenas o «olho por olho». Se o Ocidente tivesse mostrado respeito pela Rússia em vez de a humilhar, não teria existido a ascensão de Putin. No verão de 2017, o líder russo foi aviltado pelos meios de comunicação social norte -americanos por ter interferido nas eleições dos Estados Unidos. Tal interferência representa claramente um comportamento errado. Por outro lado, nenhum líder norte-americano fez a pergunta óbvia nos debates de 2017: terão os Estados Unidos interferido nas eleições de outros países? Dov Levin, do Instituto de Política e Estratégia da Universidade Carnegie Mellon, compilou uma base de dados que prova que sim- mais de 80 vezes entre 1946 e 2000. O Ocidente também não é santo, embora corra frequentemente o perigo de acreditar nisso.

Passemos, então, ao terceiro erro do Ocidente: as imprudentes intervenções nos assuntos internos de vários países. Não é uma coincidência o facto de o final da Guerra Fria ter trazido as denominadas «revoluções coloridas». Uma lista incompleta inclui as seguintes: Jugoslávia em 2000, Revolução Buldozer; Geórgia em 2003, Revolução Rosa; Ucrânia em 2005, Revolução Laranja; Iraque em 2005, Revolução Púrpura; Quirguistão em 2005, Revolução das Túlipas; Tunísia em 2010, Revolução de Jasmim; Egito em 2011, Revolução de Lótus. Muitas destas revoluções coloridas foram geradas internamente. No entanto, quando foram postas em marcha, o Ocidente apressou-se a apoiá-las, visto que, nas cabeças dos decisores políticos ocidentais, principalmente nas dos norte-americanos, a exportação da democracia era um bem inerente. Nesse sentido, acreditaram que estavam apenas a agir segundo os padrões morais mais elevados da civilização ocidental.

São poucos os que, no Resto do Mundo, acreditam que o encorajamento à democracia no estrangeiro após a Guerra Fria representa um impulso moral. Pelo contrário, encaram esta posição como uma última tentativa fútil para prolongar, através de outros meios, o período de dois séculos de domínio ocidental da história do mundo. E também estão cientes da cínica promoção da democracia em países adversários como o Iraque e a Síria, mas não em países amigos como a Arábia Saudita. Tremendamente desastrosa tem sido a decisão de, quando a intervenção corre mal, como no caso do Iraque ou da Líbia, o Ocidente virar as costas e não assumir nenhuma responsabilidade moral pelas consequências nefastas. Uma dolorosa verdade que não pode ser negada é que esta imprudente tentativa de «exportar a democracia» tem aumentado, em vez de diminuir, o sofrimento humano em muitos países.

É por demais evidente a forma como o Ocidente perdeu o rumo nas últimas três décadas. Terá de alterar o seu trajeto. Mas antes de formular uma nova estratégia, precisa de reconhecer a mudança de mentalidade das populações não ocidentais. Um Resto do Mundo emergente não admitirá o mesmo nível de intervenção ocidental que admitiu no passado. Enquanto o Ocidente não entender isto, não compreenderá o porquê de precisar de uma nova estratégia para continuar a prosperar.

Um relevante acontecimento recente ilustra o quanto a ignorância histórica gera mal-entendidos entre ambas as partes. Quando se deram os acontecimentos do 11 de Setembro, a maioria dos norte-americanos sentiu que era vítima inocente de um ataque injustificado. Muitos observadores internacionais ponderados viram-no como uma inevitável reação contra os atropelos cometidos pelo Ocidente no mundo islâmico ao longo de vários séculos. Não foram só os muçulmanos que acreditaram nisso. Um dos maiores romancistas da América Latina, Gabriel García Márquez, perguntou aos norte-americanos: *

Como te sentes ao ver que o horror estourou no teu próprio quintal e não na sala dos teus vizinhos? (...) Sabes que, entre 1824 e 1994, o teu país levou a cabo 73 inva sões a países da América Latina? (...) Durante quase um século, o teu país tem estado em guerra com o resto do mundo. (...) Como te sentes, ianque, ao saberes que, no dia 11 de setembro, a guerra finalmente te chegou a casa?

O Ocidente terá de reconhecer que a humanidade é só uma. Sete mil milhões de pessoas vivem em camarotes separados no mesmo barco. O grande problema é que, embora tenhamos comandantes e equipas a tomarem conta de cada camarote, não temos qualquer comandante ou equipa a tratar do barco como um todo. Podemos e devemos fortalecer as instituições multilaterais da governação global, como as Nações Unidas, o FMI, o Banco Mundial e a OMS, para que estas possam enfrentar os desafios globais comuns.

Não ajuda muito o facto de os Estados Unidos serem liderados por um presidente decidido a não reconhecer que pertencemos todos a uma só tribo humana que vive junta num pequeno e frágil planeta, o único lugar habitável no universo conhecido. Se arruinarmos o único planeta de que dispomos, não teremos um plano alternativo a que recorrer. Felizmente, a disseminação da razão do Ocidente tornou o Resto do Mundo mais consciente e responsável.

Por isso, mesmo apesar de Donald Trump, o líder da sociedade com as melhores instituições educativas a nível mundial, estar atualmente a tomar decisões insensatas acerca das alterações climáticas e a desencadear uma nova corrida ao armamento nuclear, o seu tipo de ignorância acabará por ser destronado pela ampla comunidade humana bem informada, que se revoltará contra esta falaciosa maneira de pensar. O Ocidente fez um favor ao mundo ao partilhar a sua cultura e a sua razão Agora, o Resto do Mundo, depois de ter obtido o mesmo acesso às melhores fontes de informação, será capaz de instruir o Ocidente a respeito das virtudes do trabalho conjunto, no sentido de proteger e preservar o planeta Terra. No mesmo instante em que Donald Trump retirou os Estados Unidos da batalha contra as alterações climáticas, as duas nações mais populosas, a China e a Índia, chegaram-se à frente, em vez de culparem o Ocidente por este ter criado a crise climática (o que é tecnicamente verdade). E, além disso, os povos chinês e indiano estão a apoiar os seus governos, pois sabem que os seus países sofrerão se as alterações climáticas se agravarem. Não havia garantias de que a China e a Índia continuariam a ser razoáveis neste tópico depois de Donald Trump ter tornado os Estados Unidos insensatos. O facto de terem continuado a sê-lo é um claro motivo de celebração."

*A autoria desta missiva foi negada por Gabriel García Márquez em declarações ao jornal La Jornada, a 15 de Fevereiro de 2003. (N. da E.)

Kishore Mahbubani, "A Queda do Ocidente? - Uma provocação", Bertrand Editora, 2018, pp. 69-76

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