(textos originalmente publicados on-line em 31/01/2022)
ps
O ps conseguiu uma maioria absoluta à custa do efeito das sondagens nos eleitores. Sondagens em relação às quais reagi (24 de janeiro, 11.30h) com enorme estranheza perguntando-me como é que era possível uma diferença de 10 pontos no espaço de uma semana em que nada de politicamente superlativo acontecera. Não sou dado a teorias da conspiração, mas a viragem do discurso do doutor costa é insuficiente para me convencer de que não estava a fazer teatro e anular o meu desejo de explicações por parte das empresas que as deram à luz. E não me tranquilizam explicações do tipo “efeito moedas”. Não preciso. Tenho uma que é muito satisfatória: o cachopo que tinha ficado a fazer de presidente da câmara de Lisboa foi levado à desgraça pelo espetáculo televisivo da porteira de Arroios. Para quem não conhece as rotinas dos “militantes socialistas” aquilo deve ter sido chocante. A lembrar D. Corleone a passear-se pelo mercado, a pegar numa maçã aqui, outra ali, com beija-mão pelo meio.
psd
Como também aqui escrevi (28/11/21), o tipo das gincanas foi favorecido nos afetos dos “militantes social-democratas” pelo facto de o seu oponente ter tido a desgraça de declarar indisponibilidade para alianças com o ps. Como nenhum deles acreditava numa derrota suficientemente expressiva para afastar o ps do poder, rui rio oferecia hipóteses de os sentar à mesa, o verdadeiro significado da ”militância”. Por lá, como pelo ps. O episódio das sondagens levou-os à ilusão de que era possível. Completamente indiferentes ao facto de rui rio situar o partido e a si próprio na área ideológica do “centro-esquerda”, seja lá o que isso for. Por cálculo, evidentemente; não nos esqueçamos que é contabilista e deve ter feito as contas todas para concluir que é “aí” que se ganham eleições. Não é de “centro-esquerda” por inclinação ideológica porque pelo psd - tanto quanto pelo ps-, a ideologia não interessa para nada. Apenas precisam falar em “esquerda” e “direita” porque isso vai chegando para produzir a ilusão de que têm ideias. Feitas as continhas, sabendo o que a casa gasta no que a convicções diz respeito - e porventura animado pelas sondagens que momentaneamente evaporaram uma diferença de 10 pontos (dez!) no espaço de alguns dias-, o tipo das gincanas ficou à espera que a direita em peso cerrasse fileiras em torno da sua augusta pessoa.
Já começou a falar alemão. Não acredito que se enxergue e vai ficar à espera que o atirem borda fora.
chega!
Ventura capitalizou o ressentimento, a raiva surda que o nepotismo, a corrupção e o despudor instila em qualquer pessoa com um par de olhos e o sentimento de impotência que resulta de um clima de opinião publicada que parece completamente indiferente aos sucessivos atropelos à ideia de um estado de direito. Veja-se, a título de exemplo -e já quase em período de campanha-, a junção dos ministérios da administração interna com o ministério da justiça sob a mesma tutela. Uma solução simbolicamente acolhida com a mais olímpica indiferença... Resumindo, ao doutor ventura “a situação” ofereceu um bodo político que o fez sorrir de alegria. Mas sinto-me tentado à imprudência de especular acerca de uma digestão que tem muito para se tornar difícil: por esta altura o “chega!” já estará tão infetado de videirinhos arrivistas quanto qualquer um dos outros partidos que afronta e presenteiam com uma razão de ser; tendencialmente será menos imune à boçalidade que tão frequentemente contamina o ressentimento e a impotência; não me parece que seja um partido onde abundem pessoas qualificadas para o combate político (para além do próprio ventura e do Gabriel Mithá Ribeiro, não me ocorre mais ninguém, admito que por estar muito mal informado…); tendo elegido 12 deputados, é altamente improvável que o “chega!” tenha multiplicado as virtudes tribunícias de ventura – bastante ao contrário, ventura passa a ter que lidar com doze flancos aos olhos de gente muito animosa…; a denúncia sem programa - além de uma espécie de justicialismo peronista -, pode revelar-se insuficiente para mobilizar eleitores e garantir-lhe um futuro.
