Um deputado do Chega! capou um gato na sala onde habitualmente são recebidos os jornalistas.
Já seguiu queixa para a Ordem dos Veterinários.
Um deputado do Chega! capou um gato na sala onde habitualmente são recebidos os jornalistas.
Já seguiu queixa para a Ordem dos Veterinários.
Como já alguém aqui escreveu com muita graça, no Chega assemelham-se cada vez mais aos piratas nas aventuras do Asterix: não precisam de mais ninguém para afundarem o navio. Eles mesmos se encarregam disso.
Mas gostava muito de perceber o que é que o André Ventura – ao que li na "comunicação social", um brilhante aluno de Direito, com amigos em tribunais superiores... – não gostou da partilha de um artigo por parte do Gabriel Mithá Ribeiro ao ponto de exigir que fosse apagado “em 24 horas”.
Porque é verdade quando se sugere que o Chega mais não tem feito do que um burlesco apelo ao agravamento de penas em
vez de defender uma verdadeira reforma na justiça, uma reforma que aliás
prometeu ao seu eleitorado.
(textos originalmente publicados on-line em 31/01/2022)
ps
O ps conseguiu uma maioria absoluta à custa do efeito das sondagens nos eleitores. Sondagens em relação às quais reagi (24 de janeiro, 11.30h) com enorme estranheza perguntando-me como é que era possível uma diferença de 10 pontos no espaço de uma semana em que nada de politicamente superlativo acontecera. Não sou dado a teorias da conspiração, mas a viragem do discurso do doutor costa é insuficiente para me convencer de que não estava a fazer teatro e anular o meu desejo de explicações por parte das empresas que as deram à luz. E não me tranquilizam explicações do tipo “efeito moedas”. Não preciso. Tenho uma que é muito satisfatória: o cachopo que tinha ficado a fazer de presidente da câmara de Lisboa foi levado à desgraça pelo espetáculo televisivo da porteira de Arroios. Para quem não conhece as rotinas dos “militantes socialistas” aquilo deve ter sido chocante. A lembrar D. Corleone a passear-se pelo mercado, a pegar numa maçã aqui, outra ali, com beija-mão pelo meio.
psd
Como também aqui escrevi (28/11/21), o tipo das gincanas foi favorecido nos afetos dos “militantes social-democratas” pelo facto de o seu oponente ter tido a desgraça de declarar indisponibilidade para alianças com o ps. Como nenhum deles acreditava numa derrota suficientemente expressiva para afastar o ps do poder, rui rio oferecia hipóteses de os sentar à mesa, o verdadeiro significado da ”militância”. Por lá, como pelo ps. O episódio das sondagens levou-os à ilusão de que era possível. Completamente indiferentes ao facto de rui rio situar o partido e a si próprio na área ideológica do “centro-esquerda”, seja lá o que isso for. Por cálculo, evidentemente; não nos esqueçamos que é contabilista e deve ter feito as contas todas para concluir que é “aí” que se ganham eleições. Não é de “centro-esquerda” por inclinação ideológica porque pelo psd - tanto quanto pelo ps-, a ideologia não interessa para nada. Apenas precisam falar em “esquerda” e “direita” porque isso vai chegando para produzir a ilusão de que têm ideias. Feitas as continhas, sabendo o que a casa gasta no que a convicções diz respeito - e porventura animado pelas sondagens que momentaneamente evaporaram uma diferença de 10 pontos (dez!) no espaço de alguns dias-, o tipo das gincanas ficou à espera que a direita em peso cerrasse fileiras em torno da sua augusta pessoa.
Já começou a falar alemão. Não acredito que se enxergue e vai ficar à espera que o atirem borda fora.
chega!
