“A Justiça não ia tão longe como hoje?
Não, não ia tão longe como hoje. Só quando o PS pôs aquela senhora que apanhou o Sócrates, a procuradora-geral da República [Joana Marques Vidal], é que isto virou um bocadinho. Eu disse ao Cavaco na primeira vez em que lá fui com ele: ‘Eu apoio-o de alma e coração, mas isto está a saque. Quero um polícia porque não percebo o que se passa nos bancos e nas transferências e o senhor percebe. Eu quero que o senhor apanhe esses gajos. Essa altura é a época de pessoas como o cunhado do Guterres, o Moura Santos, e faziam-se negócios fantásticos à mesa dele. Era o Ricardo Salgado duas vezes por ano nos jantares dele e outros que foram ministros de Cavaco. Eu via aquelas coisas todas, eles não se escondiam. Eu sabia o que se passava porque eles estavam lá sempre metidos em casa do cunhado do Guterres a combinar coisas absurdas – o cargo dele era o cunhadíssimo -, era público. Mais, esse Moura Santos foi condenado pelo Tribunal da Boa-Hora num caso de burla qualificada, um negócio que o ministro Mira Amaral teria conhecimento.
É com o governo de Cavaco que começa a corrupção em Portugal?
Não é no governo de Guterres. Acho que os grandes negócios se tramaram no governo de Cavaco, mas é no governo de Guterres que aquilo explode e começam a organizar-se calmamente.
E o António Guterres não sabia?
No início de ser primeiro-ministro, ele dependia um pouco do cunhado para as decisões fundamentais com os bancos e os organismos estrangeiros. E a seguir aquilo tinha-se tornado numa prática comum. Eles faziam as coisas à minha frente porque se achavam no direito de as fazer enquanto estavam a jantar uns com os outros.
Pode dizer-se que a atual corrupção começa nessa época e é a classe política a principal beneficiária?
Começa nessa época e é a classe política e as pessoas que estão pelo meio, os amigos. Nunca percebi porque é que o Guterres o deixava fazer coisas daquelas, como fixar os preços que queriam e o governo aceitar. É uma situação ultracomprometedora em que o Guterres nunca tocou. O Guterres é, sobretudo, incompetente. Faz aqueles discursos muito bonitos sobre a educação, os direitos humanos e sobre o clima, mas é o máximo até onde ele vai. Executivamente, era também um incompetente e no governo dele havia uma crise de quinze em quinze dias porque não se tomavam decisões. Toda a gente dava conselhos sobre como tomar decisões ao primeiro-ministro! E não houve nada, tirando aquele arranque a propósito da Educação e das políticas educativas, aliás muito discutíveis, no governo dele. O PS estava há dez anos fora do governo e nada houve de afirmativo no governo dele, nem claro ou mobilizador. Foi um governo fraquíssimo.
Colaborou com ele?
Ele convidou-me para entrar numa campanha e perguntou-me o que devia fazer. ‘Olha’, disse eu, ‘emagrece dez quilos e deixa de deitar os pés para fora’ Ele deita os pés para fora quando anda. Assim… [faz o gesto]
Não entrou na campanha do PS?
Não, os Estado Gerais eram ultra-artificiais e ele estava naquelas fases de obeso, em que perde mais votos porque está gordo e a deitar os pés para fora como nunca – até arrepiava.”
João e Céu e Silva, Uma longa viagem com Vasco Pulido Valente, Contraponto, 2021, pp. 238-240
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