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domingo, 9 de outubro de 2016

p. 258 (notas de leitura)

Recordo-me que em tempos, vez por outra, – não sei se ainda acontece –, os jornais “de referência” davam de construir a reputação de alguém que afiguravam como promessa política e que era unanimemente apresentado como cântaro de virtudes e qualidades, a água mais pura e fresca para protagonismo político num qualquer partido (com representação parlamentar).
Para mim, o primeiro e último desses episódios em que me senti tolo de fé– de vida breve, apenas até aos primeiros assobios da criatura – foi com Durão Barroso. Sucederam-se outros: António Vitorino, por exemplo - foi divertido porque a certa altura percebi que os “criadores” estavam espantados com a medíocre vulgaridade da criatura.
Outra dessas “criações” foi Vítor Constâncio que viria a ser “apontado como o mais forte candidato”:

“Na conversa que mantivemos mostrou-se um homem convencido de si próprio. Estava-se no período de sucessão à liderança do PS, após o anúncio de saída de Mário Soares, e ele era apontado como o mais forte candidato. À minha pergunta sobre o assunto, respondeu que só se candidataria se tivesse a certeza absoluta de ganhar e houvesse uma quase unanimidade em redor do seu nome. Era como se estivesse a fazer um favor ao PS e não aceitasse ser contrariado.”

À frente do Banco de Portugal, não obstante sucessivos erros em previsões macroeconómicas, continuou a gozar de “boa imprensa”. E continuou a gozar de “boa imprensa”, não obstante as sucessivas falhas na supervisão bancária nos casos do BPN, BPP e BCP com prejuízos de cerca de 10.000 milhões de euros a faturar ao contribuinte. Justificou tudo com preleções em que, no jargão dessa “ciência oculta” que é a economia e com uma arrogância a roçar a má criação, explicou às criancinhas a inevitabilidade do desastre e as superiores virtudes da sua pessoa à frente do Banco de Portugal, uma instituição ruinosamente dispendiosa, reiterada e confessadamente incompetente e, nos seus desígnios, inútil a um país sem soberania financeira.
Numa magnífica ilustração do princípio de Peter, em 2010 foi nomeado vice-presidente do Banco Central Europeu.
Durante oito anos, é um azeiteiro a menos por aqui.

domingo, 2 de outubro de 2016

p. 193 (notas de leitura)

“Ele era secretário-geral do PSD, o homem do aparelho que Cavaco Silva não levou para o Governo de 1985, e eu achava-o irritante e conflituoso.”

Meia dúzia de anos depois, (“[e]m 1991 ou 1992…”) estava José Pedro Castanheira, jornalista do Expresso, a dar voltas à cabeça na tentativa de compreender como é que um modesto advogado de província acabado de chegar às “governações” podia acumular finanças lícitas para o luxo que começa a ostentar para os lados do Estoril; “[n]ão se trata de ‘notícia’ mas de uma ‘presunção’.

Depois de sair do Governo [com maiúscula, conforme o original], Dias Loureiro começou a evidenciar alguns sinais exteriores de riqueza e até uma despropositada (e fatal) tendência para a ostentação. [fatal, porquê, caro Saraiva? – Pergunto-me eu para aqui…]. À refeição manda vir vinhos caríssimos, segundo me contam.”

As evocações de Saraiva continuam-se pelas magras quatro páginas que lhe dedica, em exemplos em que Dias Loureiro se oferece “…para [os] mandar buscar a todos onde for preciso, inclusive de helicóptero.” Para almoçar na Herdade do Esporão.
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Cavaco Silva, o homem que reclamou para si próprio uma seriedade acima da média dos mais comuns mortais, pareceu ter sempre esta extraordinária capacidade de se rodear deste género de pessoas. Que, sabe-se lá como, desencantava a pontapé sob um qualquer calhau de granito numa qualquer cova do país profundo.
Com Dias Loureiro a transpirar “riqueza”, estalava “o escândalo do BPN” e “surgia entre os suspeitos, ainda que recusasse energicamente qualquer ato ilícito e eu acreditasse na sua inocência. Não por achar que era um anjo – mas por achar que era suficientemente inteligente para não se deixar apanhar numa ilegalidade evidente.” Aquela coisa do Ministério da Administração Interna deve ter ajudado na escola. E os documentos escondidos na casa de banho foram amendoins para quem sabe acompanhar-se de um libanês manhoso em viagens pela América Central.
As controvérsias não arranham quem sabe do edifício jurídico que no parlamento é laborado à vírgula  para inocentar as patifarias de quem se agiganta nas idas à lata das bolachas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

da nacionalização dos mirós do libanês

Por alturas do regabofe noticioso acerca do BPN, a certa altura, num qualquer noticiário, mostraram “obras d’arte”, aparentemente dadas como garantias de empréstimos a um amigalhaço de Dias Loureiro, um tal libanês de duvidosa reputação. Creio que a origem é esta, mas não quero jurar, não foi nisso que me fixei (é verem, para tirar a coisa de abafo).
Mostraram imagens de “obras d’arte egípcia” que pareceriam ridículas se confrontadas com alguns souvenirs vendidos em bazares no Cairo. Fiquei atónito ao ver aquilo, mas ninguém disse nada, ninguém viu nada… É que temos egiptólogos. Por exemplo, o Luís Miguel de Araújo, não sendo especialista em arte, haveria de ficar de boca à banda com aquelas quinquilharias. Como ele é um pouco “aéreo”, se calhar, não viu.
E mostraram uns “Mirós”, parte do mesmo lote de garantias bancárias. Ora, embora em meu entender Miró não seja especialmente interessante, há, contudo, duas ou três coisas que ele sabia fazer muito bem. Coisas que não vi em nenhuma das imagens dos quadros que iam sendo episodicamente reproduzidas pela imprensa. It smelled fishy, very fishy…
A certa altura veio a saber-se que havia intenção de os empandeirar através de uma leiloeira londrina. E eu calei muito bem caladas as minhas suspeitas; o pouco que se fizesse, dava para suavizar a fatura sobre o contribuinte.
Só que, entretanto, os “intelectuais” que se interessam muito por estas coisas da “cultura” e assim, souberam da marosca e vá de fazer chinfrim politicamente insustentável.  E vá de providências cautelares e tudo o mais que é rotina em tais casos.
Soube hoje que a coisa foi parar às respeitáveis paredes de Serralves em toda a pompa.
Para sermos poupados a um qualquer embaraço, não dava para contratar os serviços de um qualquer Jacques Dupin?
Só para o libanês não se ficar para aí a rir muito.