Ventura capitalizou o ressentimento, a raiva surda que o nepotismo, a corrupção e o despudor instila em qualquer pessoa com um par de olhos e o sentimento de impotência que resulta de um clima de opinião publicada que parece completamente indiferente aos sucessivos atropelos à ideia de um estado de direito. Veja-se, a título de exemplo -e já quase em período de campanha-, a junção dos ministérios da administração interna com o ministério da justiça sob a mesma tutela. Uma solução simbolicamente acolhida com a mais olímpica indiferença... Resumindo, ao doutor ventura “a situação” ofereceu um bodo político que o fez sorrir de alegria. Mas sinto-me tentado à imprudência de especular acerca de uma digestão que tem muito para se tornar difícil: por esta altura o “chega!” já estará tão infetado de videirinhos arrivistas quanto qualquer um dos outros partidos que afronta e presenteiam com uma razão de ser; tendencialmente será menos imune à boçalidade que tão frequentemente contamina o ressentimento e a impotência; não me parece que seja um partido onde abundem pessoas qualificadas para o combate político (para além do próprio ventura e do Gabriel Mithá Ribeiro, não me ocorre mais ninguém, admito que por estar muito mal informado…); tendo elegido 12 deputados, é altamente improvável que o “chega!” tenha multiplicado as virtudes tribunícias de ventura – bastante ao contrário, ventura passa a ter que lidar com doze flancos aos olhos de gente muito animosa…; a denúncia sem programa - além de uma espécie de justicialismo peronista -, pode revelar-se insuficiente para mobilizar eleitores e garantir-lhe um futuro.
Mas nem tudo será mau: a maioria do doutor costa de volta da travessa gorda dos fundos europeus deixa antecipar todo um programa de “novas oportunidades”; os ataques de comentadores, humoristas e demais bloquistas vão continuar a favorecer e a mobilizar vigorosamente os eleitores em torno de ventura.
Mas tenho muitas dúvidas que estas coisas cheguem para superar os constrangimentos que alinhei pouco exaustivamente.
Pensando melhor, não sei se não chegará. Eu a acabar de escrever isto e pouco depois a ver isto:
“O Chega é populista porque, segundo a definição científica do conceito, a sua mundividência está baseada numa perspetiva dicotómica da realidade política, segundo a qual, há 45 anos, uma elite se apoderou dos gânglios do poder político, económico, mediático, cultural, atraiçoando o povo português, mantido, cada vez mais, na margem de qualquer processo decisório e vexado nas suas componentes mais produtivas. Esta elite, corrupta e corruptora, é transversal aos partidos que se reconhecem na III República Portuguesa, sejam eles pilares dos governos de centro-direita nas coligações PSD-CDS, dos governos do bloco-central PS-PSD ou do governo de esquerda da Geringonça. A transversalidade consubstancia-se num pacto de regime em quatro dimensões. Na dimensão política, o sistema foi deixado aberto, sem restrições, à esquerda radical, mas limitado, no polo oposto, apenas à direita “permitida”, ou seja, à direita tíbia, receosa de reivindicar a sua identidade, impossibilitada em assumir a crítica anti-sistema, sujeita à constante demonização através dos chavões do extremismo, do fascismo, do racismo. Com origem nas contingências históricas do 25 de Abril de 1974, o enviesamento à esquerda foi cristalizado, ao longo das décadas, menos por representar a realidade política do país e mais para excluir, do jogo democrático, crescentes faixas de cidadãos, como demonstra o incremento da abstenção e da insatisfação dos eleitores com as instituições do regime e com a qualidade da democracia. Na dimensão económica, a elite construiu uma rede de compadrio entre o sector público e o sector privado, onde circulam políticos de carreira, tecnocratas, empresários, nos grandes grupos económicos ou nas parcerias com o Estado, a nível tanto nacional como local. Esta teia de clientelismos e corrupções nos mais diversos níveis cria uma redoma de vasos comunicantes onde, há décadas, as mesmas pessoas sobem e descem, mas nunca desaparecem, sugando os recursos financeiros da nação, à qual são devolvidos apenas a estagnação económica crónica, serviços públicos disfuncionais, as migalhas da subsídiodependência, a perspectiva da emigração, principalmente para os mais novos. As dimensões mediática e cultural são as que mais exemplificam o pacto do regime: aqui, às esquerdas radicais, excluídas em larga medida da dimensão económica, é dado campo livre, através da sua rede de sindicatos e associações, para ocupar redacções de jornais, palimpsestos televisivos, instituições de cultura e educação – integrando ministérios, escolas básicas e secundárias, e universidades, nas áreas das Ciências Sociais e Humanas -, para implementarem a sua agenda de policiamento do pensamento, de imposição da correcção política, de ‘marxismo cultural’. Inócua para o sistema económico predatório e cúmplice na edificação do Estado monstro, a rede, a rede das elites esquerdistas revela-se extremamente eficaz no silenciamento, na denúncia e na demonização de todas as vozes críticas contra o regime, não alinhadas com a cartilha progressista das elites intelectuais estabelecidas.