Mas nem tudo será mau: a maioria do doutor costa de volta da travessa gorda dos fundos europeus deixa antecipar todo um programa de “novas oportunidades”; os ataques de comentadores, humoristas e demais bloquistas vão continuar a favorecer e a mobilizar vigorosamente os eleitores em torno de ventura.
Mas tenho muitas dúvidas que estas coisas cheguem para superar os constrangimentos que alinhei pouco exaustivamente.
Pensando melhor, não sei se não chegará. Eu a acabar de escrever isto e pouco depois a ver isto:
iniciativa liberal
Com apenas 4 anos de vida já é o único partido ao mesmo tempo com representação parlamentar e um programa político; o pcp tem doutrina mas não tem programa político compatível com um estado democrático.
Além dessa enorme vantagem sobre os demais partidos com representação parlamentar -e não, não o digo por causa das 600 ou 700 páginas que, de resto, não li…-, tem várias pessoas capazes de articular ideias. Cultiva a singularidade de confrontar regularmente os portugueses com factos (a que não dão a devida importância) através de infografias que vão impondo as causas da “il” no comentário e debate político (e que aqui vou reproduzindo, vez por outra).
O curriculum profissional de Cotrim de Figueiredo por vezes faz-me lembrar a Ayn Rand. Que às vezes parece inspirá-lo e acabou os seus dias a viver da segurança social… O regresso de Guimarães Pinto a partir do parlamento vem matar algumas saudades do seu protagonismo. Não creio que a “il” venha a ter vida breve. Tem um programa político, como comecei por dizer.
cdu
Encolheu. E a vigarice que nunca foi a votos, batizada de “pev” - responsável por ter desacreditado o movimento ambientalista que havia nascido na oposição à central nuclear projetada para Ferrel e era apoiado pelos verdes alemães-, deixou de ter representação parlamentar.
Especulando um pouco: não creio que o pcp tenha perdido votos para o ps. Se perdeu alguns (poucos…) tê-los-á perdido no Alentejo e para o “chega!”; não creio que o doutor ventura fale com desconhecimento destes assuntos. Mas o maior volume dos votos que o pcp perdeu relaciona-se com a crise das vocações religiosas e a ascensão do materialismo em dano do misticismo que a pouco e pouco vai exaurindo o número de fiéis. Não creio que essa tendência seja reversível.
p.s.: Alguns comentadores antecipam que o pcp irá usar a rua para conseguir o que não conseguiu nas urnas. Acho que se enganam. A rua já não é o que era. Entre outras razões porque não se faz uma geringonça sem consequências.
be
Se a ideia de uma maioria “socialista” a esgadanhar a travessa farta dos fundos europeus é de nos deixar em cova, a aparição apoteótica de catarina martins para anunciar a estrondosa derrota do be não deixou de ser divertida. O momento mais cómico foi quando ameaçou com a luta o partido “racista”. Pelo andar da carroça, o partido do doutor ventura vai continuar a crescer. Com inimigos destes seria uma vergonha que o não fizesse.
Muito evidentemente, depois de todo o trabalho de diabolização do “chega!”, aterrorizados com o “fascismo” anunciado pelo be, comentadores e outros humoristas, os seus eleitores naturais correram a defender-se da “direita fascista” em quem tinha maiores probabilidades de os salvar: o doutor costa. Para o bloco, a “direita fascista” começa logo no “centro-esquerda” do pobre doutor rio...
Foram as primeiras vítimas da maioria do doutor costa. Prova-se mais uma vez que é um partido com eleitorado yo-yo. Foi, mas passado o susto pode voltar.
Partido do táxi, não é improvável que tente as ruas. Sem apitos, mas com antifas, a sua tropa de choque.