Todos estes elementos presentes no ideário do Chega, tanto nos quadros como na base, determinam a separação, no seu discurso, entre o Portugal de cima – seja ele de esquerda, do centro ou de direita – próximo das alavancas do poder – e o Portugal de baixo, totalmente excluído do sistema e mantido nas suas margens, para alimentar o simulacro da democracia.”
Riccardo Marchi, A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega, Almedina, 2020, pp. 193-194
Na altura em que comprei o livro, ia na 2ª edição. Aquando da primeira, como frequentemente sucede com o lançamento de um livro, o seu autor foi convidado a falar dele no canal 2 da televisão pública. A esse pretexto, num dos mais vergonhosos episódios da democracia portuguesa, 67 “universitários” resolveram fazer um abaixo-assinado “Contra a higienização académica do racismo e fascismo do Chega”
Os “universitários” subscritores dessa coisa estão todos devidamente retratados no texto de Riccardo Marchi aqui citado. Para memória futura, os seus nomes e as funções que se atribuem no regime que os engorda ficam aqui devidamente elencados:
Adriano Campos, sociólogo, FEUC-UC; Alice Ramos, socióloga; Ambra Formenti, investigadora; Ana Alcântara, historiadora, ESE-IPS e IHC-FCSH; Ana Benavente, socióloga, docente; Ana Delicado, investigadora; Ana Ferreira, investigadora, FCSH-UNL; Ana Raquel Matias, socióloga; Ana Rita Alves, doutoranda, CES-UC; André Barata, filósofo, UBI; Boaventura de Sousa Santos, director Emérito do CES-UC; Bruno de Sena Martins, antropólogo; Cláudia Castelo, historiadora; Cristiana Bastos, antropóloga; Cristina Gomes da Silva, socióloga, professora do ensino superior; Cristina Roldão, socióloga, ESE-IPS e ISCTE-IUL; Cristina Santinho, antropóloga, investigadora e docente universitária; Eduardo Costa Dias, professor jubilado, ISCTE-IUL; Elsa Pegado, socióloga, investigadora e docente, CIES-ISCTE; Fernando Rosas, historiador, FCSH-UNL; Francesco Vacchiano, investigador associado, ICS-UL; Gaia Giuliani, investigadora; Inês Lourenço, investigadora, CRIA/ISCTEIUL; Inês Pereira, FCSH-UNL, ISCTE-IUL; Inocência Mata, professora universitária, FLUL; Iolanda Évora, investigadora e docente; Irene Pimentel, historiadora, IHC, FCSH-UNL; Joana Lucas, antropóloga; João Figueiredo, investigador, UNL; João Mourato, investigador auxiliar, ICS-UL; João Teixeira Lopes, sociólogo, FLUP; João Vasconcelos, investigador; Jorge Vala, investigador emérito, ICS-UL; Kitty Furtado, investigadora, CES-UC; Lígia Ferro, professora auxiliar, FLUP; Manuel Carlos Silva, professor universitário; Manuel Loff, historiador; Manuela Ribeira Sanches, docente universitária; Margarida Paredes, antropóloga; Maria José Casa-Nova, Universidade do Minho; Maria Paula Meneses, investigadora, CES-UC; Mariana Pires de Miranda, investigadora auxiliar, ICS-ULisboa; Marta Araújo, investigadora em Ciências Sociais; Marta Lança, IHA, FCSH-UNL; Miguel Cardina, historiador, CES-UC; Miguel Vale de Almeida, antropólogo; Nuno Dias, sociólogo; Otávio Raposo, antropólogo, CIES-ISCTE; Paula Godinho, antropóloga; Pedro Abrantes, professor universitário; Pedro Schacht Pereira, professor universitário; Pedro Varela, doutorando, CES-UC; Raquel Lima, doutoranda, CES-UC; Renato Carmo, professor universitário; Rita Cachado, antropóloga; Rui Gomes Coelho, arqueólogo; Sandra Mateus, investigadora, CIES-ISCTE; Silvia Maeso, socióloga; Sílvia Roque, investigadora; Simone Amorim, investigadora, CEsA/ ISEG/UL; Simone Frangella, antropóloga; Simone Tulumello, geógrafo; Susana Santos, investigadora, ISCTE-IUL; Teresa Seabra Almeida, docente universitária; Teresa Fradique, cientista social; Vitor Sérgio Ferreira, sociólogo, investigador auxiliar.